domingo, 18 de março de 2018

PARAFUTRECOS





                                         Conto de Weverton Galease

  Numa tarde chuvosa, tomando seu café da tarde, Tales foi incomodado por seu pai, que em voz agressiva disse;

- Moleque, tem uma loja na cidade vizinha, que está contratando, eu conheço o dono, se chama Vasco, vai lá conversar com ele, e vê se consegue esse emprego!

  Após ouvir o pai, Tales apenas confirmou as informações, pedindo para seu pai repetir o que disse. Logo, o moleque respondeu quase que sussurrando que iria no dia seguinte, mesmo sendo um sábado, já que a loja fechava ao meio-dia.
  No dia seguinte, seu pai já havia ido para o trabalho, enquanto Tales se arrumou e foi de ônibus até a cidade vizinha. Chegando lá, com aquela coragem de preguiçoso, procurou pelo dono da loja. Ao ser recebido por aquele senhor de uns sessenta e tantos anos, de bigode branco, pouco cabelo; viu que o ambiente já seria meio hostil, alguns rapazes trabalhavam lá, e quando passavam por Tales, baixavam a cabeça e nem um 'bom dia' diziam.
  Muito ocupado, o senhor Vasco, pediu o currículo do moleque, pausadamente, analisou à frio, com a ponta da caneta riscando todo o papel, olhou para Tales, e disse;

- Você já enganou quem com esse currículo? Isto é um currículo? Você diz aqui que tem experiência em quê?

  O moleque com a aparência de assustado, engasgou com o ar, sem saber o que dizer, pois, até então, o contratante estava na razão, Tales nem havia trabalhado na vida ainda, aquilo no currículo era mera história. Mesmo assim, Tales respondeu improvisando, o senhor com muita frieza, rebatia, dizendo que o moleque nunca havia trabalhado.

  Tales, começou a ficar nervoso, e quase querendo ir embora, mas pensou no que iria dizer a seu pai, e então, sem argumentos, permaneceu ali. Foi quando Vasco começou a descrever para que estava contratando.

  Se o moleque achava que o ambiente estava hostil, nem imaginou onde isto iria dar sequência...

- Não tente dar a volta em mim. Não adianta trabalhar certo um ou dois dias e depois começar a jogar os parafusos pela janela. Outro dia peguei um funcionário meu jogando os parafusos pela janela. Então, não quero que você faça isso! - exclamou irritado Vasco

- Pelo que eu vi aqui, você nunca trabalhou, e me trouxe esse suposto currículo. Já começou mau tentando passar a perna em mim. Eu conheço seu pai, sei que ele é gente boa, mas você não me parece nada disso. - seguiu Vasco, esculhambando o moleque.

  A irritação de Tales era tanta, que já estava quase a chorar. Mas já cansado de ouvir tanta asneira, perguntou ao senhor se ele havia alguma chance de ser contratado. Vasco apenas resmungou;

- Quer trabalhar? Espera! Se eu achar necessário te ligo!

  Tales voltou para casa, tentou explicar a sua mãe como foi a entrevista de emprego, falou tudo que ocorreu. Sua mãe ficou até sem reação. Mas na segunda-feira seguinte, foi até a loja de parafusos, com seu filho claro, comprou dez quilos de parafusos e cinco quilos de pregos, abriu a sacola, e espalhou tudo no chão da entrada da loja, e dizendo;

- Tá aí os parafusos que você disse que meu filho iria jogar pela janela! Sem noção! Paranoico! Deve ser por tanta asneira que você fala, que seus funcionários tem esse tipo de reação. Vá com seus parafusos pra China, seu senhor treco!
 

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