domingo, 24 de abril de 2011

O OVO DE CHOCOLATE


Por Gustavo do Carmo


Revisão: Orlando Castor



O comercial de televisão anunciava um ovo de chocolate com trufas, castanha de caju, coco e marshmallow. Era de uma marca de chocolates finos. E caros. Fui à sua loja ver o preço. Custava 120 reais.


Decidi comprá-lo para presentear alguém na data. Queria conquistar uma garota de quem eu gostava na faculdade. Paguei no cartão de débito. Para a minha condição financeira médio-pobre, foi como fazer uma extravagância. O ovo vinha numa caixa média que eu mandei embrulhar para presente.


Esperei ansiosamente pela quarta-feira da Semana Santa para lhe dar o ovo. Ela faltou. Levei o chocolate ainda sem dona para casa. Guardei-o um pouco na geladeira e depois na prateleira do meu quarto.


Esperei ainda mais ansioso pela segunda-feira pós-Páscoa. O que seria um caro e agradável presente antes da Páscoa virou um caro e atrasado presente depois. Chegou, pela segunda vez, o grande dia. Ela foi.


Coração disparado. Ia ao seu encontro no pátio da faculdade, mas ela começou a conversar com amigas. Prefiro entregar o presente para ela sozinha. O que só consegui na sexta-feira. Na terça ela faltou, na quarta fui eu e na quinta ela não desgrudou das amigas de novo.


Procuro-a como um louco que persegue mulheres. Fiquei até com medo de realmente ser confundido com um. Mas Fulana é uma moça gentil e educada. Quando a abordei na porta do banheiro feminino, que fica num corredor deserto e escuro, e lhe ofereci o ovo de 120 reais ela respondeu, até sorrindo com a reclamação que fez:


— Obrigada. Mas já estou cheia de ovo de Páscoa lá em casa. Estou precisando emagrecer e ainda me enchem de ovo. Meu namorado me deu um de 20 quilos, imagina!


— Imagino. Mas você é magra. Se ficar mais magra do que já é vai ficar com anorexia.


— Que nada. Olha o meu culote. Estou me sentindo gorda. Mas obrigada pelo carinho.


— Ah, mas pode ficar com ele. Dá de presente pra alguém.


— Não precisa. Lá em casa já está todo mundo entupido de chocolate. Meu namorado é franqueado dessa loja mesmo. A gente tem vários lá em casa. Um beijo.


Não quis insistir mais para não aborrecê-la. Ela voltou para o grupo de amigas no pátio. Eu voltei para casa. Esse ovo de chocolate recheado de quatro sabores me custou 120 reais. E agora descubro que eu comprei do namorado dela. Não quis mais comê-lo. Muito menos levar o doce sem dono para casa.


Na rua, dei o ovo para um mendigo solitário. Que me agradeceu emocionado. Ia embora quando fui chamado e convidado para comer com ele, que não teve Páscoa. Eu tive a minha, com meus pais e minha irmã. Fiquei aliviado pelo meu ovo de chocolate de 120 reais ter servido para deixar alguém feliz.


Aos leitores, uma Feliz Páscoa!

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