segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

CALHORDAS



Conto de Gustavo do Carmo

Um grupo de ex-alunos de uma faculdade de jornalismo carioca se reunia em um restaurante na zona leste de São Paulo, para onde todos tinham sido transferidos. Conversavam sobre trabalho, promoções profissionais que tiveram, filhos que geraram e outros colegas que não estavam presentes.

Lembraram rapidamente de um esquizofrênico alto que circulava pela faculdade como aluno, mas que não fez nenhuma matéria com eles. Não poderiam falar do colega cleptomaníaco porque este estava presente na reunião e atualmente trabalha como comentarista esportivo num canal de televisão a cabo.

Finalmente a conversa entrou no assunto Joílton, um moreno tímido, com comportamento muito infantil como o descreveram.

“Ele era muito estranho. Não era retardado, mas se comportava como tal. Tinha umas atitudes infantis. Adorava cantar os hinos de futebol em inglês. E até em francês. E errado, pra variar”. Disse um.

“Ele fedia. Cheirava mal. Seus cabelos eram sebosos”. Disse uma das colegas.

“E aquele rosto oleoso e cheio de espinhas? Argh!” Lembrou outra.

“E cravos também.” Completou a terceira.

“Ele mostrava as fotos das viagens dele a Londres como se só ele pudesse viajar. Viajou de blazer, igual pobre quando viaja de avião pela primeira vez, e achou que estava impressionando todo mundo. Tadinho. Tão inocente”. Disse o cleptomaníaco, que pegou um celular de uma colega sem ela perceber. 

“Uma vez ele tentou me dar cola numa prova, mas a cola estava toda errada. É muito burrinho”. Disse outro ex-colega, antes de cabelos um pouco compridos, com aparência de surfista, e hoje careca.

“Gente, e aquele romance que ele escreveu? Só tinha bobagem! Nem parece que fez faculdade de jornalismo!” Comentou a moça por quem Joílton era apaixonada.

“Ele ainda foi grosso comigo outro dia. Tentei lhe dar um conselho e veio com quatro pedras na mão por e-mail”. Disse outra colega.

“Li um conto que ele escreveu na internet e não entendi nada. Super-mal-escrito”. Lembrou mais uma, que o barrou num grupo de trabalho, após ele ficar mudo em uma apresentação.

“Ele tem um blog de carros que é uma porcaria. Só notícia velha e chupada de revistas. Gosta de automóveis, mas não entende nada. Não sabe nem dirigir”. Comentou um.

“E nem escrever”. Completou a que tinha lembrado dos seus cravos.

“Ah, gente. Vamos mudar de assunto? Está me dando nervoso de falar desse cara podre.” Encerrou uma garota da turma, que casou com o filho de um cantor famoso.

E a turma seguiu para outros assuntos...

***

Um mês depois do encontro, uma mensagem rodou o grupo de WhatsApp desses mesmos colegas.

“Gente, o Joílton morreu!” Anunciou o que se achava o amigo mais próximo.

“De quê?”

“Infarto!”

“Bem-feito! Gordo como um porco do jeito que era, tinha mais que morrer mesmo. Comia mal pra caramba!”

“Pra mim, não vai fazer falta nenhuma.”

“Pra mim, também não.”

“Cara chato! Porco!”

“Ele era um retardado!”

“Um babaca!”

“Ele era mais louco que aquele esquizofrênico que estudava lá na faculdade!”

“Será que ele vai cantar hino em inglês e francês dos clubes do céu?” Ironizou o ex-cabeludo e agora careca.

“KKKK. São Pedro vai mandar ele para o inferno!” Disse a moça do sermão.

“No inferno pode usar blazer?” Perguntou o cleptomaníaco. 

“kkkkkkkkkkkk”. Todos riram.

Dias depois, a turma combinou um novo reencontro em São Paulo, para comemorar a morte de Joílton. Passaram mais de duas horas falando mal do ex-colega.

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