terça-feira, 19 de outubro de 2010

Malditos! Maldito Calor. Maldito Frio. Maldita guerra. Maldito Brasil. Maldito Paraguai...




Sem uma gota de vento nesse amanhecer, Amanda campeava pela vereda estreita e barrenta no início de um destino impensado, e sentiu:
que lhe doíam as nádegas;
que as roupas ásperas roçavam parecendo lixa, os bicos dos seios tesos de frio;
que o vapor saindo das ventas do animal lhe avisava da bebida quente ainda não bebida. E de calor; que horas depois iria maldizer e abrasaria todos os espaços, incluindo as sombras.
Nesse momento, outra vez o frio fazia tiritar o corpo todo e os dentes dar mordidelas nos beiços fazendo-os parar de tremer. No entanto, a calma circundante lhe despertou a precaução aprendida. Esgueirando-se, depressa conduziu o animal ocultando-se no matagal mais próximo. Cuspindo insetos que lhe entraram na boca, enxotando com a mão nuvem de mosquitos os circundando, ambos ficaram quietos e ela pôs o ouvido à escuta; só por uns segundos, depressa os insetos começaram a atacar o focinho, as orelhas e a boca dela e do animal que mastigou o cabresto, resmungando e exalando nuvens de vapor pelas ventas. Com as mãos agarradas nas crinas do animal, qual numa homilia de angustia e temor, Amanda começou a falar miudinho na orelha do animal frases que a partir desse dia, pronunciaria como um segredo sempre que a circunstância lhe fosse adversa: "Malditos. Maldito Calor. Maldito Frio. Maldita guerra. Maldito Brasil. Maldito Paraguai. Maldito Alfonso. Maldito Chico. Maldita fome". Aparentando atenção ao sussurro, o bicho pareceu acalmar-se. Para seu alivio, porque depressa a espera e a cautela deram resultado: da esquina formada pela curva do caminho, o burburinho e os barulhos que teriam alarmado os bichos da mata se aproximavam, recomeçando a inquietar o cavalo. Amanda encostou mais a boca nas orelhas tesas do animal repetindo o zunzunzum da oração: "Malditos. Maldito Calor. Maldito Frio. Maldita guerra. Maldito Brasil. Maldito Paraguai. Maldito Alfonso. Malditos...".
Surgindo na curva do caminho, perto da enramada onde estava oculta, "Maldita guerra. Maldito Brasil. Maldito Paraguai", mostravam-se os donos das vozes: numerosas famílias de índios surgiram em lenta marcha, a maioria de crianças, velhos e mulheres, carregando todo tipo de bagagens.
Cogitou Amanda sobre a ausência dos mais jovens e fortes: estariam armados e vestidos de soldados, talvez alguns deles no seu encalço?
Resolveu conservar-se invisível à parentela de seus adversários que deviam ser muitos, e, no seu caso, dos dois lados!
- Cunhã?
A voz aguçada veio do chão. Apreensiva, Amanda procurou a origem. E a encontrou quase entre as patas do animal: curumim, de certo desviado do grupo vigiado, olhava-a curioso.
Acorda Amanda!
Amanda adivinhou que alguém em seguida viria em busca dele; com expressão hostil, lhe fez sinais para se afastar. Assustada, a criança saiu em disparada dando berros.
Lembra Amanda?
Tencionando escapar saíste galopando, e num ímpeto aquele índio robusto apareceu de algum lugar onde estivera na espreita, e pulando sobre a montaria te derrubou e no chão te agarrou e depois, sem se importar você espernear dando gritos de dor e de ódio, te arrastou pelos cabelos.
Lembra?
Não.
"Maldita guerra. Maldito Brasil. Maldito Paraguai"
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Extraido do romance "Sobre Moscas e Aranhas de Guerra"

Um comentário:

bernadete disse...

O ser humano apesar de (APARENTEMENTE) odiar as guerras está sempre às voltas com elas e com mazelas provocadas por elas. E é esse universo pobre, feio, miserável, sangrento, assustador que você soube explorar com maestria. Parabéns! Abraços serranos.

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