terça-feira, 20 de setembro de 2016

'Os Enamoramentos' X 'O Coronel Charbet'


“Os Enamoramentos” 
Quem narra é a personagem principal, Maria, funcionária de uma editora, acostumada a lidar com os egos dos escritores e uma observadora da vida, como os bons leitores também são.
Todos os dias, na cafeteria próxima ao seu trabalho, sozinha, Maria observava, com um olhar romântico, um homem e uma mulher que “era como se houvessem adquirido o costume de respirar juntos um pouco”. Na imaginação dela, o casal não havia percebido a sua presença, porém, no decorrer da narrativa, ela descobre que também era assunto do casal perfeito.
O acontecimento que dá o pontapé inicial à narrativa é que Desvern, o homem do casal perfeito, morre de uma forma estúpida. E assim o caminho das duas mulheres se encontra: Luisa, sozinha e infeliz, chama Maria para dividir a mesa da cafeteria.
O homem morto permanece vivo no romance e outros personagens dão estrutura suficiente para que a história continue interessante, afinal, quando um personagem morre no início da trama, o mistério precisa continuar e, claro, sem o velho clichê “quem matou Odete Roitman”, e é isso que Javier Marías faz: o romance de ações lentas e grandes digressões, é uma busca de entendimento sobre a vida, os aspectos positivos e negativos, os bons e os maus, que inicia com uma narradora insegura, mas que amadurece um pouco a cada capítulo, nas revelação que ela mesma se permite buscar.
Destaco também a importância do romance “O Coronel Charbet”, de Balzac, para funcionar como engrenagem da narrativa, pois é a ideia dessa novela – a possibilidade de um morto voltar à vida – que faz a história caminhar por trilhos diferentes. Outras obras literárias importantes, como Macbeth, de Shakespeare e a Bíblia, também dão sua contribuição por meio do personagem Díaz-Varela, amigo do “casal perfeito” e o homem por quem Maria é apaixonada.
Mas por que o nome “os enamoramentos”? Por que Luisa amava Desvern, que foi morto. E Maria amava Díaz-Varela, que amava…
É que os que, como eu, pensamos na morte e paramos para observar o efeito que ela produz nos vivos, não podemos evitar de nos indagar de vez em quando o que aconteceria depois da nossa, em que situação ficariam as pessoas para as quais significamos muito, até que ponto ela as afetaria. (p. 94)

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