terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Não éramos tão próximos



Bebi demais um dia. Saí pra fumar um cigarro antes de ir trabalhar e um amigo apareceu lá. Não falava com ele há uns 6 anos. Até mais.
Ele me convidou pra tomar umas depois do trabalho.
Disse que sim. Não ia fazer porra nenhuma mesmo.
Cheguei na casa dele depois do serviço, umas 7 da noite. Estava recém escurecendo.
A casa parecia meia acabada, mas dava pro gasto.
A mãe dele tinha se mudado com o padrasto quando ele tinha uns 20 anos e ele ficou morando ali.
Hesitei por um momento, mas apertei a campainha. Demoraram para atender.
Uma mulher de uns 30 anos abriu a porta e me viu no portão.
Era muito bonita, mas de um jeito estranho. Não era do tipo mulher capa de revista, sabe? Bom, sei lá.
- Você é o Pedro?
- Hã... sim. Sou eu.
Ela fechou a porta. Abriu novamente, trazendo um molho de chaves.
Sorriu para mim ao se aproximar.
Deu a impressão de não sorrir com frequência.
Abriu o portão.
Estendi a mão.
- Prazer, eu disse. Você é namorada do Carlos?
Ela me cumprimentou meio sem jeito.
- Sim, sim. Sou sim. Daniela.
Tentei sorrir, mas não deu muito certo.
Ela tinha uma mão quente.
Tentei não olhar diretamente para o decote, mas não consegui.
Ela soltou a minha mão e se afastou.
- Pode entrar.
- Hã, obrigado.
Entrei e caminhei pela calcadinha até a casa.
- Ele acabou de ir pro banho. Já já ele sai.
- Ok.
Pedi licença para entrar na casa, que estava com a porta aberta.
Senti cheiro de omelete.
- Já comeu? Quer um pouco? Acabei de fazer, disse ela apontando para a frigideira.
- Não, obrigado. Não estou com fome.
Ela pegou um prato e colocou o omelete nele.
- Pode sentar, fica à vontade.
Fiz o que pediu, por educação.
Dava para ouvir o barulho do chuveiro ligado.
Ela se sentou no sofá. Começou a comer sem cerimônias. Na TV passava um desses canais de clipes, com a música Don’t Speak, do No Doubt.
- Escutava muito essa música, ela disse, ainda mastigando.
Um pedaço do omelete ficou no canto de sua boca.
Indiquei para ela e ela demorou alguns segundos antes de entender.
Levantou-se e pegou um guardanapo. Limpou a boca. Passou a língua sobre os lábios.
- Ah, esqueci de te oferecer alguma coisa pra beber.
- Não, estou bem.
- Não, quer alguma coisa? Coca, café...? acho que o café acabou.
- Humm, pode ser Coca.
Ela abriu a geladeira e se abaixou para pegar a garrafa.
Parecia que estava sem calcinha sob o vestido. Ou eu só tive a impressão.
Colocou metade do copo pra mim e para ela.
- Obrigado.
- De nada, disse, sentando-se novamente no sofá.
Ficamos em silêncio.
Ela parecia entretida com os clipes e a comida.
Fiquei bebericando o copo de Coca. Olhei para a decoração da sala. Não tinha muitos móveis, só o necessário.
A TV era de umas 32 polegadas.
Pensei, Caraio, o que eu to fazendo aqui?
Resolvi quebrar o silêncio.
- Então... hã... como conheceu o Carlos?
Ela me olhou por alguns segundos. Tomou um gole de coca.
- Eu era amiga da irmã dele.
- Sério?
- É. Um dia ela me convidou pra ir no cinema e ele foi junto. A gente conversou e...
Não terminou a frase.
Balancei a cabeça.
- Entendi.
Ela me olhou bem séria. Como se me analisasse.
- E você? São amigos próximos? Ele nunca me falou de você até ontem.
- Mais ou menos... a gente estudava junto. No... colegial, eu acho. Ou foi na oitava série? Não lembro direito.
- Humm.
Ela levantou as sobrancelhas.
Terminou de comer.
- Tem certeza que não quer? Posso fazer outro.
- Não, obrigado.
Ela colocou o prato numa mesinha. Tomou o resto da Coca. Passou a mão em seu cabelo.
Imaginei-a tirando a blusa. Olhando para mim, enquanto tirava o sutiã, mordendo o lábio inferior.
Ela começava a me parecer familiar.
- Você não me é estranha. Te conheço de algum lugar.
- Acho que não. Cheguei na cidade há uns dois anos só.
- Nossa...
- Pois é. Vim cuidar da minha avó.
- Então você vinha pra cá antes?
- Muito pouco. Acho que vim aqui só umas 3 vezes.
Ela se ajeitou no sofá, esticando as pernas.
Que pernas.
Parecia desinteressada na minha conversa.
Voltei a ficar em silêncio.
Trocou de canal.
O chuveiro parou de funcionar.
Voltei a imaginar ela sem o sutiã. Parecia um bom passatempo. Ela tirava o vestido lentamente.
- Pedro?
- Hã?
- E aí, como é que tá?
Carlos vinha minha direção. Estava colocando a jaqueta.
Levantei e o cumprimentei.
- Tudo bem, cara.
- Vamo aí?
- Vamos sim.
Deixei o copo na mesinha perto do prato dela.
- A gente já vai, ele disse pra ela.
- Ok.
Deram um beijo demorado. Depois mais um selinho.
Ela ficou me olhando enquanto eu o acompanhava.
- Bom, até mais, eu disse, acenando pra ela.
- Até.
Ela deu um sorriso e depois voltou a encarar a televisão.


Conto de Lucas Beça

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