terça-feira, 3 de setembro de 2019

Cartas para ninguém (91 ao 100)



- 91
Tudo está muito bom, então perdão por escrever uma carta tão curta. É que eu estou bastante cansado.


- 92
Estou escrevendo essa carta no salão de café da manhã.
Se você pudesse ver tudo que tem aqui...
É possível se perder só aqui no meio de toda essa comida.
Caramba.
Desculpa, eu vou ter que repetir. Hahaha.
Escrevo mais tarde.


- 93
Apesar de estar muito bom e tudo mais, por incrível que pareça, nos últimos dias você vem aos meus pensamentos.
Quase metade das pastilhas já foram embora.


- 94
Mais um dia no café.
Mais um dia.
Não tenho muito o que dizer agora.


- 95
A Karen acordou com cólica hoje. Ficou lá no quarto do hotel.
Acho que vou lá ficar com ela. Eu já fiquei bastante tempo na piscina.
Estou escrevendo cartas demais.


- 96
Meu ex-chefe passa a maior parte do tempo bêbado.
Pelo menos ele conta piadas quando está assim.
Ele acabou de sair do quarto.
Estava aqui para ver se a Karen estava se sentindo melhor.


- 97
Eu não consigo dormir.
São três da manhã e estou aqui na varanda, fumando o cigarro eletrônico e escrevendo. Karen está dormindo.
A luz do luar em seu rosto a deixa ainda mais bonita.
Você vem a minha mente o tempo todo.


- 98
São quatro da manhã.
Já guardei a outra, e estou escrevendo mais uma.
Por quê?
Por que, meu Deus?
Droga!
Merda!
Eu semp


- 99
A Karen me viu escrevendo e quis saber o que era.
Pegou da minha mão, por brincadeira.
Depois vasculhou na minha mochila. Achou as outras.
Queria explicações.
Merda!
Porque que eu fui tão descuidado?
Discutimos.
Expliquei.
Ela não entendeu.
Não está falando comigo.
Estamos no mesmo hotel de beira de estrada.
Quando chegarmos em casa eu vou mostrar todas as outras cartas a ela.
Se ela quiser que eu pare, eu paro. Sem mais segredos.


- 100
Nunca pensei que chegaria a carta de número 100. Nunca pensei que ficaria sem você por mais de seis meses.
A Karen no fim entendeu.
Não quis ler as outras cartas.
Disse que seria invasão de privacidade.
É por isso que eu amo essa mulher.
Bom, isso e muito mais.
Foram vocês que me impediram de voltar a fumar.
Vocês que me mantiveram na sanidade.
Obrigado.
Acho que vou dar um tempo nessas cartas de qualquer maneira.
De novo, obrigado.


Última parte do conto de Lucas Beça

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