quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A Raposa Vermelha - Capítulo 2


O videocassete dá alguns estalos, depois emite um zunido hidráulico que aumenta de intensidade e volume até parar, parecendo um avião prestes a decolar. Então a fita começa a rolar devagar.

No primeiro dia que entrei nessa casa os meus lábios se esticaram para os lados num sorriso nostálgico ao ver o videocassete. Fazia tempo que eu não via um. Ele, o símbolo de uma época rebelde e barulhenta em contraste com os aparelhos modernos cujo silêncio reflete a apatia de uma geração digitalizada. Ele foi o eco de um período em minha vida de apenas diversão.

Quando eu decidi tirar um tempo para finalmente começar um novo livro, pensei logo em meu primo Alex e sua casa de praia. Ele não só me cedeu a chave da casa prontamente como até me agradeceu, já que estava se organizando para ir em uma viagem de trabalho para o Canadá e não gostaria de deixar a casa só. Eu falei que precisava de pelo menos 6 meses, mas como ele falou que seu trabalho no exterior duraria um ano, então eu poderia ficar mais que à vontade.

Ele trabalha com esses empregos modernos de tecnologia, algo relacionado a inteligência artificial. 

Essa casa é grande: sala, cozinha e dispensa na parte de baixo e dois quartos e um banheiro enorme com banheira de pé no primeiro andar. Ele costuma vir com a namorada todos os fins de semana curtir a praia. Me falou que ela não pôde ir com ele para o Canadá, por mais que insistisse, mas me falou que não vai usar a casa, então eu posso ficar tranquilo com a minha reclusão.

Antes de ele viajar, dois dias antes de eu vir para cá, fomos até um bar colocar a conversa em dia. Falar de nossos pais, dos trabalhos, das garotas. 

“Então… Como é o processo? Você apenas senta e começa a escrever? É como psicografia?”

Ele ri. Eu detesto esse tipo de conversa. Eu na verdade nunca sei o que responder. Até porque nem eu mesmo entendo perfeitamente como esse processo ocorre, então tento alguma coisa:

“Não sei explicar muito bem. Tem vezes que um acontecimento do dia me inspira a escrever um parágrafo e então esse parágrafo se torna uma página e assim por diante.”
“Você sempre tá escrevendo?”
“Sim. Procuro manter um blog com contos. Você tem que escrever sempre, mesmo não querendo, ou enferruja.”
“Acho que todo o trabalho que envolve criação necessita disso mesmo.”
“Acho que sim.”

Ele garantiu que leu meu livro e eu fingi que acreditei. Depois de duas rodadas de cerveja, ele cansou de falar e eu cansei de ouvir. Nos despedimos com um abraço com tapas fortes e desnecessários e ele me deu as costas, sumindo para o Canadá e seu trabalho sombrio.

Para o jantar eu decidi fazer risoto de camarão, então me jogo no sofá com o prato e uma taça de vinho branco enquanto assisto o noticiário. São 20h e a praia está lotada lá fora, mas o barulho está longe, pois para ir dessa casa até onde a diversão está eu tenho que andar um pouco. Estou localizado bem em frente da praia, a areia branca empurrando o baixo muro branco que cerca a casa. 

O jornal termina e eu termino de jantar. Deixo o prato na pia para lavar amanhã de manhã e encho mais uma taça de vinho. Volto para a sala e me sento em posição de lótus diante da estante de madeira antiga e resistente. Abaixo do videocassete tem várias fitas VHS e eu retiro todas para dar uma olhada. 

Nossa, é uma viagem no tempo. Me sinto segurando o volante do Delorean. Há filmes em preto e branco, como os de Chaplin e Hamlet. Tem a série completa de Um Tira da Pesada, de Corra Que a Polícia Vem Aí e Alien. O Show de Truman. Eu lembro de ter assistido esse filme várias vezes sem cansar. 

Me lembro da época em que eu alugava fitas como essa por 1 real. Depois de um tempo começaram a cobrar multa se a fita voltasse à locadora não rebobinada. Posso até ouvir a fita voltando num barulho de turbina de avião, eu na expectativa de que o aparelho de vídeo alçasse voo. 

Até as fitas pornô que eu alugava tinham que ser rebobinadas, pelo amor de Deus. 

Uma vez eu aluguei as fitas em um lugar bem longe da minha casa e resolvi não devolver. Eu tinha dado número de telefone e endereço falsos. Por que eu fiz isso? Vai saber. Fiquei com 3 fitas e as usei para gravar alguns programas da MTV, uns clipes e algum daqueles filmes toscos do Cine Privê. Emanuelle e suas aventuras.

Enfio a mão mais fundo no nicho onde ficam as fitas e as pontas de meus dedos detectam uma grossa camada de poeira. Então eles batem em uma caixa. É mais uma fita, só que ela não tem capa. Abro a caixa e na fita não tem nenhuma identificação. Eu tinha várias assim, gravações que eu fazia da TV. Com essa fita preta e sem nome na mão eu me sinto no filme O Chamado. Tenho um enorme arsenal de sucessos dos anos 80 e 90 ao meu redor, mas minha curiosidade bate mais forte e eu coloco a fita anônima no videocassete.

O videocassete dá alguns estalos, depois emite um zunido hidráulico que aumenta de intensidade e volume até parar, parecendo um avião prestes a decolar. Então a fita começa a rolar devagar.

A imagem e o barulho da estática. A fita não precisa ser rebobinada, basta eu esperar, mas como demora eu decido adiantar. Apoio as costas na base do sofá e pego o controle remoto. Adianto a fita. O aparelho dá uns estalos, a imagem é cortada por uma faixa horizontal ondulante e eu aperto play. O vídeo começa. Granulado e com o som baixo. Pego o controle da TV e aumento. Nada. Concluo que o vídeo não tem som.

A câmera oscila e demora um tempo a focar. A uma distância considerável dá para ver a sacada de um primeiro andar e uma cadeira de balanço do lado de fora, ao lado da porta aberta que mostra um quarto iluminado por uma luz amarelada. Então duas silhuetas aparecem do quarto. É um homem e uma mulher. O homem senta na cadeira. A mulher está vestindo apenas calcinha e uma camiseta longa, mesmo sendo uma sombra, dá para ver todo o contorno das linhas de seu belo corpo. Ela some no quarto e volta com uma garrafa na mão, que me parece ser vinho. O líquido está em mais da metade da garrafa. A mulher bebe do gargalo, jogando os cabelos curtos para trás e dando gute gute na bebida. Em seguida entrega ao homem que faz a mesma coisa.

Ela puxa a bermuda do homem até seus pés e em seguida retira sua camiseta, mostrando seios firmes, seguros por um sutiã. Eu dou pausa e formo rugas entre minhas sobrancelhas. Me levanto e subo correndo as escadas em direção ao quarto onde durmo. Vou até a janela e olho para o vizinho que fica à direita. Não pode ser aquela janela. Vou até o outro quarto e olho para a casa do vizinho da esquerda. É ela. A casa. A varanda. A porta e até a cadeira de balanço está ali. Formo um sorriso malicioso em meus lábios.

“Alex, seu filh...”

A frase começa em minha boca e termina em minha cabeça.

Volto correndo para a sala e dou play. A mulher agora desliza a calcinha por suas pernas e senta no colo do homem. Ela pega a garrafa de vinho e dá mais um longo gole, depositando-a em seguida no chão e então começa a cavalgar o cara. Na imagem granulada e difusa, eu chego mais perto da tela e posso ver os seios dela subindo e descendo. Os cabelos ondulando. Ela enverga as costas e sobe e desce violentamente. Fixo meu olhar na cadeira de balanço e consigo perceber que ela está quase saindo do chão. Eu sorrio.

Então, ainda subindo e descendo com força, ela se curva para o lado e pega a garrafa de vinho. Essa aí gosta de deixar o corpo curtido para um abate, eu penso. Mas ela não leva a garrafa à boca. Ela faz um arco com o braço e desce a garrafa na cabeça do cara. Não dá para ver muito bem, mas acredito que ele fica um pouco tonto. Ela para de se mexer no colo dele e desfere mais um golpe em sua cabeça. E mais um. E mais um. Até o vidro enfim se quebrar. Até os braços dele penderem dos lados da cadeira. Ela fica de pé, olhando para ele. Aproximo mais o rosto da tela e posso ver que seu busto está ofegante. Ela entra no quarto e quando volta é com mais uma garrafa de vinho, que leva até a boca e dá mais um gole profundo. Então fica de frente para a câmera. Nesse momento a imagem vira em diagonal, treme e some num tom escuro de ranhuras cinzas espalhadas. A fita volta à imagem e o som da estática.

Eu estou de boca aberta. 

Volto a fita e vejo a parte final mais uma vez. Não dá para reconhecer nada. As imagens são apenas silhuetas iluminadas pela lua. Não dá para saber ao certo se a mulher descobriu que estava sendo filmada. Preciso ligar para Alex e perguntar que porra é isso. Mas também preciso escrever e na minha cabeça já começam a se criar parágrafos de uma nova história.

Preciso de vinho. Não, preciso de água.

Vou até a geladeira e pego uma garrafinha de água com gás. Antes que eu perceba, eu já a bebi toda. Vou até a pia e abro a torneira no máximo, colocando a minha cabeça debaixo da água corrente. Esfrego o rosto com força. Minha cabeça gira e se atropela em tantos pensamentos que eu não sei por onde começar. Penso nas considerações. Pode ser um vídeo amador? Não. Alguém além de Alex poderia ter feito o vídeo? Sim, poderia. O que eu preciso fazer primeiro? Não posso atrapalhar meu primo em seu trabalho. Eu nem sei que horas são agora lá no Canadá. O que eu preciso fazer é aproveitar essa adrenalina e escrever. É isso que eu vou fazer.

Vou até o banheiro e enxugo a cabeça. Dou uma mijada longa que eu segurava enquanto via a fita e meu corpo parece se esvaziar de um enorme peso.

Outra coisa antiga que tem nessa casa é uma máquina de datilografar de madeira, com teclas escuras. Ela está quase nova em folha, mas não, eu não me dispus a escrever nela. Já estava com dificuldade em escrever, imagine fazer força nos dedos para isso. Então subo até meu quarto, abro o notebook e começo a digitar.

Durante duas horas eu escrevo e reescrevo. Apago, corrijo. Desisto. Recomeço. Escrevo 15 páginas que, mesmo boas, ainda não me convencem, mas eu deixo ali para mais tarde ler novamente e ver o que eu posso mudar, acrescentar ou retirar. O que eu preciso agora é tomar um pouco de ar. Na porta do quarto eu olho para a janela do outro quarto e posso ver a varanda. Um arrepio sobe pela minha espinha. 

Desço, fecho a porta da frente atrás de mim e começo a caminhar para o lado direito, para onde as barracas e bares estão abertos e as pessoas estão dançando, bebendo e conversando. Passo por várias casas idênticas a que eu estou, poucas com luzes acesas. Crianças correm com um cachorro que parece uma grande escova pela areia fria, de pés descalços e apenas de bermudas de tecido fino. Faz um pouco de frio, mas não o suficiente para que eu deseje um café a uma cerveja bem gelada.

Mais a frente, um quiosque expõe o título de Beira-Bar e eu curti. Sento numa mesa vazia e espero. Do outro lado da minha mesa, um homem aparece e some envolto em fumaça, erguendo espetinhos de carne de uma churrasqueira longa. 

“Oh amigo! Tem porco?”

Ele ergue um polegar para mim, pois sua boca está ocupada com algum naco enorme de carne. Eu peço dois espetinhos de carne suína e ele ergue o polegar mais uma vez.

Mesmo a essa hora ainda tem gente vendendo picolé, tapioca e artesanato, abordando todas as pessoas que estão nas mesas. Um cara se aproxima e quer me mostrar alguma arte feita com folhas de coqueiro, mas eu nego veementemente até ele desistir e ir embora.

“O que vai querer?”

É alguma atendente do Beira-Bar.

“Oi. Eu… ahn...”

Minha nossa! Mas é a moça de cabelos vermelhos! Sim, é ela mesma. As argolas pendendo de seus lóbulos, a bela boca mascando um chiclete. 

“Eu vou… ahn...”

Ela veste uma blusa negra parecida com aquela do mercado e uma saia longa indiana. Ela começa a sorrir talvez achando que eu seja gago.

“Tá tudo bem, moço?”
“Sim, sim.. Tudo ótimo. Eu quero uma cerveja, por favor.”
“Pra já.”

Ela me dá as costas e meus olhos não conseguem não reparar na sua bunda dançando sob a saia longa. Agora minha mente mais uma vez está num redemoinho, pensando no que fazer. Que abordagem usar para falar com ela. Eu tenho um enorme problema em burocratizar coisas simples. Então pego um cigarro mentolado do maço misto que trago no bolso da camisa, mas me apalpo e percebo que esqueci do isqueiro.

Ela volta com uma garrafa de 600ml de cerveja e um copo gelado. Seu corpo recende a hortelã, suor e maresia.

“Moça, você tem um isqueiro?”
“Só se você me der um cigarro.”

Ela sorri com total consciência de que esse ato pode desarmar qualquer um e retira um isqueiro vermelho de entre os seios.

“Claro, claro.”

Eu pego o isqueiro que está quente e tocou a maciez de seus seios. Esse pensamento me causa uma ereção e eu me dou um tapa imaginário na mente por causa de tamanha infantilidade. Pego mais um cigarro, coloco os dois na boca e os acendo, dando a ela um em seguida.

“Brigadinha. Se precisar de mais alguma coisa é só chamar.”
“Ok, qual seu nome?”
“Fernanda.”

Ela vira rapidamente o rosto e já sai para atender outra mesa.

Fernanda.

Tenha vergonha na cara, homem! Você tem o que? 12 anos? 

O cara do churrasco coloca um prato com dois espetinhos, vinagrete e farofa diante de mim e eu levo um susto.

“Foi mal, cara, não quis te assustar.”

Eu sorrio e agradeço.


“Deixa mais dois aí no ponto que eu vou querer depois, tá?
“Beleza.”

Fernanda.

Ela desfila entre as mesas, sua saia esvoaçando, seus cabelos como espirais rubras emoldurando seu belo rosto. Eu bebo rápido para que ela volte. Tiro a garrafa do isopor para ela ver que eu quero mais uma. Ela se aproxima depois de um tempo com uma nova garrafa.

“Você tá morando naquela casa que tem um catavento, né?”

A casa tem um catavento?

“Eu vi você saindo de lá umas vezes. Moro aqui faz uns 5 anos e nunca te vi. Tá de férias?”

Preciso ver esse catavento.

“Tô aqui a trabalho, na verdade.”
“Ah é? Eu moro duas casas antes da sua.”
“É mesmo?”
“Sim. Eu largo de meia-noite. Posso pegar uma carona com você?”


Eu engasgo. Com o quê, eu não sei, pois não bebi nem mastiguei nada. Engasgo com a saliva, ou com o ar e sinto meu rosto vermelho e meus olhos lacrimejando. Ela ri. Mas não é um riso de desprezo. Ela realmente está se divertindo.

“Desculpe, a saliva entrou no lugar errado. Claro. Eu espero você ir e a gente vai caminhando junto.”
“Beleza. Tem caldos, você não quer experimentar?”
“Hum, boa ideia. Tem de sururu?”
“Tem sim. Vou mandar preparar.”
“Valeu, Fernanda.”

Ela sorri. Se ela continuar a sorrir mais vezes eu vou estar de quatro e fingindo de morto em pouco tempo.

“Pode me chamar de Nanda.”

Alguém em outra mesa a chama e ela leva a garrafa de cerveja vazia consigo.

Nanda.

Em poucos minutos consegui diminuir a distância entre nós e seu nome. Isso deve significar alguma coisa, não? 

Há uma lua enorme sendo refletida pela escuridão espelhada do mar. Sob o insuportável sucesso musical da época, dá para ouvir o barulho lento das ondas, sonolentas. Quando o caldo chega, eu emborco uma garrafinha de pimenta. Está quente e meu interior é abalado por ondas de calor, em seguida refrescado por goles de cerveja gelada. A euforia causada por Fernanda começa a se assentar e meus pensamentos voltam ao vídeo. 

Uma morte. Seria isso considerado um snuff? Amanhã vou mandar uma mensagem para meu primo perguntando da fita. Estou há 3 dias por aqui e não vi nenhum movimento da casa vizinha, mas, como muitos por aqui, pode ser que eles apareçam amanhã, no sábado, ou mesmo apenas no domingo.

Pena não ter uma data na gravação. Sinto uma onda de adrenalina quebrar dentro de mim, uma emoção causada por esse rompimento da rotina.

Então meu pensamento volta para Fernanda e me surge a ideia de, quando estivermos indo para casa, unir o útil ao agradável e lhe perguntar sobre meus vizinhos.

(continua)


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