sábado, 9 de abril de 2011

QUERO VOLTAR


Gustavo do Carmo

Viu seu sangue jorrar do pescoço como um chafariz de praça. Seu corpo agonizava como uma barata envenenada pelo inseticida. Salviano contorcia-se desesperado. Sentiu pena de si mesmo e se contorceu junto com ele.

Correu para o próprio corpo como se quisesse assistir um irmão gêmeo atropelado. Foi contido pela mão macia e branca de uma bela mulher de vestido tomara-que-caia branco – quase revelando os seus seios fartos e naturais - olhos verdes, cabelos compridos lisos e negros, que lhe diz asperamente:

— Não! Pra lá você não volta!

— Mas eu preciso voltar!

— Agora você quer voltar? Na hora de fazer o que fez você não pensou nisso.

— Mas eu me arrependi.

— Agora é tarde. Vai ter que aceitar o que fez e vir comigo.

— Mas por que eu não posso voltar?

— Porque quando alguém nos chama, temos que vir buscar e não podemos retornar sozinhos.

— Mas por quê? O ser humano não tem o direito de se arrepender?

— Em primeiro lugar, há uma despesa muito grande quando somos chamados fora da hora. Deixamos de atender os enfermos, os idosos e aquelas pessoas que nos chamam através da extrema-unção para cuidar de casos como o seu. Em nosso estatuto, quem nos chama não pode mudar de idéia. Somente quando ocorre algum ferimento acidental. Então analisamos a gravidade do caso e a missão do acidentado.

— Ora, não me venha com essa filosofia de conglomerado empresarial. Eu me arrependi do que fiz. Ainda assim o meu caso foi um acidente.

— Foi acidente sim. Responde a bela mulher, com sarcasmo. Você esperou a sua família sair de casa, se trancou no quarto e escreveu um bilhete de despedida. Tudo premeditado para evitar que alguém descubra e te socorra a tempo. E ainda vem dizer que está arrependido?

— Não importa se eu premeditei ou não! Quero voltar para o meu corpo antes que não dê mais tempo.

— É exatamente pra isso que eu estou te enrolando.

— Que besteira é essa? Está gozando da minha cara?

— Você é quem está, querido.

— Escute: eu não vou com você de jeito nenhum!!!! Não vou!!!! Entendeu? Eu tenho que voltar para o meu corpo! Eu não posso deixar os meus pais e os meus irmãos. Eles vão sofrer.

— Pensasse neles antes de fazer o que fez! Por que nos chamou então?

— Eu não chamei ninguém.

— Sem saber chamou, sim. E também quis chamar a atenção deles. E realmente conseguiu.

— Está certa. Eu consegui. Mas agora eu me arrependi e quero voltar. Dei só um cortezinho no pescoço. Dá pra me recuperar se você me deixar. Quero voltar para o meu corpo e gritar por socorro.

— Impossível, meu querido. Você rompeu a jugular. Do jeito que espalhou sangue não teria como voltar, mesmo se eu deixasse. Ficaria agonizando por dias no hospital e não escaparia. Olhe para este espelho.

Salviano fica horrorizado com o tamanho do seu corte. O seu quarto já era uma piscina rasa de sangue. Chora ainda mais arrependido.

— E se eu não for com você?

— Vai ficar vagando como um zumbi, sem corpo e sem poder influenciar ninguém na terra, pois você não vai ouvir nada. Só vai enxergar vultos em um ambiente sombrio, sujo, fedido e úmido.

— E se eu for?

— Terá uma eternidade de paz, luz, felicidade e ainda poderá voltar para a terra de vez em quando para pedir perdão aos seus pais.

— Só isso?

— O que você quer mais? Não está satisfeito em apenas ir para um mundo de paz apesar do que fez?

— E o que eu fiz foi errado?

— Claro que foi. Tirar a vida sem a vontade de Deus é condenável.

— Não acho. Para mim é um ato de coragem e dignidade. Não é a toa que no Japão essa atitude é bem vista.

— Estamos no Brasil. Cada país tem a sua cultura. Mas, infelizmente, são as regras. E o seu erro não foi apenas o seu suicídio e sim o seu arrependimento tardio depois que eu tive que vir, às pressas, para te buscar.

— Afinal, quem é você? A Morte?

— Diria que sou uma representante divina. Olha, o seu tempo já acabou. Você não pode mais voltar porque já está morto. Daqui a pouco a polícia vai chegar para arrombar a porta e encontrar o seu corpo. Eles já foram acionados porque você se esqueceu que tem vizinhos morando em baixo. Foram eles quem denunciaram porque o seu sangue vazou para o apartamento deles. Seus pais também vão entrar desesperados. E então? Vem comigo ou não? Já sabe o que vai te acontecer se você não vier.

— Eu posso te pedir uma coisa? Eu sei que não mereço.

— Tudo bem, mas você vem.

— Vou. Fazer o quê, né? Não pude me arrepender do que fiz. Responde Salviano, resignado, enxugando as lágrimas. Achei você tão bonita, posso ficar com você na eternidade?

Depois de alguns segundos de hesitação, a bela mulher respondeu:

— Está bem. Você vai viver a sua eternidade ao meu lado e nunca vou me separar de você.

A representante divina transformou-se em uma velha decrépita e gorda com quem Salviano foi obrigado a viver eternamente para aprender a nunca mais cair em tentação.


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