segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

RETROSPECTIVA 2014 - TARDE DEMAIS 23 - ARREPENDIDO



Conto de Gustavo do Carmo publicado originalmente em setembro de 2014

— Boa tarde,  eu queria falar com a Conchita? Perguntou o rapaz.
— Me desculpe, mas ela faleceu. Respondeu uma voz bem tremida de homem, aparentemente um idoso.
— Quando foi? Perguntou assustado.
— Ano passado.
— Pôxa, mas que pena! Meus pêsames!
— Obrigado.
— Ela morreu de quê, me permita perguntar?
— Ela já tinha câncer, mas a saúde dela piorou depois do lançamento do livro dela, quando o amigo que ela esperava tanto não apareceu.


O rapaz que ligou engoliu a saliva constrangido. Tinha percebido que o amigo furão era ele.  Ele perguntou para se certificar.
— Me desculpe, mas esse amigo que não pôde aparecer se chamava Rodrigo?
— A gente nunca esquece dessas coisas. É Rodrigo, sim!
— O senhor é o Zé?
— Sim, sou eu.  Quem queria falar com ela?
— Senhor Zé. Eu sou o Rodrigo. Quero te pedir perdão por eu não ter ido. Ela me ligou, meu celular estava fora de área e ela deixou recado. Mas não disse o número do seu telefone.
— E você não tinha o nosso telefone?
— Só o do Rio. Mas ela tinha falado que se mudou para Nova Friburgo, mas não me deu o número novo. A  Dona Conchita ligou pro meu pai, mas ele também não anotou.
— Olha, Rodrigo. Eu não quero te deixar mais culpado. Esquece isso. Se você tinha que pedir desculpas era à Conchita. Mas agora é tarde demais. Ela já está morta. Eu te perdoo para aliviar a sua consciência.
— É que eu fiquei realmente muito culpado por ela ter morrido com mágoa de mim. Disse, Rodrigo.
— Se você me permite uma indagação: por que só tentou procurá-la agora, dois anos depois do lançamento do livro?  
— Vou confessar que no dia do lançamento eu estava viajando. Eu ia ligar para ela para desejar boa sorte e avisar que não ia mesmo. Mas aí tive uns problemas pessoais e acabei me esquecendo de ligar. Depois fiquei com vergonha e medo dela ter morrido, o que acabou se confirmando.  Hoje eu sonhei com ela e resolvi procurar.
— Você teve sorte e azar ao mesmo tempo, meu rapaz. Arriscou ligar para o apartamento do Rio, para onde eu voltei e estou morando com o meu filho, mas teve o azar de saber que ela morreu. Bem, como eu disse, está perdoado. Mas mantenha contato, rapaz.
– Pode deixar, meu senhor.

Mesmo sem levar fé na promessa do amigo de sua falecida esposa, Seu Zé continuou na linha e perguntou sobre a carreira de escritor de Rodrigo, que ainda está tentando republicar o seu segundo livro, boicotado pela editora original.

O ancião disse que estava escrevendo um livro também, sobre a vida de sua falecida esposa, já que o livro dela era sobre ele. Convidou o novo jovem amigo para o lançamento. Rodrigo, mais uma vez, se esqueceu de ir e avisar. Mais dois anos depois, ele resolveu ligar e descobriu que Seu Zé também tinha falecido. 

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