terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Fuga(z)


(D)escrever é uma maldição.

Tenho uma péssima memória. Lembro de tudo detalhadamente. Lembro da minha última ida ao centro da cidade. Lembro do cheiro de misto quente, milho verde, do vestido da idosa que caminhava lentamente à minha frente. Lembro da menininha gordinha com suas perninhas (sim, no diminutivo pra fixar) tortas e a dificuldade em andar ao lado da mãe, que parecia arrastá-la. O vestido branco e rosa e as maria-chiquinhas no cabelo sacolejando pelos passos e tocando suas grandes bochechas. Lembro dos sorrisos e dos olhares indiferentes. Eu lembro.


E quando a minha memória se une à descrição que eu faço das coisas, minha mente vira um inferno. Eu sempre detalho as lembranças. Eu mesmo crio lembranças das quais nunca participei. Imagino tudo como se eu estivesse presente, cada pormenor, cada peculiaridade. Há quem diga que isso é bom. Que é uma benção. Pra mim é um tormento. E não sei qual tormento é maior. Se lembrar com detalhes das coisas que me aconteceram ou das coisas que não aconteceram, mas lembro como realidade. E eu sinto a angústia. Sinto a textura, o cheiro, o gosto. Sinto as cores me doerem os olhos, os impactos do som e do vento. E sou tomado pelo sentimento da lembrança. Seja ódio, amor, risada ou choro. Essas lembranças inexistentes ou não, como fios laminados, me agarram e apertam até me sangrarem. Colocam um nó na minha garganta. Uma farpa atravessando a carne.

E nem adianta sacudir a cabeça, como se com isso os pensamentos resvalassem. Eles voltam, pois nada é pesado o suficiente para cobri-los e esconder de mim. Tento esquecer, mas a memória deles parece ser pior que a minha, pois jamais conseguem me esquecer. Palavras, frases que vem de diferentes lábios e que perpassam minha carne, como lâmina lenta, causando dores na alma. Essas mesmas palavras que me fazem imaginar com bastante descrição seus resultados em mim.  A fuga, inevitavelmente,  é (d)escrever. É fixar no papel as palavras, como cadáveres. Silentes, quietas, inertes. Até outra pessoa vir e ler. Ressuscitá-las e, como zumbis, atormentarem outra pessoa. E assim perceber que não adianta tentar matar as palavras. Sempre haverá outro pra trazê-las de volta à vida.

Aqui está. Mas uma vez tentei, inutilmente, enterrar minhas palavras, carregadas das lembranças que me atormentam, no cemitério das páginas. Aí vem você, leitor, ler e trazer cada uma delas de volta à vida. E nenhum de nós pode se culpar. Acredito que nós mesmos também somos palavras. Somos cadáveres solitários que caminham nas linhas desse mundo até sermos ressuscitados por alguém que nos possa ler.


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