quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Isto é o meu corpo




Hoje é dia de Santa Ceia.
Em algumas outras igrejas eles chamam de Comunhão, Partir do Pão, enfim, inúmeras denominações para o mesmo ato, que é refazer e relembrar a última refeição que Jesus teve com seus discípulos e deu a eles pão e vinho, representando seu corpo e sangue.
A irmã Ana e a irmã Joelma são as responsáveis por fazer o pão. Eu gosto muito dele, mas nunca aprendi a fazer em casa. Por isso as irmãs deixam um pouco do pão “não santificado” pra eu levar pra casa após o culto.
Elas fazem o que chamam de algo parecido com “massa podre”, então o pão fica parecendo um biscoito, mas que desmancha na sua língua. Suave, macio, o corpo de Jesus também tem uma textura esfarelenta na língua. Elas usam farinha de trigo integral, azeite de oliva e algo mais que eu nunca lembro. Fica ótimo e acompanhado do suco de uva integral e natural que o irmão Alfredo compra no mercado, 3 garrafas, cada uma a 7 reais, dá pra fazer um lanche bom enquanto relembra que após aquela refeição Jesus seria preso e morto.
Um pastor novo foi convidado pra presidir a ceia. Pastor Jonny, um nome jovem para um senhor de cabelos grisalhos e que começam a rarear na sua cabeça. Os diáconos e as diaconisas estão todos vestidos de branco e se você olhar muito rápido vai pensar que eles são espíritas ou membros de alguma dessas religiões afro, que a gente costuma chamar de macumba. Quando lembro disso minha orelha direita já coça lembrando do peteleco que o irmão Joaquim me deu quando fiz esse comentário uma vez. Ora, mas que parece, parece.
Todos os membros da igreja estão presentes, incluindo aqueles que só aparecem na igreja apenas uma vez: nessa ocasião. Aqueles que mandam alguém vir na igreja no domingo de manhã pra deixar seu dízimo em um envelope. Aqueles que sequer sabem a razão de estarem aqui e que só comparecem a essa ceia porque acham que é o momento mais sagrado do ano, mais importante até que o sacrifício de Jesus há 2 mil anos. Eles acham que comer esse pão e beber o suco de uva vai purificá-los imediatamente de todos os pecados que cometeram até agora, por isso a maioria tem esse semblante solene e triste de uma ovelha que se prepara pra ir ao matadouro, mas por dentro crente de que sairá daqui completamente uma nova pessoa.
Eles estão aqui pra se esvaziar de seus pecados, e assim dar espaço pros novos.
Apesar da enorme diversidade de cores, os homens parecem usar uniforme. Calça social, sapato bico fino, camisa de botão e mangas compridas. Veja ali no meu lado direito o irmão Alex. A calça dele quase bate em seu pomo de adão. Magro, ele parece um caniço envergado pelo vento, mas ele está olhando fixamente pra um ponto à sua frente e ele nem tenta disfarçar.
É a bunda da irmã Raquel.
Todos estão bem vestidos, porque isso aqui é uma reunião solene e formal, assim todas as mulheres estão com suas melhores roupas, os vestidos que só usam em ocasiões importantes, sandálias de salto alto, maquiagem sutil, mas visível, jóias, cabelos hidratados e marinados durante 3 horas em um salão de beleza. E apesar de a maioria acreditar, por imposição mesmo, que calça é roupa de homem e que assim não podem usar, elas estão com suas saias, que mostram mais as linhas de seu corpo que qualquer calça. Essas mulheres parecem ter vestido as saias como alguns produtos que são liofilizados, em completo vácuo. Por isso a bunda da irmã Raquel chama tanto a atenção. E não só a dela.
Se você acompanhar meu olhar vai ver muitas irmãs gostosas. Ah, se o irmão Joaquim me ouvisse falando isso. Quando as pessoas pensam na “mulher evangélica” logo imaginam aquela senhora com cara de “vizinha” ou de tia, gorda, de óculos, cabelo preso num coque, que canta igual uma grasna fanha no Culto das Senhoras nas tardes de terça-feira. Mas esquecem que mulheres jovens também aceitam a Jesus. E nossa, algumas pessoas não fazem ideia de como as mulheres de Jesus podem ser sexys e voluptuosas.
Não é costume em outras denominações evangélicas, mas nós praticamos o chamado Lava-Pés. Separados, homens e mulheres vão pra salas diferentes. Alguns sentam num banco de madeira bastante desconfortável e tiram seus sapatos ou sandálias, enquanto a outra pessoa fica de joelhos no chão, com uma bacia de alumínio cheia de água do lado e uma toalhinha branca no ombro, pra lavar os pés de quem está sentado e em seguida, após enxugar os pés, eles trocam de lugar e se repete o ritual, finalizado depois por um abraço bem apertado.
Não, os homens não podem lavar os pés das mulheres e vice-e-versa, apesar de muita gente ter essa vontade, principalmente os homens, por causa das irmãs que vem com saias ou vestidos curtos. Ainda mais que as mulheres tem mais cuidado com seus pés. Os homens tem que suportar um leve odor de chulé, unhas sujas às vezes, bicho de pé, feridas, todo o mal cuidado com esses membros inferiores e é por isso que eles sempre acabam mais rápido que as mulheres.
Esse ritual é pra demonstrar humildade. e muitos usam esse momento pra extravasar sua humildade, se é que isso faz sentido.
É quando acaba o Lava-Pés que todos entram e lotam a nave da igreja pra receber a comunhão.E então começa o serviço de cânticos. O hinário em punho, as faces constrangidas diante da lembraça do maior de todos os sacrifícios, aquilo que nos limpou de todos os pecados.
E quando esse serviço termina, a irmã Elayne se coloca do lado do púlpito pra a primeira canção solo. Jovem, bonita e da voz estrondosa, ela escolheu uma música mais suave, até melancólica, pra condizer com o momento. Toda a igreja em silêncio, ouvindo, mesmo que todos conheçam a música, pois isso vai iniciar a comunhão de todo e os semblantes das pessoas começa a ficar mais tristes, mesmo que depois as pessoas se abracem e se beijem como em uma comemoração. O que eu acho é que essas pessoas estão sempre aqui como uma espécie de obrigação, com medo, como se ao menos uma vez na semana não estivessem aqui o pior poderia acontecer. Então elas vem pra “garantir”. Só que se nota que ninguém aqui é feliz. Acho que ninguém, na verdade, no mundo, é feliz. As pessoas estão há tanto tempo acostumadas com a tristeza e o sofrimento que quando elas tentam parecer felizes, não enganam ninguém.
É então que algo acontece.
Na estrofe, uma voz se ergue e se sobressai à voz da irmã Elayne, esgarçada, vacilante, e todos olham pra trás, pra a entrada da igreja e veem um homem se aproximando, sua voz precedendo sua chegada.
“Leeeevarei eu também…minhaaaa cruz!
Té por uma coroa trocaaarrr!”
Visivelmente embriagado, seu passo oscilante, como um pêndulo seguro por fios invisíveis, ele continua sua marcha pelo corredor da igreja. Os recepcionistas, que antes estavam dos lados da porta de entrada e agora estavam sentados pra a cerimônia, se erguem rapidamente pra conter o bêbado.
A irmã Elayne continua cantando, mas agora ela deixa de ser a atenção da igreja. Os rostos se dividem, pois muitos se sentem desconfortáveis com a intromissão, enquanto outros estão revoltados com a atitude desses primeiros. Assim o irmão Carlos disse que isso era um desrespeito, mas o irmão Januário falou que ele também deveria ser recebido pelo amor de Jesus, no que recebeu o apoio da irmã Nádia. E nisso houve uma pequena, mas não barulhenta confusão.
Tendo terminado a música, a irmã Elayne depositou o microfone no púlpito e foi se sentar num dos bancos da frente. O burburinho cessou quando o pastor se ergueu e com uma mão pediu silêncio.
“Irmãos, por favor…”
“Pastor, eu quero receber o…o… o corpo de Cristo”, disse o homem amparado dos dois lados pelos recepcionistas.
Mais uma onda de sussurros de desaprovação varreu a igreja. Irmãos e irmãs se levantaram na defesa do homem bêbado. O pastor olhou pros outros irmãos que se sentavam junto dele e viu a mesma divisão nos rostos.
Nisso, algumas pessoas que antes estavam desconfortáveis se mantiveram quietas. E o pastor Jonny, retirando da testa uma franja invisível, pediu pros diáconos conduzirem o homem bêbado até o primeiro banco do lado direito, mas como ele estava cheio, uma diaconisa trouxe uma cadeira e colocou encostada na parede, achando assim que ajudaria no “equilíbrio” do nosso novo irmão embriagado.
Ele sentou, na verdade ele desabou na cadeira branca de plástico, soltando um forte e estrondoso Amém, que, por osmose, fez com que alguns irmãs sussurassem um Glória a Deus ou um Aleluia.
Quando o pastor Jonny começa a abrir a boca com o microfone próximo a ela, pra dar início a toda a cerimônia, o homem na cadeira de plástico o interrompe.
“Ahhh, pastor… qual a sua… a sua graça?”
Sem graça, o pastor sorriu e lhe falou o nome.
“Então, pastor Djoni, esses irmãos… esses mesmos que estão…”
Ele para com a mão erguida e a boca fazendo um bico, trêmula. Eu sei o que está acontecendo. Isso é o álcool. Na cabeça dele todas as palavras estão perfeitas, bem formadas, bem certinhas, mas o problema é que elas se embaralham todas quando saem de sua boca, tropeçando nas letras, então ele precisa tentar se concentrar. Eu entendo muito bem disso porque, mesmo que eu não beba, sempre pensei que em alguns momentos as palavras atrapalham tudo aquilo que você quer dizer. Quando consegue, continua:
“Esses irmões… que tão entortando a boca, revirando os olhos, eles deviam lembrar ooo que tem escrito em Marcos 9:41.”
Um silêncio pairou lentamente sobre a igreja. Tanto pelas pessoas que conheciam o versículo como pelas que não conheciam, já que essas últimas estavam perdidas. Os pregadores sempre usaram essa parte da Bíblia pra alertar que nenhuma pessoa deveria ser discriminada, nenhuma deveria ser ignorada, pois assim estaríamos fazendo isso com Jesus. Assim, o que o homem sentado na cadeira de plástico quer dizer é que ele bem que poderia ser no momento um enviado de Jesus, ou até o próprio, desprovido de todos os adornos e honrarias que nós esperamos que ele tenha quando aparecer. Do mesmo jeito que as pessoas não o reconheceram na época em que ele esteve na Terra. E se o desprezarmos ou o ignorarmos estaremos fazendo isso também a Jesus.
Ou seja, agora temos um bêbado em uma igreja evangélica nos ensinando o cristianismo.
O silêncio é rompido pelo burburinho daqueles que conhecem o versículo o ditando pra aqueles que não o conhecem. Eu olho ao meu redor esperando que alguém grite algo, isso mesmo que eu tenho entalado na garganta. Essa passagem onde Jesus é tentado no deserto. “O diabo também conhece as Escrituras!”, eu poderia gritar, mas vou guardar isso pra mim.
Nosso novo irmão bêbado então fica sentado de olhos fechados e assim todos imaginam que ele está cochilando. Essa é a deixa pro pastor, que dá as boas-vindas, faz um breve sermão sobre a Santa Ceia e pede que todos se coloquem de joelhos pra orarmos pela bênção do pão e do vinho.
O homem na cadeira de plástico continua cochilando.
Uma vez perguntei ao irmão Joaquim a razão de o sermão da Santa Ceia ser tão rápido. Ele me contou que essa comunhão deve ser feita de forma solene e nada pode ser desperdiçado, muito menos o tempo, então tudo é breve pra que possamos absorver todo o conteúdo e o significado desse dia, desse momento tão importante pro cristão, pois se demorar corre o risco de se tornar cansativo e perdemos o sentido da cerimônia.
Achei bonita a explicação e tudo, mas isso me parecia o desejo de todos os que vinham pra a igreja. Sair logo, que todos os cultos fossem assim. Por isso a igreja sempre estava quase vazia nas noites em que a irmã Josivânia ia pregar, pois ela sempre passava do tempo, digamos, uma hora a mais de culto, que em sua maior parte era orando e chorando. Mas enfim…
Quando o pastor termina a oração e todos se preparam pra sentar novamente, o Amém estrondoso do nosso irmão bêbado se ouve. Mas quando olhamos pra ele, ainda está na mesma posição, cabeça baixa e olhos fechados, só um pouco ofegante agora, como dá pra ver pela ascenção e queda de seu peito e ombros.
Em seguida, os diáconos e diaconisas se preparam, o pastor e seus auxiliares começam a pegar o pão e cortar em pedaços. O pastor dá a autorização e os homens e mulheres de branco começam a andar pela igreja com bandejas de alumínio cheias de pães que desmancham na língua. Cada pessoa pega, senta e espera. Quando todos já estão com seus respectivos pedaços de pão, os de branco voltam, oferecem o pão ao pastor e seus auxiliares, depois pegam pra si mesmos e o pastor pronuncia a famosa frase de Jesus sobre sua carne. E assim todos comem o pão, fecham os olhos e fazem uma oração silenciosa.
Menos eu.
Tenho um delay porque olho pro homem na cadeira de plástico. Eu juro que ouvi ele olhar com seus olhos desfocados de bêbado pro pedaço de pão e dizer “opa, tiragosto…”.
Em seguida o pastor avisa que é hora do vinho. Nesse momento o irmão bêbado ergue as duas mãos em uma comemoração silenciosa e muitos irmão não aguentam e tem que sorrir.
A autorização é dada e o mesmo ritual é feito pelos diáconos e diaconisas com bandejas de alumínio que possuem buracos num fundo falso onde se encaixam vários copinhos de plástico com o famoso suco de uva integral. Todos recebem seus copinhos e nosso amigo embriagado parece conhecer todo o ritual porque ele aguarda pacientemente, como fez com o pão. Ao final dessa repetição, o pastor ergue o seu copo, pronuncia a outra famosa frase de Jesus sobre o seu sangue, enfatiza a purificação de nossos pecados, enfatiza ainda mais que é suco de uva natural, dando uma rápida olhada de lado para o homem na cadeira de plástico, falando sobre a pureza do sangue do Filho de Deus, mas nosso amigo embriagado parece sequer ouvir. E diz pra todos bebermos.
Quando estamos de olhos fechados em nossa oração silenciosa após sentirmos o liquido invadir nosso interior, ouvimos um barulho alto. Abrimos os olhos rapidamente e é nosso irmão cuspindo um jato do suco no chão, atingindo até o púlpito.
“Ué… não tem álcool?”
Um burburinho em ondas passa pela igreja, mas ele não se importa e continua.
“Dois… dois mil anos e o sangue de Jesus ainda num tá fermentado?!”

Hemerson Miranda


Hemerson Miranda


Contos, resenhas, listas, tudo o que vai aparecendo de inspiração.

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