quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Ora Pro Nobis



O único som que se ouve é o dos ecos de meus passos sobre o piso branco tão encerado que posso ver meu reflexo ondulante agarrado aos meus pés.

Da entrada até o altar estendem-se bancos de madeira envernizada, vazios hoje. Uma quietude cai como um manto sobre todo o lugar e acho que é o mais próximo que já vi do que chamam de paz. Faz frio aqui dentro, não apenas pela climatização, mas pelo vazio. As paredes erguem-se até o teto com vitrais enormes e estátuas de santos se alternam entre eles, quietas, presas no tempo, cada uma com uma pose, com um ato que continuarão repetindo pela eternidade.

Há muitos anos eu quase vesti o celibato, junto das roupas sacerdotais. O que os religiosos designam como Chamado veio até mim na juventude, maravilhado pela ritualística da igreja, pela mensagem do Evangelho, pelas esperanças no futuro após a morte pregada nos púlpitos. Claro que não foi um momento mágico. Veio entremeado de dúvidas e de temores. Justamente quando eu me decidi que decidir seria o melhor a fazer e não ficar pensando demais e pesando as coisas, ela apareceu. Deus me perdeu como um de seus mensageiros para duas belas fileiras de dentes sob lábios deliciosos com os quais estou casado até agora.

Mas aqui, nessa igreja, o meu encontro é com outra mulher.

Caminho quase até o meio da nave e a encontro, sentada, os cabelos longos e lisos brilhando sob as luzes do teto. Ela sabe que estou me aproximando, mas não desvia seus olhos do altar, não mexe um músculo, parece até que sequer está respirando. Vem dela um cheiro de sabonete misturado com rosas maceradas. Eu me sento ao seu lado e ela solta entre uma pequena fenda nos lábios um suspiro.

Ela está ali, sua presença indiferente, mas parece mais com uma ausência virada ao avesso. Os cabelos pendem como uma cortina diante do rosto, esperando o momento certo para se abrir e começar o espetáculo.

Está toda de preto, a saia acima dos joelhos caem nas coxas grossas e suas pernas cruzadas terminam num salto agulha. Abaixo do pescoço o decote revela a sugestão de um par de seios. Com o cessar de meus passos o silêncio nos afoga com uma viscosidade perturbadora. Olho para onde ela olha, o altar vazio, um crucifixo enorme se projetando da parede com um Jesus com cores vibrantes e musculoso que mais parece um ator de comercial de loção pós barba.

“Pensei que seu Deus estivesse morto”, perguntei sem virar o rosto para ela.
“E está. Mas gosto de contemplar os cultos primitivos. E olhe”, ela aponta para as cadeiras exageradamente ornamentadas postas logo abaixo do crucifixo. “Não consegue ver os outros deuses ansiosos na fila pra tomar o lugar dele?”
“Pensei que eles queimariam se entrassem aqui.”
“Não esqueça do versículo ‘Na casa de meu Pai há muitas moradas.’”

Faz muitos anos que eu não entro numa igreja. A primeira vez, eu lembro, foi na adolescência e apenas por causa de uma garota por quem eu tinha interesse. Foram os minutos mais dolorosos de que me lembro, pois a monotonia da celebração me incomodava como o banco de madeira desconfortável em que estava sentado e a garota sequer olhava para mim, mesmo estando ao meu lado. Ela mantinha uma concentração incompreensível para mim no que se desenrolava no altar. No final da missa ela se despediu apenas com um aceno de mão, gesto que eu lembraria nos próximos dias com profunda frustração, só postergado no domingo seguinte quando eu soube que ela decidira se tornar freira.

A última vez foi quando eu saía de uma reunião sobre o seminário. Dali a quatro dias eu iria de vez me tornar sacerdote, mas quando descia as escadas e vi uma moça subindo os degraus com graciosidade, se aproximando de mim para me entregar um folheto, foi naquele momento que a vocação religiosa perdeu totalmente o sentido para mim. Depois daquele dia eu nunca mais pisaria numa igreja. Até hoje.

“Sabe, esse culto, entre outras tantas religiões, é curioso” A voz dela me arranca de minhas lembranças. “Tantas crenças se apegam à imagem de um Deus onipotente, empunhando armas de guerra, barba longa demonstrando sabedoria e músculos protuberantes demonstrando força e virilidade, enquanto essa aqui tem como símbolo de sua fé a morte de seu Deus.”
“A morte é uma coisa presente tanto nessa religião quanto nessas paredes”, eu digo olhando ao meu redor.

Apesar da assepsia desse lugar, de sua calmaria desconcertante, as imagens que me vem à mente são de massacres perpetrados em nome de sua religião. Mulheres sucumbindo a uma caça irracional por bruxas, homens queimados em fogueiras por não se submeterem a um homem, como eles, que se dizia representante de Deus na Terra. Sangue de vítimas de séculos e séculos se derramam por essas paredes. A criatividade humana sendo usada para dar vida a instrumentos de tortura tão demoníacos que causam náusea até hoje. Eu cruzo minhas pernas, suspiro e falo para ela:

“Depois do ano 324 da EC, alguns fiéis insistiam em ter seus corpos enterrados ao redor ou dentro das igrejas, isso porque eles queriam ter uma aproximação maior com os santos, os homens e mulheres que dedicaram completamente suas vidas a Deus e produziam milagres e que eram sepultados nos templos. Quem tinha mais dinheiro, óbvio, conseguia um bom lugar dentro da igreja, o mais próximo possível de algum santo que havia sido sepultado ali. A demanda era tanta que se tivesse um lugar que coubesse um corpo, eles o colocavam. A coisa era tão absurda que cadáveres chegaram a ser colocados até nos telhados e empilhados nas paredes. Agora imagine o cheiro nauseante nesses locais, com o calor que fazia, sem essa climatização que temos hoje aqui. Nem o cheiro constante dos incensos queimados no altar podia esconder o fedor de carne em putrefação. As igrejas eram, sem dúvida, sepulturas enormes.”

Ela afasta os cabelos do rosto e esboça um sorriso torto, erguendo o queixo.

“Sepulcros caiados’, como disse o homem ali. Belos por fora, mas cheios de ossos de mortos e toda imundície por dentro. Que ironia, não?”

Pensei na expressão “esqueletos no armário” e a modifiquei para “esqueletos nas paredes”. Ela pega um arquivo que está do seu lado e tira de dentro dele um folder, que passa para mim ainda olhando para os joelhos. Eu o pego e sinto um calafrio percorrer minha espinha. São mais ossos ocultos. Ela fala:

“Me admira que uma religião que cultua uma mulher ainda seja tão patriarcal. Mas levando em consideração o que disse um de seus fundadores de que ‘a mulher deve permanecer calada’, bem, dá pra ver que ela é só um eco das religiões mais antigas, certo?”

Eu ainda não abro o folder. Dado o assunto que vim discutir aqui, preciso reunir um pouco mais de frieza. Talvez o fato de ter duas filhas adolescentes tenha me feito adquirir um filamento de emoção que desconhecia antes de ser pai. Meu suspiro é longo e parece me esvaziar. Ela continua:

“As mulheres sempre tiveram um papel secundário na história. Mesmo nas vitórias de grandes exércitos. Muito se fala sobre a genial ideia do Cavalo de Tróia, mas ninguém sequer se importa com quantas mulheres foram estupradas após o massacre, tendo sido tomadas como espólio para unicamente satisfazer os vencedores.”
“Essa conversa toda pede um copo cheio até a boca de bourbon.”
“Todos curtem um filme de terror onde a mulher é possuída por um demônio. Existem fãs de serial killers que aprisionaram, humilharam, violentaram e mataram mulheres. Uma mulher morta é sempre o que atrai nos livros, filmes, seriados e na própria realidade.”

Sugo todo o ar que posso e olho para a capa do folder.

Na verdade ele parece mais um cardápio. Se olhar rapidamente, parece o menu de um restaurante. O papel não é qualquer um, mas um caro que desconheço o nome. A capa é coberta por rosas vermelhas e a palavra Éden flutua sobre elas, uma ironia bizarra. Há uma data muito recente impressa, dessa semana. Quando abro o que vejo são fotos de mulheres, algumas em posições sensuais, outras mais pornográficas, nuas, escondendo suas partes íntimas ou de pernas totalmente abertas. Todas elas estão divididas em categorias.

A primeira parte é intitulada Ninfetas. Fotos de mulheres entre 16 e 25 anos pairam ao lado de informações sobre Cor, Idade, Peso, Busto, Quadris e Nacionalidade. Elas sorriem como se houvesse uma arma apontada na sua direção ou fazem expressões eróticas, mas todas tem os olhos injetados.

A outra categoria é chamada Milfs. Mulheres mais velhas, entre 40 e 50 anos, visivelmente alteradas com cirurgias e implantes. Suas fotos dançam ao lado das mesmas informações. A princípio, vendo essas duas características, você pensaria que esse é um menu para acompanhantes de luxo, mas não.

Junto às informações corporais das mulheres estão valores em dinheiro. São preços exorbitantes, numa primeira olhada, mas na verdade estamos falando sobre pessoas. Essa quantia é dada como o valor de um ser humano. Isso aqui na minha mão é um menu de tráfico de mulheres, que você escolhe como se estivesse escolhendo qual prato principal e qual acompanhamento deseja para hoje. Isso tudo escondido sob a camada religiosa de uma igreja que, como disse minha amiga aqui ao lado, ironicamente cultua uma mulher.

“Viu o meu valor aí? Eu até poderia me sentir lisonjeada, não fosse a bile subindo à minha garganta.”

Em outra seção a palavra Virgens intitula com arabescos para demonstrar alguma importância. Garotas entre 14 e 20 anos, nem todas mostrando o rosto, com as pernas abertas para que suas vulvas sejam expostas num melhor ângulo, tendo nas Informações o acréscimo de atestado de virgindade. Os valores, claramente, são maiores, havendo inclusive uma nota de rodapé anunciando que a cada mês é feito um leilão com elas.

Meu suspiro faz minha colega recomeçar a falar.

“E o mais engraçado é que essa mulher que eles cultuam é uma virgem, não é mesmo? O símbolo da pureza. Sabia que, diferente de muitas crenças, nem sempre as virgens eram sacrificadas? Quando um viking recebia um funeral uma escrava virgem era trazida diante do povo e era prostituída basicamente por todos os homens do acampamento. Ela precisava ter a semente de todos os homens derramada em si, ser corrompida e desonrada para que estivesse preparada para o sacrifício. Ela passava praticamente 10 dias com as pernas abertas para que os homens a penetrassem."
“Então uma velha chamada Anjo da Morte a embebedava. A garota bebia até cair. Então ali, bêbada e inconsciente, uma origem do que se faz muito hoje em dia em boates com dormonid, ela era novamente desonrada, passando 6 vezes por 6 homens, como se fosse um prato de comida. Depois que os homens estavam saciados a jovem era colocada ao lado do cadáver e a velha, o Anjo da Morte, afundava uma lamina no peito dela. Por várias vezes a velha enfiava a faca no peito da jovem, como um último ato de penetração, uma espécie de coito brutal.”

Não era muito diferente da atualidade, eu penso. e o show de horrores continua. Na próxima seção o título é Fetiche, uma palavra que serviria para despertar alguma repulsa, acho, não muito condizente com o conteúdo. Me pareceu mais um preconceito velado. Fotos de mulheres passando dos 60 anos, mulheres obesas, mulheres com algum membro mutilado e mulheres negras se misturavam nessa categoria. Meu estômago revoluteia e eu tapo a boca contendo um acesso de vômito. Fecho os olhos e respiro fundo novamente.

Ainda nessa categoria os valores são bem baixos. Me chama a atenção o valor das mulheres negras ser o menor. Isso tudo parece surreal, mas tendo trabalhado nesse meio durante tanto tempo eu sei até onde a cabeça de alguns homens pode ir. Mesmo assim o choque de algumas imagens e informações é inevitável. O que me alivia, pois ser insensível a isso tudo me deixaria preocupado.

No entanto eu sei que a última parte é a pior. Sempre é a pior e, sei também, que é a mais lucrativa.

Nem dou atenção para o título e meus olhos veem e tentam desver ao mesmo tempo.

Penso nas minhas filhas em sua tenra infância e o cuidado que eu sempre tive com elas, como se fossem bonecas de porcelana que a qualquer movimento poderiam quebrar. Penso em toda a inocência que elas possuíam e na minha frustração em saber que nem sempre poderia protegê-las do mundo. O que sempre me intrigou foi saber como algumas pessoas teriam coragem de fazer algum mal a seres tão frágeis e inocentes. Nunca os entendi e continuo sem o menor desejo de entender.

As fotos aqui são de criaturinhas entre 2 e 10 anos. A maioria são garotas, mas também há garotos. Meu estômago parece ser apertado por uma mão forte quando há uma pequena seção com bebês e os valores absurdamente altos.

Tudo isso aqui parece um pesadelo, um sonho construído no mais profundo círculo do inferno, fedendo a podridão e fezes. Homens que professam uma religião promulgadora de um deus de amor, cujo livro sagrado fala “deixai vir a mim os pequeninos”, vendendo mulheres e crianças a homens pervertidos, bebedores da taça de imundície do próprio diabo.

Às vezes só acho que se Deus realmente existe e me ama, bem, Ele deveria se mostrar a mim numa forma humana, de preferência um homem, e me deixar dar um chute muito bem dado em seu saco divino.

“Posso imaginar o que você está sentindo nessa seção. Mas só imaginar. Tivesse eu filhos sentiria o mesmo nojo que sinto se desprender de sua carne agora.”

Passo uma mão espalmada no rosto e sinto uma fina camada de suor me cobrir, um suor frio e que me faz ter repugnância de mim mesmo. A ojeriza é uma mão invisível a me socar o estômago.

“Há quanto tempo estão agindo?”

“Outra coisa revoltante: há 2 anos e meio. A coisa aqui era muito bem encoberta. Não fosse uma freira novata denunciar, eles talvez prosseguissem por mais 2 anos, ou mais. Tudo não passou de sorte, uma ironia do acaso que fez esse material aí chegar às mãos dela.”

“O padre sabe de tudo, obviamente.”
“Sim. Ele deve estar chegando pra nos ver. Peço que mantenha o sangue frio.”

Olho para meu lado direito e vejo um dos mais famosos símbolos dessa religião: o confessionário. De madeira brilhante e com duas entradas cobertas por cortinas de veludo cor vinho, uma luz acima está apagada, o que indica que ele está livre. Nesse lugar a confissão se mantém em segredo entre o padre e o fiel. Nada no mundo poderia dar ao sacerdote a permissão de contar a alguém os segredos confessados naquele lugar. Sob pena de automática excomunhão (latae setentiae) o que for dito ali morre ali, não importando o conteúdo. O padre poderia até saber antecipadamente da morte de uma pessoa através de quem confessava, mas não poderia avisar às autoridades. O segredo sacramental é inviolável e eu me pergunto quantos desses homens que aceitaram a chamada vocação não tiveram noites insones servindo como túmulos de segredos revelados apenas a eles.

Poucos minutos depois aparece um homem de uma parte oculta atrás do altar, trazendo uma cadeira branca de plástico ao lado do corpo. Sua barriga proeminente estica uma camisa branca de botões, encimada pelo colarinho sacerdotal. Sua cabeça é redonda e coroada por cabelos castanhos que estão rareando e embranquecendo. Olhos miúdos, mas perscrutadores, bochechas salientes. Numa primeira olhada você lembra daqueles monges que aparecem em imagens nas embalagens de achocolatados ou leite. Ele parece ter saído da Idade Média e serviria muito bem para ser Papai Noel no fim do ano. Toda a sua pessoa emana uma simpatia atraente. Ele se dirige até nós com um sorriso de vovô no rosto e uma mão com pelos já brancos nas costas estendida.

“Boa tarde. Eu sou o Padre Azevedo.”

Minha colega já havia tomado o folder de minha mão e o guardado em seu arquivo. Com um enorme esforço eu aperto a mão do homem na minha frente. Ele cheira a algo mentolado. Aperta a mão de minha colega e eu percebo, mesmo que faça o mais discretamente possível, que ele lhe analisa o corpo como um profissional.

“Em que posso ajudá-los?”

A conversa que se segue é rápida, clara e desprovida de adornos. Minha colega fala mais, o que me alivia, já que meu sangue continua a ferver. Ouvindo tudo sem interromper, não há nenhuma expressão no rosto do padre que o denuncie. A falta de sentimentos é quase bizarro. Ela termina falando da invasão aos computadores da paróquia, da denúncia da freira, do acesso que conseguimos ao material, colocando à frente dele o nojento folder.

Não há uma só ranhura de mudança na expressão do padre. Seus olhos, cujo brilho lembraram os do meu avô, não vacilam. Ele apenas dá um profundo suspiro, sua enorme barriga numa ascensão e queda peculiar. Olha para mim, bem nos olhos, depois para a minha colega, com o mesmo olhar fixo. Ergue-se da cadeira, estende seus braços, juntando suas mãos em nossa direção.

“Bem, façam seu trabalho.”

Aquilo me perturbou sobremaneira. Ele está consciente plenamente de sua culpa, de seus atos e de sua total participação nessa obra demoníaca toda. Nada em sua expressão corporal denuncia medo, apreensão, arrependimento. Ele apenas está ali, de pé, nos oferecendo seus pulsos para colocarmos as algemas. Essa atitude de superioridade, como se soubesse de algo que nós não sabíamos, faz o inferno dentro de mim aumentar.

“O senhor não tem nada a dizer?”

Ele olha para a minha colega e responde:

“Posso falar na delegacia, ao lado de meu advogado.”

Sua voz não possui estremecimento. É calma e branda.

“Escute aqui, seu...”

A mão de minha colega aperta meu ombro com força. O padre olha para mim com seu semblante de monge budista e ergue as sobrancelhas.

“O que acha que é isso tudo, policial?”

Minha respiração está quente e apressada. Sinto suor se formar na minha nuca e escorrer pelas costas.

“O que quer dizer com isso?”
“Você já leu a parte de trás do folder, policial? Viu o nome dessa organização?”

Pego o folder que minha colega já começa a tirar do arquivo e viro para ver suas costas. No canto inferior esquerdo há o desenho de alguns tentáculos serpenteando a palavra Hidra.

“Hidra, policial, porque se vocês nos cortam uma cabeça, nascem outras. Isso aqui é um negócio onde corre dinheiro, policial. Você pensa que derrubando isso aqui vai desmoronar o restante? A cada criança que você salva mais cinco tomarão seu lugar.”

Nessa hora um sorriso rasga o rosto do padre, um sorriso de deboche, escárnio, um desprezo por tudo e por todos. Minha colega pega suas algemas na bolsa e as coloca nele enquanto fala:

“O senhor não tem vergonha de fazer parte disso?”

O padre suspira.

“É apenas um trabalho, minha querida policial.”
“São pessoas!”
“Nunca leu a Bíblia? Escravos, mulheres sendo vendidas? Isso, policial”, ele gira a cabeça para mostrar a grande estrutura da igreja e em seguida aponta com ela para o folder, “é a Obra de Deus.”

Nesse momento eu não tenho controle sobre o meu corpo. Percebo que o padre descansou todo o corpo nos joelhos, mais de 100 quilos apoiados sobre eles. Eu me aproximo e piso com toda a força, 5 ou 6 quilos de pura raiva, com o calcanhar esquerdo em sua patela direita. Sua rótula é esmagada e sua perna se dobra, para trás. Exatamente como o joelho articula, só que ao contrário.

Ele grita, urra e seu corpo desaba no banco em que estávamos sentados no momento em que nos afastamos para os lados. Minha colega coloca a mão em sua boca escancarada, olhando para mim com olhos arregalados.

O padre tem todo o rosto banhado em lágrimas, a pele vermelha prestes a explodir. Ossos quebraram, cartilagens dilaceraram, ligamentos se romperam. A dor que ele está sentindo não é nada comparada à dor que ele já causou.

Minha colega ajeita o corpo e pega o celular para chamar a ambulância.

“Rápido, o padre sofreu um acidente. Ele caiu e fraturou o joelho.”

Ela olha para mim com seus olhos cristalinos. Eu sorrio. O padre ainda se debate no chão, com uivos de dor.

Sim, ele está certo. Nós decepamos apenas uma cabeça da hidra, mas foi muito prazeroso causar dor ao servo de Deus. Não foi esse Deus se fazendo presente aqui para receber o que merece por se manter calado diante de tanta maldade, mas parte do peso que eu senta no peito foi descarregada em seu representante aqui na Terra.

Me viro para o altar e, erguendo os braços e falando mais alto que os guinchos animalescos do padre, eu grito:

Ocupante enim nonnumquam Odium generis Humani!”
“O que é isso? Uma oração?”, pergunta minha colega, agora ao meu lado, colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e encarando também o grande crucifixo.
“Não, é Sêneca.”
“O que significa?”
“Às vezes o ódio da raça humana supera.”



Hemerson Miranda

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