sábado, 26 de novembro de 2011

Por Gustavo do Carmo


Dia desses estava na sala de espera para fazer um exame de função respiratória e peguei uma revista Quem para ler. A publicação de celebridades tinha uma matéria sobre a briga da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Lendo os detalhes da discussão, li que o Zezé disse para o irmão, que ameaçava se separar:  

- Faça o que você quiser! 

Imediatamente lembrei da discussão que tive com uma ex-colega de pós-graduação, quando ela fazia corpo mole para fazer os trabalhos em grupo comigo. Eu me cansei e disse que ia fazer sozinho. D., vamos chamá-la assim, disse: 

- Faça o que você quiser!

Expressão de gente que tira o corpo fora. Antes, eu já tinha reclamado quando D., que já fazia corpo mole junto com outro ex-colega, B. para realizar um trabalho anterior, combinou com um terceiro ex-colega (N.) sobre o trabalho que eu queria fazer. Detalhe: depois que eu saí cedo de um dia de faculdade. Enquanto eu estava na aula, D. se dizia indecisa. Ou seja: ela não queria era fazer comigo. 

Assim, eu reclamei com D., ameacei sair do grupo e fazer sozinho. Ela disse: 

- Faça o que você quiser.  

Como era esse corpo mole? D. sempre dava um jeito de adiar e até nem combinar o que fazer nos grupos dos trabalhos. Logo D., que dizia que éramos um grupo. Acho que quis dizer que o grupo era ela e B., que estou cismado que estão tendo um relacionamento amoroso. 

Bem, quando eu dizia "Vamos fazer o trabalho?", D. gaguejava e prometia combinar durante a quinzena de folga. Nesse período, eu mandava e-mails organizando o grupo e ninguém respondia. Na aula seguinte, D. faltava. Na outra, o rapaz "namorado" dela. Na terceira, D. de novo. Na quarta, ela chegou atrasada. 

Foi nesta quarta aula que eu saí cedo e D. combinou o grupo pelas minhas costas. Eu não ia assistir à aula do professor A. porque estava envergonhado com a bronca que ele tinha me dado na quinzena anterior. Somente na sexta-feira seguinte que D. mandou um e-mail coletivo falando do trabalho e materiais que tinham combinado pelas minhas costas. Me senti traído. 

Reclamei, mas, como sou uma pessoa insegura, fiquei com medo de ser desprezado na faculdade por eles. Acabei pedindo desculpas. Grande erro. 

Fiz o trabalho sozinho. Tanto eu quanto eles o entregamos para dois professores. Me saí melhor do que eles. Eu acho. 

Veio o meu aniversário. Ninguém me deu parabéns. Estava esperando isso para fazer uma limpa no meu facebook. Esperei até a manhã do dia seguinte. Nada. Somente à noite que D. me desejou feliz aniversário. Ainda assim, porque eu tinha perguntado se ela ia fazer o trabalho da professora G. comigo ou não. Ela disse a famosa frase. 

- Faça o que você quiser. 

Respondi dizendo que eu cansei de fazer com eles. D. repetiu a frase. 

No sábado da aula da professora G., D. me vem com uma camisa de malha de presente. Só que o presente não foi pelo meu aniversário. Ela deu também para o "namorado" B.. Minutos depois, quando G. perguntou como seria o grupo, D. disse que eu ia fazer sozinho porque eu queria produzir um programa cultural (era o trabalho prático final) e ela disse que odiava falar de cultura, com direto a tom de nojo. Me deu uma raiva! 

Fui educado e tentei me juntar a D. e B.. Mas como não entendo nada de política, tema sobre o qual D. queria produzir, me senti deslocado. Me senti num grupo falando sânscrito. Resolvi rascunhar sozinho um espelho de um programa cultural. Só que G. exigiu uma pauta mais completa. 

Ora! Como vou fazer um trabalho de produção, sem a garantia de equipamentos da desorganizada faculdade e sem saber como solicitar sozinho? Na aula da tarde, uma prática de apresentação em TV, outra professora, L., mandou formar um grupo para relembrar o 11 de setembro. 

D. mais uma vez não confiou em mim. E fez com uma outra moça, T.. Eu fiquei com B. e mais um outro rapaz, U., que ficou inseguro e não conseguiu fazer o papel de repórter que entrevistaria um dos sobreviventes dos atentados ao World Trade Center, interpretado pelo "namoradão" de D.. Eu fui o apresentador do telejornal. Acabei gaguejando. E cuspindo. A professora L. me criticou bastante e me botou lá em baixo. Disse até que a minha dicção era péssima. Ela tinha razão. Ah, se eu tivesse aproveitado a oportunidade de mandar tudo pro espaço e a turma para a merda! E jogar a camisa na cara de D. Semanas depois, dei a camisa para um jornaleiro de confiança em Copacabana. 

Somente na terça-feira depois desta aula, D. me manda um e-mail me pedindo o endereço eletrônico da professora L. Desabafei. Ou melhor, explodi. Sem xingamentos, acusei-a de ter me barrado do grupo da matéria da manhã e que ia largar o curso. D. respondeu que eu dissera com todas as letras que não ia levar ninguém para a vida, inclusive ela, que tinha lido um post no meu Twitter, que ela dizia que nem usava. Mentirosa! Então falou a célebre frase: 

- Faça o que você quiser. 

Mais uma vez errei e pedi desculpas. Insegurança, burrice e infantilidade minha. Em vez de dizer que aceitava as minhas desculpas, D. respondeu com um frio e-mail, quase anunciando o namoro com B., falando mil maravilhas dele. Foi mais calorosa pra isso. Sobre eu anunciar que ia sair definitivamente da pós-graduação, mesmo faltando apenas uma matéria, o que eu fiz mesmo, D. disse pela última vez: 

- Faça o que você quiser. E tirou o corpo fora para sempre. Nunca mais falou comigo.
0

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

0

sábado, 19 de novembro de 2011

Por Gustavo do Carmo




Bonde
Pegou o bonde andando. Levou um grande tombo. Só não passou vexame porque estava vazio. 


Ponto
Dormiu no ponto. Perdeu o ônibus.


Ônibus
Sua Inspiração foi embora no ônibus da noite. Era o nome de sua primeira namorada que lhe abandonou. 


A pé
Estava indo a pé do Rio a Salvador quando soube que sua amada iria se casar com outro. Na altura de Saquarema pegou um ônibus para continuar a viagem. Não precisava provar mais nada. 


Trem
Seu Seguro não morreu de velho. Foi atropelado por um trem aos 40 anos. 


Trem 2
Morava no Maracanã, mas nem se importou com a sua mãe. Ignorou o trem das onze para ficar com a sua amada e só voltará para casa amanhã de manhã. 


Táxi
Ficou pra lá de Marrakech. O motorista de táxi marroquino, que levava o turista brasileiro, errou o caminho. 


Avião
Queria muito esticar as pernas naquele avião. Acabou esticando as canelas. 


Maionese
Viajou na maionese. O avião fretado pela Hellmann’s era a única forma do imigrante ilegal chegar a outro país sem ser percebido. 


Acaso
Andava distraído no trânsito, mas não foi protegido pelo acaso e, sim, pelos freios ABS do carro que quase o atropelou. 
0

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Por dudu oliva



***
Crônica sobre o livro: http://cronicas-ideias.blogspot.com/2011/11/espelhos.html

0

sábado, 12 de novembro de 2011

Conto de Gustavo do Carmo



O jornal do fim de noite de um famoso canal de televisão exibia uma matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

Um dos entrevistados, freqüentador de um supermercado que funcionava durante 24 horas, era Dionísio, um jovem rapaz, na faixa dos vinte e cinco anos. Ele disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. No final da matéria voltou para acrescentar que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo.

De fato, Dionísio só tinha tempo para resolver os seus problemas de madrugada. Mas não trabalhava exatamente o dia inteiro. Jornalista formado, fazia clipagem, ou seja, buscava o que saía na imprensa sobre o cliente da produtora e criava um álbum com as matérias publicadas. Seu turno era das quatro às dez da manhã. Deixava o escritório na Tijuca, andava uns dez minutos e pegava o ônibus. Chegava ao apartamento, em Copacabana, em pouco menos de uma hora, dependendo do trânsito. Por volta do meio-dia ia almoçar (ou jantar) e, depois, finalmente dormia. Acordava às oito da noite. Fazia o seu desjejum enquanto muita gente jantava. Começava o seu dia quando os vizinhos chegavam do trabalho, exaustos, o que era percebido pelo movimento de entrada na garagem do prédio.

Fazia os trabalhos que levava para casa. Duas horas depois saía à rua. Passava no caixa eletrônico do banco e em seguida no jornaleiro, onde comprava as primeiras edições dos cinco principais informativos e também das duas publicações esportivas. Era mais pelo trabalho, ao qual se dedicava muito, do que para o lazer. Após algumas voltas no calçadão da praia, entrava na loja de conveniência e fazia um lanche que servia de almoço para não mexer na cozinha de madrugada e acordar os vizinhos do apartamento em frente. Finalmente ia ao supermercado e fazia as compras da semana.

Não eram todos os dias que Dionísio visitava o supermercado. Somente às quintas-feiras. As segundas eram reservadas para a academia, as terças para o dentista ou o tratamento de pele, na quarta tinha novamente a academia e às sextas ele ficava em casa por causa do movimento noturno no bairro. No sábado à noite, viajava para Conceição de Macabu, onde nasceu, foi criado e ainda mora os pais. Voltava para o Rio segunda-feira de manhã.

Acostumado com a rotina na capital, dormia o dia inteiro e só acordava à noite na cidade pequena, onde tudo fechava cedo. Os bares e restaurantes funcionavam até, no máximo, às duas horas da manhã. Dionísio não gostava de beber e os restaurantes eram muito fracos. Ficava perambulando pela casa durante cerca de quinze horas. Angustiava-se. Morria de saudades dos pais, mas não via a hora de voltar ao apartamento alugado no Rio de Janeiro, ao seu trabalho de clipping e às atividades comerciais da madrugada.

Dionísio achou o emprego na internet. Tinha o sonho de morar e fazer sua vida no Rio, mas precisava trabalhar. Chamado para a entrevista, passou e foi aprovado. Fizeram uma festa em casa. No entanto, os pais ficaram tristes porque o filho precisou se mudar e eles não podiam ir. A mãe, costureira, tinha os seus clientes e o pai tinha um bazar que não podia ficar abandonado. Ainda assim, seria bom para Dionísio morar sozinho e ganhar experiência de vida. O pai ainda ajudou o filho a alugar um apartamento de dois quartos na Tijuca, perto do trabalho. 

Na empresa, o primeiro material que reuniu foi muito elogiado por um cliente, ex-participante de reality-show. Depois outra aprovação de uma petrolífera multinacional. A mesma opinião teve uma ONG de educação. Dionísio passou a ser mais procurado. Com isso, a sua responsabilidade aumentou. Pediu e ganhou um aumento. Com ele, depois de alguns meses, entregou o apartamento na Tijuca e alugou outro na Rua Constante Ramos, em Copacabana, também de dois quartos, realizando outro antigo sonho: morar perto da praia.  

Nos primeiros dias de trabalho, Dionísio tentou manter uma vida normal. Mas chegava em casa tão cansado que acabava dormindo e só acordando às oito da noite. Aí notou que precisava fazer o trabalho que trouxera e se viu sem tempo para sair na rua e fazer atividades básicas como ir ao supermercado, à banca de jornal, ao dentista, além de aproveitar a cidade do Rio de Janeiro.

Um dia, viu no jornal da televisão uma primeira matéria sobre os serviços dia e noite. Se interessou tanto que decidiu procurá-los. Começou freqüentando uma loja de conveniência, ainda na Tijuca. Depois procurou um dentista. Marcou a primeira consulta para uma da manhã. Já na terceira, o profissional desistiu porque foi assaltado ao voltar pra casa e parou de trabalhar de madrugada. Dionísio teve que procurar outro para o seu horário incomum. Só achou em Copacabana. Quando o supermercado que freqüentava na zona norte também deixou de atender à noite, Dionísio decidiu se mudar. Já estava viciado em resolver seus problemas urbanos de madrugada. Tanto que recusou a oferta da dona da empresa de transferir o seu expediente para o horário comercial.

Um dia ele foi dispensado. Não soube se foi por corte no pessoal ou a diretora percebeu alguma coisa errada nele. Apesar de dedicado, Dionísio teria deixado de incluir uma matéria importante sobre um cliente. Uns disseram que Dionísio já começara a trabalhar demais. Estaria tão ansioso para aproveitar as atividades noturnas do comércio que já não dormia mais. Uma moça teria visto seus olhos vermelhos e logo achou que era por causa de drogas. Um colega o encontrou em uma drogaria de plantão, às três da madrugada, na Tijuca, perto do escritório. Houve várias versões sobre a demissão de Dionísio. O fato é que o rapaz não se importou. Nem quis voltar para Macabu. Preferiu continuar em Copacabana, mesmo.

Por três meses cumpriu o ritual ao qual estava acostumado a fazer. Aparentemente estava tudo normal. Era como se Dionísio ainda trabalhasse na produtora de clipping. A partir do quarto mês, o pai não quis mais pagar o aluguel. Era uma forma de pressioná-lo a voltar para o interior. Depois de alguma resistência, acabou cedendo. Entregou o apartamento no Rio de Janeiro e voltou para a cidade natal.

Tentou manter a mesma rotina de quando era clipista na Tijuca. Queria comprar os sete jornais, as duas revistas, ir à academia, ao supermercado, ao dentista e à esteticista. Não conseguiu porque tudo isso só funcionava durante o dia, sob a luz do sol, que Dionísio já rejeitava. Parecia um vampiro que temia virar pó com a claridade. Já andava de óculos escuros pela casa fechada com cortinas, assustando os pais e as freguesas da mãe. Ficava o dia inteiro sem dormir e só saía na rua à noite, na cidade já deserta. Vivia na farmácia de plantão, comprando estimulantes sem necessidade, virando assunto na cidade, envergonhando os pais.

O pai perdeu a paciência e tentou impor um limite. Ou Dionísio voltava a trabalhar ou seria expulso de casa porque não ia sustentar vagabundo. Logo se apiedou e ofereceu o bazar para ele trabalhar. Dionísio não tinha vergonha da fonte de sustento da família, mas quando adolescente só queria trabalhar como jornalista. Agora, já maduro, até aceitou ajudar o pai. Desde que trabalhasse de madrugada.

Como um empresário visionário, propôs que o bazar funcionasse 24 horas e ele tomaria conta. Seu Osmar, pai de Dionísio, recusou imediatamente. Disse que não ia dar lucro e que era perigoso, pois a farmácia já fora assaltada. Dionísio, então, pediu à mãe que lhe ensinasse a costurar (algo que ele odiava quando criança) e propôs adiantar as encomendas enquanto ela dormia. Dona Maria Lúcia estranhou, mas acabou aceitando.

Dionísio costurou por algumas semanas. Estava indo bem. Ganhava até elogios das freguesas da mãe. Eis que o pai voltou a procurá-lo para dizer que lhe tinha arranjado um emprego de vigia noturno. O rapaz aceitou na hora, antes de Seu Osmar perguntar se ele tinha certeza, pois era um emprego perigoso.

 E lá foi Dionísio trabalhar como vigia da farmácia. Ganhou até uma arma, sem bala, pois servia apenas para assustar os ladrões. O turno de Dionísio era de meia-noite às seis da manhã. A farmácia ficava ao lado da sua casa.  

Quando chegava, tomava banho antes do café da manhã que preparava para ele e a mãe. Já de óculos escuros, assistia à televisão e ajudava a mãe a fazer o almoço e também a costurar. Às quatro da tarde começava a fazer seu clipping... imaginário.

Não comprava os sete jornais faz tempo. Inventava tudo. Os pais começaram a ficar preocupados. Principalmente quando Dionísio começou a atender telefonemas inexistentes de clientes virtuais. Não os da internet, que ele tentava conseguir realmente, mas não tinha sucesso. Eram clientes criados por ele mesmo. Já começava a falar sozinho, organizando reuniões fantasiosas.

Uma noite, o dono da farmácia foi procurar o pai de Dionísio em sua casa. Ele não havia comparecido ao trabalho. Os pais e o patrão, amigo da família, o procuraram pela casa toda. Dona Maria Lúcia começou a se desesperar. Ainda mais quando o pai achou um bilhete curto e seco deixado pelo filho: “Fui para o Rio de Janeiro.” A primeira coisa que Seu Osmar fez foi procurar o revólver do dono da farmácia. Não estava lá. A sua pistola particular também não.

Dionísio chegou a Copacabana por volta das dez da noite. Entrou no supermercado que freqüentava quando morava no Rio. Ouviu pelo alto-falante o locutor anunciar que o estabelecimento estava encerrando as atividades do dia. O ex-clipista estranhou.

Perguntou a um segurança porque eles estavam fechando se o supermercado funcionava 24 horas por dia. O vigilante, um moreno forte e alto, disse que eles pararam de atender dia e noite depois de um assalto que sofreram. Dionísio se indignou. Sacou as duas armas que trouxe do interior e o rendeu.

Mesmo em desvantagem física, Dionísio obrigou o segurança a fechar as portas do supermercado e manteve todos os funcionários e fregueses como reféns. Gritando muito, completamente alterado, exigiu a presença de repórteres da mais famosa emissora de televisão. Ameaçou explodir o supermercado se alguém chamasse a polícia antes dele terminar o seu plano. Alguns fregueses cochichavam que Dionísio estava drogado, por causa dos seus olhos vermelhos. Mas ele não estava. Nem tinha tomado o estimulante. O que o entorpecia era a loucura mesmo.     

Duas horas depois apareceu a equipe da imprensa. Uma repórter morena e bonita, de terninho amarelo, acompanhada do cinegrafista, um homem forte e moreno como o segurança rendido por Dionísio. Este autorizou a entrada apenas dos dois jornalistas e impôs as condições para liberar os fregueses e os funcionários do supermercado: produzir uma matéria sobre os serviços 24 horas na cidade do Rio de Janeiro. Assustados, os repórteres concordaram imediatamente. E começaram a entrevistar os freqüentadores, deveriam mostrar que estava tudo bem. Que era apenas uma pauta de rotina.

Dionísio atuou como o produtor da matéria desejada. Selecionou algumas pessoas. Escolheu um casal, um homem de cabelos grisalhos, o gerente e uma das caixas do supermercado para serem entrevistados. Ele mesmo também fez parte da matéria. Exigiu uma maquiagem para disfarçar os olhos vermelhos.

Dionísio disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. Depois de uma pausa na gravação, acrescentou que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo. Recomendou que este depoimento encerraria a matéria.

Satisfeito, Dionísio libertou os funcionários e os freqüentadores do supermercado. Todos estavam livres após quatro horas de tensão. Com exceção dos dois jornalistas, que continuaram com as duas pistolas apontadas por Dionísio. O clipista exigiu continuar a matéria na academia e, depois, nos consultórios noturnos do dentista e da esteticista. 

Não deu tempo. No caminho para o carro da reportagem, Dionísio vacilou ao espirrar. Foi dominado pelo cinegrafista e surpreendido pela polícia, que o prendeu e o levou para a casa de custódia, sob a acusação de seqüestro, porte ilegal de armas e perturbação da ordem pública.

Condenado, foi cumprir a pena no manicômio judiciário. Lá, assistiu ao telejornal do fim de noite com a matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

 Dionísio era a estrela principal. Depois, começou a fazer o seu próprio clipping com as matérias verdadeiras sobre o seqüestro no supermercado publicadas na imprensa.


0

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

0

quinta-feira, 10 de novembro de 2011




João Paulo Mesquita Simões




As máquinas automáticas dos CTT que encontramos aí pelas ruas das nossas cidades e nos próprios Correios, vendem-nos selos autocolantes.

Aos balcões dos CTT, também nos são vendidos este tipo de selos.

Como tratá-los nas nossas colecções?

Dos poucos estudos feitos e daquilo que também já li, podem ser descolados como o tradicional selo - em água. Simplesmente a água não remove a cola que este selo trás no verso.

Uma das soluções apontadas por pessoas que já a utilizaram, é passar com benzina ou acetona, para remover por completo a cola existente no selo.

Estes produtos são abrasivos e, se não tivermos cuidado, poderão afectar o carimbo do selo danificando-o.

Até que se se chegue a novas conclusões, o melhor é recortarmos com muito jeito o papel em volta do selo e guardá-lo nas nossas colecções com a área do papel do envelope que lhe ficou colada. Mas atenção! Também não é o melhor processo, pois a conservação do selo estará em risco devido aos efeitos da cola.

Como sabemos, esta vai-se deteriorando com o passar do tempo, e esse processo pode estragar o selo. Mas até lá, é o melhor processo até se descobrir como descolar realmente um selo auto adesivo.

A imagem do selo acima, é da colecção Festas Tradicionais Portuguesas de 2011, com o valor de 0,32 cêntimos, ou seja, correio até vinte gramas.
0

sábado, 5 de novembro de 2011

Gustavo do Carmo



“Você ainda é muito verde para a função.” Amarildo sempre ouvia isso. Desde procurar emprego até conquistar mulheres. O problema é que Amarildo já tinha 35 anos. Idade mais do que madura. Mas estava sempre verde. Sempre amarelava nas horas mais importantes.

Cursou jornalismo. Não fez estágio porque seu currículo ainda era muito verde para ter chances de uma vaga. No final do curso, estava verde porque não tinha experiência. Formou-se verde e branco. Branco de virgem no mercado e também no sexo.

Exigente, paquerava as mulheres mais bonitas que conhecia. Ainda era muito verde para conquistá-las. Uma vez, quase conseguiu. Marcou encontro com uma amiga. Mas amarelou quando descobriu que ela tinha um filho pequeno.

Fez cursos de informática, jornalismo online e assessoria de imprensa. Amadureceu (somente um pouco) o seu currículo. Mesmo assim, ainda foi considerado verde para entrar no mercado de trabalho.

Brasileiro nacionalista, Amarildo se recusava a aprender outras línguas e não retomou o curso de inglês que tinha largado aos quinze anos. Por isso, seu inglês ainda era verde.

Desde os vinte anos, Amarildo tentou ocupar o seu lugar no mercado de trabalho. Aos vinte e três, já com os certificados dos cursos que fez, tentou mais uma vez. Não conseguiu. Ainda estava verde para a função.

Chegou a fazer um teste de vídeo. Além de desarrumado, gaguejou e falou com a língua presa. Sua voz também era horrível. Fez nova faculdade (agora de publicidade) e batalhou para conseguir estágio. Continuava verde.  

Tentou ser vendedor de carros, sua paixão. Verde. Atendente de telemarketing. Verde. Plantonista de clipagem. Verde também. Tentou ser escritor. Mandou originais de um romance para várias editoras. Todas recusaram. O aspirante a escritor ainda tinha um texto muito verde.

Amarildo amarelava nas poucas entrevistas de estágio em que era chamado. Amarelou em uma oferta de estágio porque estava viajando. Amarelou até na avaliação de desempenho do Banco do Brasil. Ele tinha sido aprovado no concurso público que seu pai lhe obrigara a fazer. Mas amarelou no período de experiência. Resolveu pagar para publicar o seu primeiro livro. Ainda muito verde. Amarelou na hora de divulgar.

Tentou tirar carteira de motorista. Fez todas as aulas obrigatórias. Passou na prova escrita com louvor. Também se saiu bem no exame psicotécnico. Na hora da prática, ainda se sentia verde para fazer o exame final de direção. No dia da prova, quando achou que estava maduro, amarelou.

E por que Amarildo chegou aos 35 anos verde e amarelando sempre? Deprimido com tantas amareladas e de ser considerado verde, ele procurou um psicólogo. Descobriu que tinha transtorno de ansiedade e déficit de atenção. Além de uma grande resistência em amarelar. Amarelar no sentido de amadurecer.

Um dia, Amarildo amanheceu verde de enjoo. Foi ao médico e descobriu que os seus olhos estavam amarelos. A pele, com manchas azuladas. Meses depois, morreu de hepatite. Branco de virgem e de medo. Ficou cinza. Apodreceu em vez de amadurecer. 

0

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

0

Arquivo do blog