segunda-feira, 4 de novembro de 2019

HIPÓCRITAS


Conto de Gustavo do Carmo

Um grupo de ex-alunos de uma faculdade de jornalismo carioca se reunia em um restaurante na zona leste de São Paulo, para onde todos tinham sido transferidos. Conversavam sobre trabalho, promoções profissionais que tiveram, filhos que geraram e outros colegas que não estavam presentes.


Lembraram rapidamente de um esquizofrênico alto que circulava pela faculdade como aluno, mas que não fez nenhuma matéria com eles. Não poderiam falar do colega cleptomaníaco porque este estava presente na reunião e atualmente trabalha como comentarista esportivo num canal de televisão a cabo.

Finalmente, a conversa entrou no assunto Joílton, um moreno tímido, com comportamento muito infantil como o descreveram.

“Ele era muito estranho. Não era retardado, mas se comportava como tal. Tinha umas atitudes infantis. Adorava cantar os hinos de futebol em inglês. E até em francês. E errado, pra variar”. Disse um.

“Ele fedia. Cheirava mal. Seus cabelos eram sebosos”. Disse uma das colegas.

“E aquele rosto oleoso e cheio de espinhas? Argh!” Lembrou outra.

“E cravos também.” Completou a terceira.

“Ele mostrava as fotos das viagens dele a Londres como se só ele pudesse viajar. Viajou de blazer, igual pobre quando viaja de avião pela primeira vez, e achou que estava impressionando todo mundo. Tadinho. Tão inocente”. Disse o cleptomaníaco, que pegou um celular de uma colega sem ela perceber. 

“Uma vez ele tentou me dar cola numa prova, mas a cola estava toda errada. É muito burrinho”. Disse outro ex-colega, antes de cabelos um pouco compridos, com aparência de surfista, e hoje careca.

“Gente, e aquele romance que ele escreveu? Só tinha bobagem! Nem parece que fez faculdade de jornalismo!” Comentou a moça por quem Joílton era apaixonada.

“Ele ainda foi grosso comigo outro dia. Tentei lhe dar um conselho e veio com quatro pedras na mão por e-mail”. Disse outra colega.

“Li um conto que ele escreveu na internet e não entendi nada. Super-mal-escrito”. Lembrou mais uma, que o barrou num grupo de trabalho, após ele ficar mudo em uma apresentação.

“Ele tem um blog de carros que é uma porcaria. Só notícia velha, chupada de revista. Gosta de automóveis, mas não entende nada. Não sabe nem dirigir”. Comentou um.

“E nem escrever”. Completou a que tinha lembrado dos seus cravos.

“Ah, gente. Vamos mudar de assunto? Está me dando nervoso de falar desse cara podre.” Encerrou uma garota da turma, que casou com o filho de um cantor famoso.

E a turma seguiu para outros assuntos...

***

Um mês depois do encontro, uma mensagem rodou o grupo de WhatsApp desses mesmos colegas.

“Gente, o Joílton morreu!” Anunciou um.

“Quê isso, rapaz?! De quê?

“Infarto!”

“Coitado! Eu falei que ele tinha que maneirar na gordura. Estava começando a engordar”. Joílton já era considerado obeso.

“E a mãe dele? Estou morrendo de pena dela. Deve estar sofrendo muito!” Comentou a ex-amada dele.

“Ele era um cara tão legal. Ajudava todo mundo! Lembro do dia em que fiquei com saudades de ler o jornal dele”. Disse o agora calvo que o chamou de burrinho.

“Fiquei até com remorso de ter debochado do blazer que ele usou no avião”. Comentou o cleptomaníaco.

“Ele era muito divertido. Brincava com a gente. Sempre puxava assunto.” Lembrou a que levou o esporro dele.

“Estou arrasada. Eu li o último conto que ele escreveu. Me tocou muito. Parecia até que ele estava pressentindo a morte.” Comentou a nora do cantor famoso.

“Eu também tive um pressentimento. Sonhei com ele essa noite. Estou de luto.” Avisou a moça que o barrou no grupo de trabalho.

“Pois é. Reli aquele romance dele e não sabia que era tão bom.#RIPJoilton”

“Ele já foi enterrado?”

“Já.”

“Poxa! Já passou a missa de sétimo dia também, né?”

“Também.”

“Vamos mandar uma coroa de flores para a família dele.”

“Eu vou mandar uma mensagem para a irmã dele. Os pais deles são idosos. Não entendem as tecnologias de hoje.”

Na semana seguinte, a amiga que tentou dar um sermão em Joílton mandou mensagem no grupo do WhatsApp.

“Gente, mandei uma mensagem para a irmã do Joílton, prestando nossa solidariedade a ela e aos pais. Também os convidei para uma missa de seis meses pela sua alma que eu mandei celebrar.”

“E o que ela respondeu?”

“Vão para o inferno, seus hipócritas! Meu irmão sempre se queixou do desprezo de vocês. Falava que vocês viviam debochando dele. Eu quero que todos se danem e deixem-no descansar em paz!”

“Ain, que mulher estúpida!”.

“Pois é. Não quer homenagens, problema é deles!”.

“Já cancelei a missa. Que o Joílton arda no inferno!”

“Não preciso mais fingir que fiquei com pena.”

A turma marcou um novo reencontro em São Paulo. No qual passaram mais duas horas falando mal de Joílton.

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