terça-feira, 27 de agosto de 2019

Cartas para ninguém (81 ao 90)



- 81
Andei relendo as primeiras cartas e acho que elas me ajudaram lá no início a liberar a raiva que eu estava sentindo e também a ajudar a fazer sentido em tudo aquilo que estava acontecendo.


- 82
A data do meu aniversário está chegando e a Karen está me pressionando para decidirmos sobre o que vamos fazer.
Isso, toda essa pressão, está me deixando um pouco desconfortável.
Mas eu entendo a empolgação dela.
No dia do aniversário dela eu quero fazer alguma coisa especial também.


- 83
Eu peguei o telefone hoje, digitei o número do restaurante mais chique da cidade (que você sabe que não é tão chique assim) e apertei o botão verde.
Karen estava do meu lado. Eu disse a ela o que estava fazendo, pra quem eu estava ligando, e ela ficou sem reação.
Uma mulher atendeu. Eu pedi pra esperar.
Perguntei se ela estaria de acordo. Ela respondeu: “Claro, claro que sim.” Eu fiz reserva para dois no restaurante e desliguei.
Dei um abraço e um beijo nela, enquanto ela pulava de alegria.


- 84
A preocupação que eu tinha em relação aos camelôs era só paranóia minha mesmo.
Até porque vendeu pra caramba nos primeiros meses, quando os melhores filmes estavam à venda.
Depois começou a vender apenas uma quantidade razoável, regular.


- 85
Então, eu voltei lá na clínica.
Mas ele não quis me receber.
Estava sóbrio, imagino, mas não quis me receber.
Voltei pra casa pensando no que poderia ter acontecido se eu tivesse emprestado o dinheiro pra ele.


- 86
Nós te visitamos mais uma vez hoje.


- 87
Meu ex-chefe me ligou e nos convidou pra passar o feriado em um resort em São José dos Campos.
Estava tudo pago, era só pegar o carro e ir. Ele tinha se cansado da praia e resolveu ir para um outro lugar mais interiorano.
Disse pra ele que não podia ir, porque tinha que abrir a loja e ele rebateu dizendo que ninguém compra livro e DVD em feriado. E se ele pudesse me dar um conselho seria que trabalhar muito faz mal.
Não queria que cometêssemos o mesmo erro que ele.


- 88
Fui te visitar mais uma vez antes de sair da cidade.
Você continua do mesmo jeito.
O último traço do seu cheiro havia desaparecido.


- 89
A viagem foi tranqüila.
Escrevo essa “carta” na parte de trás de um panfleto de hotel de beira de estrada.
A Karen parece empolgada, como sempre.
Estou vivendo com uma pessoa de espírito jovem.


- 90
Coloquei na mala o dobro de pastilhas e comprei outro cigarro eletrônico. Na pior das hipóteses...
Meu ex-chefe nos recebeu de braços abertos.
Karen logo fez amizade com uma outra mulher do resort. Meu ex-chefe também estava acompanhado.
Não parecia ser o melhor tipo de mulher para ele, mas, ei! Ele já era bem grandinho. Podia se cuidar sozinho. Eu não vou me meter.
Em vários momentos eu penso em você.


Parte 21 do conto de Lucas Beça

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