quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Irmãos

Gonadotrofina coriônica.
É a essa substância que o segundo tracinho do teste de gravidez comprado na farmácia reage e Roberta descobre que está grávida. Seu sorriso de lábios finos divide seu rosto e vai de uma olheira a outra. Quando então ela conta a Paulo, seu marido, a alegria se torna completa. Após 7 anos de casados, superando as crises e tudo que advém do pacto de uma relação séria, agora eles verão os frutos de seus esforços. E eu falei frutos porque no hospital eles são informados de que são gêmeos.
Para os dois, filhos seriam uma resposta aos seus problemas. Depois de tantos sofrimentos compartilhados, tantas dores pelas quais passaram de tantas formas, talvez agora a alegria brilhasse em suas vidas.
Mas a dor parece implantar um GPS em cada um de nós ao nascer e não há nada que se possa fazer, pois você pode pensar em se mudar, em mudar algo no seu corpo, fugir, se esconder, a Dor sempre consegue te seguir direitinho, para onde quer que você for.
Danilo nasce primeiro, a pele morena como a do pai, e 45 segundos depois, Caio vem ao mundo, com uma pele tão pálida quanto a da mãe. O que acontece é que Caio não demonstra nada. Toda criança ao vir a esse mundo já demonstra o horror, assim como Danilo, que está rasgando sua pequenina garganta em um choro descontrolado. Caio não. Caio está quieto, calado, como se estivesse em profunda resignação.
O que Roberta e Paulo escutam do médico são vários termos estranhos, síndromes com os nomes de homens que já morreram. Outros médicos se unem ao primeiro e mencionam mais homens mortos, síndromes com títulos complexos e, mesmo que não haja um consenso entre eles, o que os pais acabam sabendo é que Caio tem alguma paralisia crônica. Seus órgãos estão em perfeito estado, sua saúde é de ferro e seu estado mental é normal, mas o corpo de Caio não se movimenta, nenhum membro obedece as ordens de seu cérebro, sua boca não consegue se mover sozinha, sua língua não é capaz de formular palavras.
A princípio, Roberta e Paulo ficaram surpresos, então preocupados, então amedrontados. Mas quando uma enfermeira chegou até eles e contou de sua própria filha que sofria de uma condição semelhante, lhes contou de tudo o que fazia diariamente para o conforto de sua criança, de como no início poderia ser difícil, mas com o tempo eles se acostumariam e que Caio poderia ter uma vida tranquila, mesmo que não tivesse as mesmas oportunidades que seu irmão.
Após a frase “Vai ficar tudo bem”, da enfermeira, Roberta fez uma discreta careta, pois não gostava dessa frase, que considerava uma inexorável mentira. As coisas poderiam ficar diferentes, ela sempre pensava, mas nunca melhorar. Tentou sacudir a cabeça para afastar esses pensamentos.
Roberta e Paulo deram as mãos e, como bons pais, ergueram suas cabeças e decidiram fazer o que todos os pais desejam seja qual for a situação: fazer com que a vida de seus filhos seja a melhor possível.
Avancemos 7 anos.
Se você os conhecesse, não diria de forma alguma que eles eram irmãos. Não porque Danilo tinha hiperatividade, ou o que algumas pessoas chamavam de “muita saúde” (mas na cabeça nomeavam de “peste”), ou porque Caio estava inerte em uma cadeira de rodas. Mas porque Danilo tinha a pele tão morena quanto a de seu pai, porque sua altura não era a comum para uma criança de sua idade, porque Danilo parecia ter ficado com tudo aquilo que constitui ser gêmeos. Ele ama o irmão, e isso ninguém pode negar. Vive beijando seu rosto, conversando em um idioma que só os dois compreendem. Enquanto Caio, sem poder expressar um sorriso ou um menear de cabeça, sem conseguir formar sequer um grunhido para demonstrar desconforto, olha para seu irmãozinho como se fosse a imagem mais impressionante que já vira.
A única coisa que Caio consegue mover são as pálpebras. Ele pisca e é isso que serve de comunicação, pois ele entende tudo ao seu redor. Vê o esforço de seus pais, o amor de seu irmão, entende as piadas da moça da fisioterapia, a Paula, ri por dentro com os desenhos animados que assiste todas as manhãs, chorou quando sua vovó faleceu, mãe de seu pai.
Roberta e Paulo haviam decidido fazer o seguinte: como Roberta tinha um emprego flexível, ela conseguiu adaptar tudo à sua casa, então passou a trabalhar em casa em tempo integral, podendo assim cuidar de Caio, não deixando ele crescer apenas conhecendo uma cuidadora. Todos os dias há fisioterapia. Todos os dias a família vive como qualquer outra, fora as atenções de que Caio necessita, mas que se tornaram rotina.
Sonda para se alimentar e para fazer suas necessidades. Banho de sol, passeio pelo bairro, e, claro, o constante brincar com seu irmão, que parece ter herdado a energia de dois.
Avancemos 5 anos.
Danilo despertou sua paixão pelo futebol. Caio sempre está lá nos treinos, junto da mãe e do pai, quando este último pode. Caio não pode erguer seus braços e vibrar quando o, não tão pequeno, irmão faz gol, mas se nota em seu olhar sua alegria.
Ora, eu esqueci de mencionar que a única coisa que ninguém pode negar que existe de idêntico entre esses dois irmãos é o olhar. Não estou falando da cor dos olhos, mas do jeito em que eles encaram as coisas, como olham de soslaio, como sorriem com seus globos oculares.
Hoje tem treino para o Danilo, mas coincidiu com a fisioterapia de seu irmão, então Paulo foi deixar o filho no campo e em seguida ia ao trabalho, enquanto Roberta e Caio ficaram em casa. Sem Danilo na residência, há só silêncio nos cômodos, mas não é de tristeza e sim porque Danilo não para quieto um momento, tanto a energia quanto a fala, todos dizem que ele fala pelos dois. Só se ouve agora a voz de Paula conversando com Caio, enquanto faz os exercícios. Roberta está verificando e respondendo emails na sala. Quando Paula termina e se despede, dá um beijo na bochecha de Caio, de propósito, porque toda vez ele, com sua pele pálida, fica vermelho de vergonha.
Então um novo silêncio cai na casa. Após usar a sonda para urinar, Roberta o coloca em frente à TV, mas quando está ainda procurando um canal, o telefone fixo toca. Ela deixa a TV em uma tela escura e corre para atender, pois sendo o fixo geralmente não são boas notícias.
Enquanto ouve, a mão que segura o telefone treme, a outra vai até a boca para abafar um grito mudo. O corpo inteiro de Roberta é um exército em retirada de redenção.
Do outro lado da linha quem fala é sua irmã. Ela diz que houve um acidente. O carro de Paulo, quando estava levando Danilo ao campo, foi atingido por um caminhão. Ao que tudo indica, o motorista estava bêbado. Paulo quebrou algumas costelas e está no hospital.
“E Danilo?”
O silêncio do outro lado da linha foi o suficiente. As próximas informações que sua irmã passou sobre a morte do sobrinho e o local onde estavam, chegavam aos ouvidos de Roberta como se estivessem vindo de muito longe e passando por um túnel.
Então ela deixou o fone cair. Suas mãos se fecharam em seu rosto banhado de lágrimas. O que antes era 70% água agora é 100% lágrimas. Numa atmosfera que lembra muito a dos sonhos, a casa inteira parece rodar e Roberta tenta respirar em meio aos soluços, seus lobos cerebrais já detectando um pesadelo.
“Mamãe?”
Roberta toma um susto. Sua mente, esse resultado evolutivo que é mais rápido que qualquer computador já criado, é invadida por essa dor cortante, que rasga seus nervos e a desconecta da realidade e pensa em Danilo, vivo, bem ali do seu lado lhe chamando.
“Mamãe?”
Mas não é Danilo. Essa não é a voz de seu filho. É uma voz estranha, que ela nunca havia ouvido, mas com uma tonalidade familiar. Bruscamente, Roberta vira na direção de onde vem a voz alienígena, ouve uma vértebra estalar em seu pescoço, e seu coração se debate dentro de sua caixa torácica, se joga nas costelas, tenta subir pela sua garganta.
Ali, de pé, sem ajuda de coisa alguma, vindo em sua direção com os braços erguidos para um abraço, falando “mamãe” sem parar, está seu filho, Caio.

Hemerson Miranda

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