quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Raposa Vermelha - Capítulo I



O dia vai despontando no horizonte, ajustando luz e contraste. O amanhecer surge entre nuvens rubras, como algodão doce colorido. O céu assume tons ferrosos, clareando para laranja, depois rosa, até decidir pelo amarelo tão conhecido por infinitos anos.

Estou com as costas apoiadas no tronco de um coqueiro, indiferente a qualquer coco que se desprenda e acerte bem o meio da minha cabeça. Minhas pernas se esticam pela areia branca e fria e eu já começo a sentir um suor gelado escorrer da minha bunda e encharcar a bermuda. Olhando para o horizonte, as nuvens agora bem brancas são refletidas pela água plácida da praia, um espelho que somente agora começa a ser ondulado pelo vento. Expulso a fumaça do cigarro pelo nariz e em seguida sorvo o ar lenta e profundamente, sentindo o cheiro salgado que vem das águas. Eu até posso sentir a maresia começar a formar uma camada na minha pele.

Tive que acordar cedo, o que não é meu costume, unicamente para ver essa maravilha diante de mim. O nascer do sol em uma praia, sentado na areia, com a brisa suave batendo nos meus braços e pernas nus. A manhã despontando em todo o seu inigualável esplendor.

Pois bem, já acabou.

Me ergo e limpo a parte de trás da bermuda com fortes palmadas e depois bato palmas para retirar a areia úmida que ficou entre os dedos. Apago o cigarro no tronco do coqueiro e enfio a guimba num orifício nele, decidindo apenas voltar para a casa para pegar minha carteira e ir até a padaria tomar café.

Ao longe já tem três garotos empinando pipa, soltando gritos de alegria e saltos que só a infância consegue proporcionar. É início de sexta-feira, então a praia já começa a se organizar para receber as pessoas pelo fim de semana e o que até agora há pouco era um retrato estático de paz e solidão será uma algazarra de corpos seminus e coloridos fritando à milanesa e curtindo em salmoura. Mal posso esperar, eu diria, se isso fosse verdade.

Quando subo a rua que dá para a padaria, um senhor com um sombreiro enorme passa ao meu lado anunciando picolé. De um lado da rua uma senhora toda de branco carrega um depósito retangular e transparente e grita que tem tapioca recheada até onde seus pulmões suportam. Eu posso sentir o sol queimar minha pele já a essa hora e não é à toa que ainda chamamos essa cidade de Cidade do Sol.

Na padaria, algumas pessoas já começam a aparecer, com uma disposição amalgamada ao tédio que me deixa curioso. Não sei como essas pessoas conseguem ser tão ativas a essa hora da manhã, mas também não me interessa entender. Eu me arrasto até o balcão, subo num banco alto e espero alguma das duas moças que estão atendendo terminarem com os outros e vir até mim. Minha boca se abre involuntariamente num bocejo capaz de partir minha cabeça ao meio. Eu só consigo dormir depois das 3 da manhã, não importa o que eu faça, então meio que estou acostumado com isso.

Uma moça com uma rede preta em volta do coque em sua cabeça se aproxima de mim e me deseja bom dia, sua boca formando pregas nos cantos no que parece ser o esforço hercúleo para um sorriso. Eu lhe entrego o meu melhor sorriso numa manhã preguiçosa e peço um café e um misto com ovo. Ela faz que sim com a cabeça, vira de costas e quando vira novamente é com uma xícara de café fumegante que é a primeira coisa que me desperta, mesmo que eu tenha visto o espetáculo do alvorecer.

Uma TV de tubo reproduz desenhos animados e eu me vejo voltando à infância, quando a minha única preocupação era saber se o Coiote iria finalmente conseguir pegar o Papa-Léguas. Sendo que eu já estou com mais de 30 anos e o Coiote não teve sucesso, bem, isso me ensina algo sobre o fracasso.

Esse não é o melhor café que eu já tomei na vida, mas ele é bem recebido pelo meu interior. Um cheiro familiar e que traz consigo fragmentos de lembranças caseiras atinge meu nariz com um tapa suave. É ovo frito e presunto. Queijo quente e chocolate. Eu noto todos os detalhes, não apenas porque seja uma mania que adquiri já na adolescência, mas porque necessito disso. Existe uma história por trás de todo ato, por trás de toda junção de acontecimentos. Cada pessoa que está nesse lugar é o personagem de uma história e ela não precisa necessariamente ser um best seller para ser boa. É uma história pessoal, única e intransferível.

O prato bate no mármore do balcão e é meu misto, supurando ainda em gordura, o pão francês brilhoso abrigando o queijo, o presunto e o ovo que se uniram numa bolha calórica me fazendo salivar.

Suspiro profundamente.

Dava para escrever um livro só contando o que acontece nessa padaria a essa hora da manhã, à beira de uma praia de braços abertos para receber os trabalhadores de folga, os vagabundos de plantão e os turistas ingênuos. 

Peço mais café.

Do meu lado vem o cheiro de maresia, muito forte, misturado a suor seco e sálvia. Uma mulher com a pele dourada e cabelos loiros rebeldes, volumosos e compridos, se coloca de pé ao meu lado, tendo encostado ao flanco um espécie de mostruário com vários artigos de artesanato que muito provavelmente ela confeccionou. Seu rosto é alegre, mas cansado, os olhos cinzentos me encaram esperançosos sobre as olheiras profundas. Abaixo de seu rosto, seguros por um top negro, está um par de seios quase muito grandes, redondos e firmes. Abaixo deles desponta uma enorme barriga de grávida, lustrosa, acho que por óleo. Ela me abre um sorriso bonito, mesmo que lhe falte um canino.

“Uma pulseira, moço?”
“Não, obrigado.”

Seus olhos são dois túmulos que perderam a esperança e isso me faz sentir um pouco de pena. Então eu lhe pergunto antes que ela continue a oferecer alguma outra coisa.

“Quer um café?”

Ela assente com a cabeça e abre novamente seu sorriso. Pergunto se ela também quer algum salgado e ela aceita uma coxinha. Então a atendente lhe traz um café com leite e uma enorme coxinha. E ainda aproveita e dá uma olhada em um pingente feito de alguma concha no mostruário da grávida.

Tenho vontade de saber da história dessa mulher e de seus sonhos. Sinto um forte desejo de conversar com ela e saber por tudo o que ela já passou, mas sei que ela tem que trabalhar e não pode perder seu tempo com um escritor que está tentando sair de um bloqueio criativo.

Ah sim, eu devo ter esquecido de dizer. Eu sou um escritor. 

Tudo bem, isso pode parecer pretensioso. Eu só tenho um livro escrito e que fez um pequeno sucesso. Mas só que isso faz dois anos. E eu preciso criar alguma coisa urgentemente ou não só não terei como me sustentar, mas mais importante: não terei um propósito para continuar vivendo e não me entregar a outro porre que me leve ao hospital e uma nova lavagem estomacal. Só de pensar naquele tubo em minha garganta eu sinto uma fisgada na parte de cima de minha virilha.

Peço mais uma xícara de café e a atendente me lança um olhar meio que preocupado. Eu sorrio e digo que sou viciado em café. Ela me pergunta se eu quero numa caneca e eu falo que é uma ótima ideia.

A grávida devorou tudo tão rápido que eu nem me dei conta até ver o prato e a xícara vazios.

“Muito obrigada, moço. Deus lhe pague.”
“De nada. Boa sorte com as vendas.”

Seu sorriso sem o canino volta a aparecer e ela desce do banco, a cascata de seus cabelos balançando ao gingado de seu corpo. Apesar da enorme barriga que carrega ela não demonstra dificuldade em andar, seus passos são graciosos e seus membros bronzeados e suas curvas são atraentes. Ela atravessa a porta da padaria e faz sombra sobre os olhos com a mão e eu não posso deixar de pensar que “lá se vai uma boa história”.

A atendente volta para pegar meu prato vazio e me pergunta se eu quero mais alguma coisa. Eu nego. Então percebo que ela comprou o pingente de concha da grávida e que agora o ostenta pendurado em uma corrente escura acima do vinco entre seus seios.

Termino meu café, pago tudo no caixa e atravesso a porta estreitando os olhos por causa da claridade que chega a machucar. Eu nunca uso óculos escuros. Não me sinto bem. A imagem que chega até minha retina filtrada pelas lentes escuras me causa certo desconforto porque eu me sinto desequilibrado. Parece idiotice isso, mas sim. Tantos os óculos escuros quanto fones nos ouvidos, enquanto eu estiver andando, me fazem perder a noção de espaço e eu sinto que a qualquer momento posso cair.

Preciso agora ir ao mercado. Eu bem que poderia ir num restaurante, como fiz nos quatro dias anteriores, mas acordei com a vontade de cozinhar. Esse dia por si só já começou estranho: desejo de ver o sol nascer, fazer o próprio almoço. É uma quebra de rotina que, em outras circunstâncias não seria bem-vinda, mas sendo que eu estou precisando forçar a inspiração e escrever algo bom, tenho me obrigado. 

Agora as ruas já estão cheias de pessoas. Mais carrinhos de picolé, mais mulheres vendendo tapioca com ginga, homens com dreds sem camisa vendendo artesanato. O sol continua a esquentar e eu começo a pensar em comprar um boné. 

Uma mulher de cabelos grisalhos está sentada sob a sombra de um guarda-sol, tendo ao lado uma criança muito loira brincando com o que eu acho ser uma versão genérica de um Transformer. Na frente da mulher tem três recipientes retangulares de isopor e uma placa escrita com caneta diz “camarão”. Um estalo na minha cabeça me faz parar em frente a ela e lhe desejo bom dia, no que ela responde com um grunhido. Eu pergunto o preço e peço dois quilos. Dessa forma eu já posso pensar nos próximos almoços ou jantares que eu desejar fazer. Ela abre as tampas dos recipientes para que eu veja e percebo que são diferentes. Uns maiores, outros enormes. Eu escolho os médios que já estão limpos. Ela coloca os cadáveres deliciosos numa sacola plástica e deposita numa daquelas balanças bem antigas. Eu surrupio um camarão e coloco na boca. O gosto agridoce faz a parte superior de meu maxilar dar uma travada e minha boca salivar bastante. Ela envolve a sacola em um bolo de jornais velhos e os envolve em outra sacola. Faz tudo com uma precisão que indica rotina. Recebe o dinheiro, me devolve o troco e isso tudo num silêncio que poderia ser incômodo, mas a mim não é. Agradeço e sigo meu caminho.

Suor já começa a escorrer pelas minhas têmporas e pensar em usar um boné me faz pensar em coceira na cabeça, então desisto. Um homem mais à frente vende coco verde gelado e eu peço um. De uma maneira assustadora, ele corta a cabeça do coco rapidamente, abre um buraco, enfia um canudo e me entrega. Eu pago e quando sorvo o líquido doce, um alívio percorre minha garganta e por um momento sinto frio interior, que dá uma breve pausa no calor. Bebo tudo em três goles e jogo a carcaça seca no meio de tantos outros, ali perto do homem.

Tenho que subir uma pequena ladeira para chegar na rua em que fica o mercado. Tem outros mais lá embaixo, mas esse em especial tem mais variedade, então o escolhi como meu preferido. Sem falar que o atendimento é melhor.

Deixo meus camarões com um rapaz com um corte de cabelo ridículo em que o topete é loiro, em contraste do negro do restante dos fios. Ele fica atrás de um balcão que serve de guarda-volumes e quase não me olha, mantendo a cabeça baixa sobre o celular. Me entrega um cartão de plástico com um número.

Pego uma cestinha e começo a caminhar pelos corredores. Uma placa amarela me adverte para ter cuidado com o chão molhado. Duas crianças correm desembestadas com uma lata de achocolatado na mão que diz que vem como brinde um boneco de algum programa infantil. Das caixas de som ocultas, algum sucesso de forró faz com que uma ou outra pessoa cante junto enquanto escolhe seus produtos. Eu suspiro profundamente por saber que mesmo odiando a música ela vai ficar na minha cabeça o dia todo. Os alemãs tem uma palavra para isso: ohrwurm, que descreve esse tipo de música que rasteja até nosso ouvido e nunca mais sai. A palavra significa literalmente “verme no ouvido”.

Vamos ver.

Arroz, pimenta, vinagre balsâmico, vinho branco. Sessão de verduras e frutas. A cestinha começa a ficar cheia. E a pior parte é pegar a fila. Nenhuma está curta. São quase 9:30h, mas é sexta-feira, então eu me coloco na primeira fila que aparece no meu campo de visão, atrás de um homem que bebe uma latinha de cerveja e carrega na cestinha um pedaço enorme de costela que eu acho ficaria melhor em um carrinho. Uma mulher, que eu acredito ser a esposa dele, aparece trajando uma manta leve, sem mangas, que mostram braços brancos e tatuados. Ela se coloca do lado dele lendo o rótulo de um vinho tinto. Em seguida uma moça de uns 13 ou 14 anos, cabelos escuros como breu, piercing pendendo de um nariz e roupas pretas (nesse calor!) aparece do lado deles com um pacote do que me parece algum oleaginoso, ingrediente para algum prato vegetariano, suponho. Suponho também que deva ser a filha deles. A imagem dessa garota é a própria selfie do tédio.

Finalmente a família na minha frente começa a colocar suas compras no caixa e eu já aguardo minha vez. De onde eu estou, consigo ver um balcão próximo ao guarda-volumes que eu sequer tinha reparado. Para minha surpresa ele vende artigos de artesanato. Miçangas, esculturas em madeira, biscuit, quengas de coco seco. Lembranças da Cidade do Sol. Não tem ninguém do lado de dentro do balcão, então posso imaginar que esteja ocupado com alguma outra coisa, mas tem um cliente esperando. Ou melhor, uma cliente. E é nela que minha mente se detém. 

Ela está em pé, braços apoiados no balcão. Calça chinelos pretos e suas pernas são magras, mas se encontra algum músculo se olhar bem. Ela apoia o pé esquerdo descalço no lado do joelho direito, formando um 4 com suas varetinhas bronzeadas. Usa um short cor de creme que, para meu olhar masculino, é recheado por uma bundinha apetitosa. Suas costas são eretas e firmes, uma blusa preta de alças deixa mostrar seus belos ombros nus e um pouco de seu suave pescoço comprido. Os cabelos são molas que rodeiam sua cabeça, vermelhos como sangue, uma tonalidade de vermelho que eu, homem, jamais saberei dizer qual é, mas que lembra o cobre. Eles caem sem tocar os ombros. 

Uma pontada em alguma viela de meu cérebro pede que eu a conheça, que peça seu telefone, que a convide para jantar. Ainda não vi seu rosto, mas ondas de prazer emanam dela e se quebram sobre mim. 

“Moço?”

Sinto um toque em meu ombro e é um senhor atrás de mim apontando com a cabeça para o caixa. Quem tinha me chamado era o cara do caixa, erguendo seus óculos com o dedo indicador. Eu peço desculpas aos dois e vou colocando os produtos na esteira. Enquanto ouço o bipe deles sendo registrados, eu volto a olhar para a moça de cabelos vermelhos. Ela agora se virou para a frente, repousando os cotovelos no balcão e esticando o belo pescoço como se em busca de alguém. Seios médios podem ser vistos sob a blusa negra, mas não chegam a formar um sulco entre eles. Duas argolas prateadas pendem de seus lóbulos. Seus olhos são negros, seu nariz é pequeno e sua boca tem lábios nem finos nem grossos, mas posso apostar que são macios. O formato de seu rosto, seu crânio, a curvatura de seu maxilar, todos esses detalhes são escaneados pela minha retina e impressos em meu cérebro como se fosse a última imagem que eu fosse ver no mundo, num esforço titânico para nunca esquecer.

“Moço?”

O cara do caixa terminou e me fala o valor. Eu mostro o cartão e digo “débito”. Enquanto espero o som de aprovação da máquina, eu volto a olhar para o balcão, mas a moça de cabelos vermelhos não está mais lá. Como naqueles filmes de terror em que o assassino em um segundo está ali e no outra já não está, ela some. Como uma miragem. Olho ao redor e nada dela. Até meus olhos caírem nos olhos do senhor atrás de mim cuja carranca demonstra impaciência. Eu pego minhas coisas e penso em dar uma volta pelos corredores. Mas logo penso em todo o trabalho de ter que deixar minhas sacolas no guarda-volume e tudo, então desisto.

O rapaz no guarda-volumes ainda está debruçado sobre o celular, mas com uma visão de terceiro olho, talvez, pega meu cartão e me entrega os camarões. Estou quase lhe dando as costas quando falo:

“Ahn… Desculpa, mas você viu a moça de cabelos vermelhos que tava aqui do lado agora há pouco?”

O rapaz ergue os olhos e quando me olha pisca várias vezes, como se estivesse vendo a luz do dia só agora. Dois vincos verticais se formam entre suas sobrancelhas.

“Não, não vi ninguém.”

Eu já deveria imaginar. 

Caminho lentamente até a saída, na esperança de que ela ainda apareça com a mesma mágica que usou para desaparecer, mas nada acontece.

E nada continua acontecendo.

Resignado, eu solto um longo suspiro e me preparo para atravessar a rua. Eu sinto minha respiração quente e o ar está quase fervente quando saio do mercado. Ele sobe do asfalto amolecido, dos paralelepípedos gelatinosos. As imagens ao meu redor estão distorcidas e tenho a impressão de que vou cair. O mundo parece um reflexo ondulante em um lago em movimento. Eu paro e respiro fundo. O sol não tem clemência.

Eu volto para a casa de praia.


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