domingo, 30 de maio de 2010

Por Ed Santos


Misto de serra e mar, campo e praia, inigualável ar cidade grande com ares rurais, apesar
É daqui que tiro a vida, a vontade de viver, deste pedaço de terra que não fiz por merecer
Não um simples naco, mas um puta téco, frio como o ártico e quente como e deserto
Os meus estão todos lá, do poeta ao locutor todos pra mim são só um e esse, meu único amor
Lá fala-se dialetos, tupi-guarani, esperanto, as línguas que lambem minha vida estão todas no
meu canto
Canto que encanta sombrio com todas as luzes às vezes.
Morrer é meu desafio.
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

por dudu oliva



O que achei mais interessante no filme é a mudança de foco, ao invés do romance, tema batido nas comédias românticas, o roteiro narra a história de um homem que sempre se concentrou nas relações amorosas e com isso não criou laços de amizade. Ele não tem amigos e este fato virou um problema, quando estava prestes a se casar e não tinha ninguém para ser seu padrinho. Portanto, começa a sair com vários caras a fim encontrar um amigo-padrinho. A película tem todas as situações clássicas e bizarras de comédia, mas existe uma certa originalidade ao protagonizar a busca pela amizade, que é tão quanto importante que a busca pelo amor. 
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quinta-feira, 27 de maio de 2010

João Paulo Msquita Simões


Os selos Barba Branca constituiam a sétima série de peças filatélicas lançadas pelos correios do Brasil.

Ganharam este nome graças à estampa do imperador Dom Pedro II, que no ano de 1877, quando estes selos foram emitidos, já apresentava a barba branca, resultado dos problemas causados pela Guerra do Paraguai, segundo historiadores.

Em denteação percê (em linha), foram emitidos selos nos valores de 10 rs. (vermelho), 20 rs. (violeta), 50 rs. (azul), 80 rs. (carmim), 100 rs. (verde), 200 rsPaís de origem Brasil. (preto), 260 rs. (castanho), 300 rs. (ocre), 700 rs. (castanho) e 1000 rs. (cinza).


Local da produção: Governo Imperial
Data da produção: 1877
Grau de raridade: raro
Quantidade emitida: 72 milhões (todos os valores faciais somados)
Valor facial: 10, 20, 50, 80, 100, 200, 260, 300, 700 e 1000 Réis
Dentado Liso
Artista: American Bank Note (os créditos de criação não foram conferidos a um artista específico).


In: "http://pt.wikipedia.org/wiki/Selo_Barba_Branca"
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domingo, 23 de maio de 2010

Por Ed Santos



Aquele amor não existia na vida real, era fantasia. Os corpos não podiam se encontrar por menos de três horas. Sentiam uma terrível falta um do outro quando se iam. Os toques, os beijos e os cheiros iam tomando proporções maiores que seus desejos. Quando estavam juntos, no apartamento ou em qualquer lugar que seja, eles não pensavam. As mãos que tocavam seu corpo eram as mesmas que moldavam a argila mole e úmida que se transformara num cálice pela manhã. Estava confirmada a possessão. Não havia nada de leve no clima. O ambiente era carregado, porém envolvente. Eles não pensavam. Entendiam que o amor era algo simples, que apenas fazia parte do dia, como o nascer do sol que não tem surpresas nem motivos. Apenas está lá. Então, num desses capítulos especiais da vida, em que tudo acontece, eles sentiram necessidade da distância. Da solidão entre si. E submeteram-se a um período de separação. Foram infindáveis duas horas sem se falar, mas ao primeiro toque do celular, as lamentações deram lugar ao coito. Como resistir? A pele suada exalava paixão e o sangue escorrendo dos ouvidos diagnosticava o derrame. Foi penosa a separação. Ele não resistiu. Ela, na lembrança dos momentos que viveram, mostrara-se feliz e tivera tempo de sorrir antes de apertar o gatilho.
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sábado, 22 de maio de 2010

Por Gustavo do Carmo



Desde a barriga da sua mãe, Redson já era um redundante. Além dos redundantes chutes na barriga, dava redundantes alarmes falsos antes do parto. Redundantemente fez seus pais saírem correndo para a maternidade sem de fato nascer. Desde os sete meses de gestação ele fazia seus pais correrem para a maternidade.

Nasceu finalmente no dia 11 de novembro de 1988, com os naturais nove meses de gestação, na décima-primeira contração do dia em que finalmente sua mãe foi ao hospital para fazer o parto. Sua mãe foi internada à meia-noite do dia 11 de novembro de 1988, mas ele só nasceu às onze e cinqüenta e cinco do mesmo dia 11 de novembro de 1988, chorando redundantemente.

Nasceu em Volta Redonda. Numa maternidade de Volta Redonda. Foi criado em Volta Redonda. Brincava brincadeiras redundantes em Volta Redonda. Adorava brincar com o Ferrorama. Aquele Ferrorama de trilhos ovais. Aquele Ferrorama de trilhos ovais nos quais o trem andava sozinho. Sem competição. Sem emoção. Andava redundantemente sozinho, tendo a manivela apenas para diminuir ou aumentar a velocidade e mudar o sentido do percurso. Na pracinha gostava daquela roletinha giratória. No parque adorava o carrossel.

Estudou em Volta Redonda. Na escola tirava zero num bimestre e oito no outro. Ficava sempre em recuperação. Só repetiu duas vezes. A sexta e a oitava série, as séries que ele repetiu. Nas demais passou na recuperação. O mesmo desempenho se repetiu no segundo grau. Tirava zero num bimestre e oito no outro. Ficava sempre em recuperação. Mas passou em todos os três anos.

Redson foi aprovado em octagésimo-oitavo lugar na faculdade de filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi a faculdade que ele escolheu para estudar e exercer a sua profissão. A faculdade de filosofia. Na hora de se inscrever para o vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro chegou a ficar em dúvida entre a faculdade de filosofia e a faculdade de direito. Mas escolheu a faculdade de filosofia porque era menos concorrida. A faculdade de direito era muito concorrida. A faculdade de direito tinha muitos candidatos para uma vaga. Já a faculdade de filosofia tinha poucos candidatos para uma vaga.

Redson era um cara bonito. Não era feio. Era bonito. Diferentemente do que o seu nome, que na verdade significa filho do vermelho e não redundante, como sugere, o que também sugere redondo, e como redondo sugere também gordo, Redson era um cara magro. Não muito magro, diga-se de passagem, magro na média. Seu rosto era redondo, aí sim, parecido com o nome que sua mãe escolheu que não quer dizer redondo e nem redundante. Seu nome significava filho do vermelho. Ela só não sabia explicar de onde tirou a idéia para o nome do filho. Redundava sobre o assunto quando ia explicar o nome do filho. Os cabelos de Redson eram cacheados. Ou melhor, encaracolados como a personalidade de Redson sugere. Redundantemente encaracolados.

Redson não era bom de redação. Por isso não escolheu o jornalismo como profissão. Ia até escolher direito, mas, como já disse antes, o direito era uma faculdade muito concorrida. Pelo mesmo motivo rejeitou, também, a faculdade de psicologia. Escolheu filosofia. Sua redação era redundante como este conto, aliás, escrito por Redson, e não por Gustavo do Carmo, como a assinatura sugere.

Redson era melhor falando do que escrevendo. No entanto, com as palavras saídas diretamente da sua boca, ele redundava no assunto do mesmo jeito. E foi com esses discursos redundantes que ele se formou, quatro anos depois de ter sido aprovado em octagésimo-oitavo lugar na faculdade de filosofia. Faculdade que escolheu em preterimento às faculdades de direito e psicologia, porque estas eram mais concorridas do que as faculdades de filosofia.

Como Redson não tinha dinheiro para fazer cursos de especialização em filosofia fora do Rio de Janeiro e fora do Brasil, ficou sem campo para exercer a sua profissão de filósofo. Também não tinha dinheiro para publicar livros sobre filosofia. Com discurso redundante para argumentar porque não aceitava trabalhar em outra atividade Redson acabou engrossando a longa e redundante estatística dos cidadãos economicamente capazes desempregados. Voltou para Volta Redonda, sua cidade natal onde nasceu no dia 11 de novembro de 1988, às vinte e três horas e cinqüenta e cinco minutos, para continuar sendo sustentado pelo pai, na casa onde foi criado.

Para se ocupar com a redundante sobra de tempo e falta de serviço, Redson andou fazendo algumas oficinas literárias. Oficinas para que ele pudesse aprender a escrever com mais clareza e menos redundância. Redson sempre sonhou em ser escritor, mas não era bom de redação. Sua redação era redundante como este conto autobiográfico, que apesar de estar escrito em terceira pessoa, fala da vida biográfica de Redson e foi escrito por ele mesmo e, não, pelo Gustavo do Carmo, como está assinado no início do conto.

Na quinta oficina literária que Redson entrou para aprender a escrever com mais clareza e menos redundância, Redson conheceu Clariane, que mudou sua vida e com Redson se casou. Clariane fez de Redson um homem mais objetivo e menos burocrático e menos redundante, a não ser pelo seu cargo burocrático e redundante de auxiliar administrativo que ele conseguiu ao ser aprovado num concurso público após chutar redundantes questões de múltipla escolha.

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

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quinta-feira, 20 de maio de 2010


João Paulo Mesquita Simões




Quando, nos anos 80 do século XIX, se descobriu em Braga que era muito mais vantajoso construir elevadores públicos do que andar a gemer com dores nas costas, imediatamente outras localidades de Portugal aceitaram com entusiasmo seguir essa ideia, com natural destaque para Lisboa, capital bem acidentada deste país. Em cerca de 20 anos, construíram-se nada mais nada menos que 14 elevadores e, aproximadamente 20 anos depois, Viana do Castelo inaugurava o último exemplar deste grupo de elevadores históricos de Portugal.
De todos restam apenas oito, entre eles o mais antigo, o primeiro a ser construído, o elevador do Bom Jesus em Braga, pioneiro em Portugal e na Península Ibérica. Obra-prima de arquitectura industrial, ainda hoje se move por acção do contra peso de água, tal como quando foi inaugurado em Março de 1882. Primorosamente conservado, andar nele faz-nos sentir no ano da sua inauguração.
A Braga seguiu-se Lisboa, onde com certeza havia já muita gente farta de tanta colina! A construção do elevador do Lavra, vencendo essa íngreme calçada veio trazer novo ânimo. A partir de Abril de 1884 puderam os Lisboetas sentir-se vaidosos por já terem um elevador, também movido a contra peso de água e que vencia um percurso em curva, coisa considerada impossível até essa data.
E como uma alegria nunca vem só, logo em Outubro de 1885, a calçada da Glória, ganha também o seu elevador. De aspecto imponente, transportava passageiros no interior e no tejadilho, que tinha bancos onde os cavalheiros se sentavam em poses de grande dignidade, cofiando os seus bigodes. É um dos mais utilizados elevadores de Lisboa.
Depois de Lisboa, foi a Nazaré a recorrer ao elevador para solucionar o importante problema da ligação ao Sítio. Inaugurado solenemente em Julho de 1889, foi o primeiro elevador a utilizar o vapor como força motriz. Hoje está modernizado sendo, pela beleza do seu percurso e das suas carruagens, um dos mais bonitos elevadores de Portugal.
O elevador dos Guindais, no Porto, foi um projecto de grande ousadia, devido à inclinação do seu percurso. Utilizando a força do vapor, foi inaugurado em Junho de 1891, mas durou apenas dois anos devido a um grave acidente. Ressuscitado para integração no âmbito da Porto 2001 – Capital da Cultura, é hoje um magnífico elevador verdadeiramente moderno, panorâmico e bonito.
O sexto elevador da nossa lista é, sem dúvida, o mais simpático elevador de Lisboa. Começou a andar no característico bairro da Bica em 1892, por altura dos Santos Populares, utilizando o contra-peso de água durante algum tempo. Pequeno, com chão em degraus, bem cedo começou a fazer disparates, mas sempre se recompôs. Se essa alcunha não tivesse dono, bem se lhe podia chamar “o miúdo da Bica”.
O elevador de Santa Justa, inaugurado em 1902, foi o último elevador a ser construído em Lisboa. As suas cabines deslocam-se na vertical, tendo sido movidas inicialmente pela força do vapor de água. Grandioso, com uma arquitectura magnífica transformou-se num verdadeiro ex-líbris de Lisboa que todos gostam de admirar e utilizar.
O único elevador desta série que ainda não é centenário, mas que para lá caminha alegremente, é o de Santa Luzia em Viana do Castelo. Inaugurado em Junho de 1923, não teve uma vida fácil. Chegou mesmo a pensar-se que acabaria. Mas foi ressuscitado e hoje é um elevador muito bonito e moderno, bem de acordo com a beleza do seu percurso.
Impossível não recordar Raul Mesnier, ligado à construção de todos estes elevadores, exceptuando o último, construído já depois da sua morte.
Importa também lembrar que todos os elevadores de Lisboa pertencem à Carris e os restantes, às respectivas Câmaras Municipais, sendo de realçar todo o trabalho de manutenção e conservação desenvolvido por estas entidades.
Ao emitir esta série magnífica de selos, os CTT estão, com toda a certeza, a dar uma enorme alegria a todos que se interessam por transportes, mas também ao público em geral que fica a conhecer um pouco mais o nosso património.

Jaime Fragoso de Almeida


Dados Técnicos

Obliterações do 1º dia em:
Lisboa / Porto / Funchal / Ponta Delgada

Emissão:
2010 / 05 / 17

Selos:
€ 0,32 – 230 000
€ 0,47 – 220 000
€ 0,57 – 190 000
€ 0,68 – 230 000
€ 0,80 – 220 000
€ 1,00 – 190 000

Bloco:
Com 2 selos
€ 2, 50 – 60 000

Design: Atelier Whitestudio / Eduardo Aires
Papel FSC: 110g / m2
Formato:
Selos: 30,6 x 40 mm
Picotagem:
13 x Cruz de Cristo
Impressão: offset
Impressor:CARTOR

Folhas:
Com 50 ex.

Sobrescritos de 1º dia :
C6 – € 0,55
C5 – € 0,74

Pagela:
€ 0,70


(In: Pagela dos Correios de Portugal)




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domingo, 16 de maio de 2010

Por Ed Santos


Há um tempo, nesta mesma coluna eu postei um texto sobre a real história da música “Flor de Lis”, do Djavan. No texto eu disse que não tinha certeza sobre a veracidade da informação, e depois de um tempo recebi um outro e-mail dizendo que aquela versão dos fatos não era verdadeira, e que o autor havia postado em seu site, uma explicação sobre o caso, mas eu não me interessei em saber se era verdade e deixei pra lá.
Essa é mais uma daquelas que deixa a gente louco de curiosidade pra saber se é verdade ou não.  É uma história semelhante à do Djavan. Segue o e-mail:
“Para quem não sabe, o autor da música “Gostava tanto de você”, sucesso do repertório de Tim Maia, cujo nome é Édson Trindade, não escreveu esta música por causa de uma namorada que o tinha abandonado, mas sim, para a filha dele que havia falecido em um acidente.
Talvez ela seja um bom motivo para você começar caçar libélulas, dançar, brincar, namorar, beijar, nadar, andar de bicicleta, soltar pipa, etc.
Releia a letra da música pensando no seu verdadeiro significado.

‘Não sei por que você se foi, quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver, e aquele adeus não pude dar
Você marcou a minha vida, viveu morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro, e da solidão que em minha porta bate
E eu gostava tanto de você, gostava tanto de você...
Eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo esse passado
E na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato
Não quero ver para não lembrar, pensei até em me mudar
Lugar qualquer que não exista, o pensamento em você
E eu gostava tanto de você, gostava tanto de você...’”


E o e-mail segue com uma mensagem:
“(...)o que importa é fazermos realmente felizes,
as pessoas que Deus coloca em nossas vidas. Se você se for antes delas, ficará o resultado benéfico da sua dedicação. Se eles se forem antes de você, lhe restará a certeza de haver contribuído de forma decisiva para elas tenham vivido de forma abençoada.
Aproveite a sua vida! Problemas, esses todos temos, pode ter certeza! A diferença é saber que um dia todos eles, mais cedo ou mais tarde, vão se resolver, e, provavelmente, daí surgirão outros. Não podemos ficar esperando a ausência de problemas para sermos felizes! E ser feliz, de verdade, resulta de produzir felicidade!”
Como podemos ver, trata-se de mais uma suposição. Como escrito na própria internet: “A internet já tem mais lendas que a própria mitologia grega”.

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sábado, 15 de maio de 2010

Por Gustavo do Carmo



Reginaldo acordou com a irmã lhe chamando de vagabundo e preguiçoso. Já estava acostumado. A moça, que é médica, se orgulhava em dizer que trabalhou duro desde os vinte anos (tinha trinta e cinco) e levava dinheiro para casa, enquanto o irmão de trinta, nunca trabalhou e não demonstrava o mínimo interesse em trabalhar. Vivia à toa, às custas do pai e da mãe, ficava o dia inteiro pendurado na internet, dormia de madrugada, acordava no sofá, ia para cama e só acordava de verdade ao meio-dia.

Todos os dias a irmã saía do trabalho, aos gritos, já estressada. Dia sim, dia não, ela falava tudo isso e outras coisas do irmão mais novo, que reagia aos gritos e pontapés. Mas se acostumou com o tempo. Sua irmã era o alarme que ele não precisava para acordar cedo.

Neste dia levantou-se após ouvir a irmã chamá-lo de vagabundo e preguiçoso. Irônico perguntou para a mãe:

— A minha irmã saiu me xingando mais uma vez, não foi?

— Não. Ela saiu bem cedo hoje. Eu ainda estava dormindo.

— Então ela falou para o meu pai.

— O seu pai nem dormiu em casa ontem.

— Então para quem ela disse que eu era vagabundo e preguiçoso? Pergunta Reginaldo, estranhando.

— Você deve ter sonhado, meu filho.

Reginaldo concordou com a mãe. Foi fazer um pagamento que o seu pai havia mandado na antevéspera. Antes, quando estava no banho, ouviu a vizinha de baixo falar mal dele para o marido.

— Você não acha que o Reginaldo do 403 não está muito grandinho para viver às custas do pai? Ele precisa arrumar um emprego e não ficar em casa explorando a mãe. A Dona Clotilde, coitada, desce todo dia, faça chuva ou faça sol, com aquela idade avançada para comprar pão para ele.

— Ela é mãe, Isadora. Mãe faz tudo pelo filho! Não importa a idade.

— Mas ele nunca procura um emprego.

— Vai ver que não conseguiu! Deixa ele. Eu acho que ele é meio doentinho da cabeça, coitado.

As palavras dos vizinhos por quais tinha a maior admiração o deixou completamente aborrecido. Continuou o seu banho. Ouviu a vizinha antipática e fofoqueira – inventora de histórias - do 104 falar ao telefone que tem um vizinho de trinta anos que explora os pais e principalmente a mãe. Disse que já ouviu o rapaz gritar com a mãe diversas vezes e que na próxima o denunciaria com base no Estatuto do Idoso. Reginaldo não se surpreendeu e pensou. “Sabia que essa aí não gostava mesmo de mim”.

Já pronto para sair, a mãe lhe pediu que comprasse detergente, sabão em pó, uma vassoura, tomate e farinha. Reginaldo respondeu OK com a voz embargada e saiu batendo a porta.

Antes de sair à rua, desceu um andar, tocou a campainha do 304 e foi atendido com simpatia pelo Seu Rubens. Simpatia agora falsa para Reginaldo, que disfarçou a sua raiva e chamou por Dona Isadora. Esta lhe atendeu ainda mais amável.

— Ooooi meu querido!!! Como vai? E a sua mãe?

Quando ia abraçar o vizinho que viu crescer e nascer, Reginaldo rejeitou o gesto e esbravejou:

— A minha mãe vai muito bem, sua falsa! Eu não trabalho porque ainda não consegui emprego e ela vai à padaria sob chuva porque quer. Eu não obrigo ninguém ir à padaria para mim!

Dona Isadora ficou escandalizada.

— Quê isso, menino! O que eu fiz contra você para ser tratada assim com essa estupidez?

— Eu ouvi a senhora falar mal de mim e dizer que eu exploro os meus pais! Eu não exploro ninguém. Mas, se fosse verdade, a senhora não tem nada a ver com isso!

— Ponha-se daqui pra fora imediatamente! Bem que já me falaram mal de você sim, seu vagabundo!

— O que é isso, meu filho? Nós sempre te tratamos com carinho desde que você nasceu. Interveio seu Rubens, assustado.

— Eu sei, senhor Rubens. Mas eu não sou doentinho não, tá? Mesmo que eu seja, o senhor deve me respeitar!

Reginaldo saiu enfurecido e desceu para o 104. Foi atendido com o mau-humor habitual de Dona Mercedes.

— O que você quer? Nunca veio aqui!

Entregando o próprio celular, disse:

— Vim te dar a oportunidade de me denunciar à polícia por maus-tratos contra a minha mãe com base no Estatuto do Idoso. E se a senhora quiser se fazer de vítima também, sinta-se à vontade.

— Está maluco? Quem é você para invadir a minha casa com essas ironias? É um playboyzinho barato que vive às custas dos pais, sim! Eu tinha certeza! Mas não vou denunciá-lo em respeito aos seus pais a quem eu admiro tanto. Não quero vê-los sofrendo vendo um filho na cadeia por um motivo torpe! Mesmo que você mereça! Suma da minha frente!

Desceu, foi cumprimentado pelo porteiro que não teve resposta. Seu Gilson insistiu e levou um fora.

— Bom dia uma ova, seu traidor! Eu ouvi no elevador você falando para o porteiro do prédio do lado que eu era gay e que não quero trabalhar! Gay é a tua mãe, seu safado!

O porteiro ia reagir, mas foi contido pela faxineira que chegava para trabalhar no apartamento 502. Reginaldo foi embora para o banco em Copacabana.

No caminho parou para comer um pastel na lanchonete de costume. Pediu um refrigerante. Depois que acabou de comer e foi embora, ouviu, quase chegando ao banco, o balconista comentar com o outro:

— Esse cara vem sempre aqui e come a mesma coisa. Desse jeito ele vai acabar obeso! E riram dele.

Reginaldo pagou o documento e ao sair, ouviu as duas belas caixas falarem dele.

— Esse cara é feio, mal-arrumado. Cara de maluco.

— É. Ele é cheio de espinhas. Rosto oleoso. Deve feder.

O rapaz voltou para o banco e disse para a caixa morena:

— Saiba você que eu não sou personagem de novela para sair de casa, andar a pé desde a Barata Ribeiro até aqui, em pleno verão carioca, para chegar limpinho e perfumado a esse banco com mau-atendimento. E quanto a você, se eu sou feio, mal-arrumado e tenho cara de maluco, tem muita gente que gosta, tá? Sua mal-amada!

Voltou a lanchonete onde comeu o pastel e disse ao balconista que o atendeu:

— Esta é a última vez que venho aqui. Vou seguir a sua recomendação e fazer uma dieta.

Decidiu caminhar no calçadão para fugir de tantas críticas pelas costas. Ouviu o jornaleiro comentar com o cliente que há quatro semanas ele pergunta pela mesma revista de automóveis. Ouviu o outro achar que suas espinhas são por excesso de masturbação. A irmã novamente o chamou de retardado e vagabundo. O cunhado comentou com um colega de trabalho que ele tem um problema de amadurecimento. Mesmo comentário fez o primo mais velho. O outro primo falou que o livro que publicou era mal escrito, mas que elogiava só para agradá-lo. Os editores confessaram estar com vergonha do livro horroroso dele e decidiram diminuir gradualmente até parar por completo. Umas duas ex-colegas da segunda faculdade, que não gostavam muito dele, resolveram lembrar de Reginaldo e perguntaram se ele ainda era bobo daquele jeito. Um rapaz respondeu que estava pior. Operou a vista, mas estava sujo como sempre. Estava tão louco que esbravejava com todo mundo, principalmente com ele. E ainda comentaram do livro infantil, mal escrito e horroroso, com vários erros de português, que ele escreveu.

Ouviu ainda os amigos da primeira faculdade e da pós-graduação dizerem que sentem pena dele. O coordenador do mestrado pedir ao professor que aprovasse Reginaldo só para não deixá-lo magoado, pois o trabalho final que fez estava péssimo e merecia uma nota bem baixa. Professor e colegas de uma oficina literária comentaram que ele falava tão mal nas aulas que parecia uma pessoa com deficiência mental. E que não sabia nem defender os contos sem nexo que ele escrevia. O pai dizer que ia expulsá-lo de casa se não arrumasse um emprego ou fazer um concurso público. A bela vizinha do 301, jornalista, comentar com o marido que queria se mudar do prédio porque Reginaldo a via diariamente, todas as horas, pela janela, chegando de carro, como se a vigiasse. O marido dizendo que ia ter uma conversa séria com ele. Dona Isadora, Seu Rubens, Dona Mercedes e o porteiro Gilson foram queixar-se com sua mãe, Dona Clotilde, das ofensas que Reginaldo fez durante a manhã.

Já Reginaldo continuou andando por Copacabana para fugir do tormento cada vez mais crescente das pessoas que o criticavam pelas costas.
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Por DUDU OLIVA

I. Outro dia, alguém me perguntou o que era avassaladora. A primeira imagem que veio na minha cabeça era uma mulher sensualmente arrebatadora. Procurei o significado no dicionário: "... Que avassala e domina.". Inclusive, o subordinado é classificado como vassalo: " Indivíduo dependente de um senhor feudal, ao qual estava ligado por juramento de fé e submissão; súdito, feudatário. adj 1 Diz-se do príncipe tributário de outro. 2 Que depende de outrem. 3 Tributário, subordinado. 4 Que paga tributo a alguém.". Talvez, a minha primeira ideia não esteja tão equivocada, já que uma mulher sensual seja avassaladora em relação aos homens. Porém, não se pode reduzir os significados das palavras.

II. Ultimamente, as pessoas ouvem música sem fone, impondo seus gostos musicais para outros passageiros do ônibus. Não sei se é falta de educação ou querem azucrinar a vida do outro? Fiquei uma hora, ao lado de um cara que ouvia música evangélica nas alturas. Nada contra o conteúdo das melodias, mas, a confusão que as pessoas fazem entre o espaço público e o privado torna a cidade ainda mais caótica.

III. Curioso que tem certas coisas que eu aprendi, mas eu esqueço. Será que tenho que colacar mais memória na cabeça? Na sexta-feira houve uma discussão se havia diferença entre companhia e companhia. Pediram meu dicionário e vimos que não distinção. Só existe companhia. Fiquei chateado, pois aprendi isto em vários cursinhos que fiz. Mesmo assim, nossa língua sempre nos dá uma rasteirinha, para gente nunca parar de estudá-la.

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quinta-feira, 13 de maio de 2010


João Paulo Mesquita Simões


Como é sabido, Bento XVI encontra-se de visita a Portugal, estando hoje no Santuário de Fátima.

A visita ocorre numa altura em que o país se encontra em grave situação económica, obrigando os Portugueses a vários sacrifícios.

Esta visita mobilizou milhares de pessoas a pararam o país para irem ver o Papa.

Somos, tal como vós Brasileiros, um país católico. Mas dar tolerância de ponto em cidades como Lisboa, Porto e outras, é uma perda enorme na frágil economia Portuguesa!

Podereis vós pensar que sou anti Papa. Sou agnóstico de facto e repugna-me ver um país parado pela estadia do Chefe da Igreja Católica.

Estas visitas são importantes para estreitar laços de cooperação, é verdade. É importante para os Católicos de todo o mundo. Até mesmo para os Correios de Portugal que, e muito bem, quiseram marcar esta efeméride com este selo de 0,68 euros.

Mas não estagnemos mais do que já estamos nesta velha Europa sem futuro à vista.
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terça-feira, 11 de maio de 2010

Miguel Angel


Umberto Eco se pergunta: Que teria acontecido com os grandes clássicos se tivessem se submetido à máquina editorial moderna?
(Para uso exclusivo das editoras e seus funcionários assessores;o)

Homero
A ODISSÉIA

Pessoalmente, gosto do livro. A historia é bela, apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose certa de amor, de fidelidade e de escapadas adulterinas (muito boa a figura de Calipso, uma verdadeira devoradora de homens); tem, inclusive, um momento "à la Lolita", com uma garotinha chamada Nausicaa: ao longo do episódio, o autor se permite mais de uma ousadia, mas em nenhum momento incorre em excessos.
O todo resulta excitante. Há bons efeitos, gigantes de um só olho, canibais e até um pouco de droga (o suficiente para não transgredir os limites fixados pela lei). As cenas finais se inscrevem na melhor tradição western: as lutas são brutais; a cena do arco se mantém na corda bamba do suspense de forma magistral.
Quê dizer?: lê-se de uma arrancada só, melhor que o primeiro livro do mesmo autor, que era estático demais com sua insistência de unidade de lugar, chato pela superabundância de acontecimentos (na terceira batalha e ao décimo duelo, o leitor já compreendeu o mecanismo). Ademais, a historia de Aquiles e Patroclo, com seu fio de homossexualidade apenas latente, nos colocou em situações difíceis.
Em cambio, neste segundo livro todo anda que é uma maravilha; até o tom é mais sereno: pensado, sem ser reflexivo. E, ademais, a montagem, o jogo de flash-backs, as histórias intercaladas!... Em suma: alta escola. Realmente, este Homero tem talento.
Demasiado talento, diria eu... Me pergunto si será tudo farinha de sua colheita. Entretanto, o que me faz duvidar (e, nesse caso opinar negativamente) é a confusão que pode se armar no tocante a direitos. Falei do assunto com Eric Linder e creio que não sairíamos muito bem dessa parada.
Antes de qualquer coisa, é impossível localizar o autor. Os que o conheceram dizem que, de qualquer maneira, resultaria tedioso discutir com ele as pequenas modificações a introduzir no texto, pois é cego como uma toupeira, não segue o manuscrito e em mais de uma ocasião deu a impressão de não conhecê-lo bem. Dizem, também, que citava de memória, e que não estava seguro do que tinha escrito e alegava que o copista havia introduzido interpolações. Será que ele mesmo escreveu ou é tão somente um testa-de-ferro?

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A BÍBLIA
"Devo dizer que ao começar a ler o manuscrito, e durante as primeiras cem páginas, fiquei entusiasmado. É pura ação e tem todo o que o leitor de hoje exige de um livro de evasão: sexo (muitíssimo), com adultérios, sodomia, homicídios, incestos, guerras, desastres etcétera. O episódio de Sodoma e Gomorra, com travestis que pretendem estuprar os dois anjos, é rabelaisiano (i.é: Libertino, devasso, licencioso); as histórias de Noé são o mais puro Salgari; a fuga ao Egito é uma historia que cedo ou tarde será levada ao cinema. Em suma, o verdadeiro romance-rio, bem construído que não poupa efeitos, cheio de imaginação, com essa dose de messianismo que agrada, sem atingir o trágico.
Depois, mais adiante, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de diversos autores, com muitos, demais, fragmentos de poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, verdadeiras jeremiadas (i.é: Lamúria ou queixa importuna e vã) sem pé nem cabeça. E o resultado disso é um engendro monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém porque tem de todo. Além disso, será um aborrecimento estabelecer os direitos dos diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue disso. Mas o nome de tal representante não consta nem sequer no índice, como se houvesse certa reserva em nomeá-lo. Seria mais seguro tentar a possibilidade de publicar separadamente os cinco primeiros livros. E com um outro título, tipo 'Os desesperados do mar vermelho'"

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Kafka, Franz
O PROCESSO

Não está mal o livrinho; é policial, com momentos ao estilo de Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, que terá seu público.
Sem embargo, pareceria que o autor o escreveu sob censura. Quê significam essas alusões imprecisas, essa falta de nomes de pessoas e de lugares? E por quê o protagonista está sob processo? Esclarecendo mais tais pontos, ambientando de forma mais concreta, dando fatos, fatos, fatos, a ação resultaria mais límpida e mais seguro o suspense.
Esses escritores jovens acreditam fazer "poesia" porque dizem "um homem" em vez de dizer "o senhor Tal a tal hora em tal lugar". Em síntese: se der para meter a mão, bem; do contrário, devolver.
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Proust, Marcel
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

É, sem mais nem menos, uma obra comprometida, quiçá longa demais: mas pode vender-se fazendo uma serie de pocket.
Assim como está não funciona. Está faltando um vigoroso trabalho de editing. Por exemplo, há que revisar toda a pontuação. Os períodos são muito cansativos, alguns ocupam toda uma página. Com um bom trabalho de redação que os reduza a duas ou três linhas cada um, com uma mais freqüente utilização do ponto e vírgula, o trabalho seguramente melhoraria.
Se o autor não concordar, melhor será não editá-lo. Assim como está, o livro resulta... como direi?: bastante asmático.
(Tradução e postagem: Miguel Angel)
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domingo, 9 de maio de 2010

O poema da semana passada...


Por Ed Santos





Adoro o concreto
porque dele, brotam teimosas e tímidas flores.
Mas que possuem um força brutal
E uma resistência incrivelmente digna de aplausos.




PARA AS MAMÃES, TODAS, QUE MAIS QUE AS FLORES, COLOCAM O CONCRETO NO CHINELO.
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sábado, 8 de maio de 2010

Por Gustavo do Carmo



Decidida, Clara ligou para a amiga geneticista e confirmou:

— Geni, eu decidi. Vou fazer aquela inseminação mesmo. Tá confirmado!
— Ok, minha amiga. Não vou nem perguntar se você tem certeza. Só uma coisa: e quando ele perguntar pelo pai?
— Ah, Geni, isso eu ainda não sei. Digo a verdade, ou apresento um rapaz qualquer. Ah, sei lá! Agora eu só quero mesmo ser mãe.
— Está bem. Então, amanhã você aparece aqui às nove.
— Combinado.


Clara confirmou a agenda e às nove da manhã bateu ponto na clínica de reprodução assistida da amiga Geni, responsável pela inseminação daquele esperma congelado. No mês seguinte confirmou a sua gravidez. Apesar da possibilidade de gerar gêmeos, nasceu, mais nove meses depois, um único menino, batizado de Pedro.


Geni foi escolhida como madrinha e o irmão de Clara, Cláudio, como padrinho de Pedro, que cresceu como uma criança normal: saudável, esperto, inteligente e que gostava de estudar e, claro, de brincar. O menino também cresceu alheio ao medo da mãe de ser cobrada pelo filho para saber a origem do pai.


A cada ano que passava, Clara ficava ainda mais ansiosa por essa procura. Que não acontecia. A angústia de ser cobrada deu lugar à angústia de avisar ao filho que seu pai era apenas um doador. Ela não se perdoaria se Pedro descobrisse na escola que era filho de um sêmen de aluguel.
A primeira pessoa consultada para saber se diria a verdade ao filho foi, naturalmente, a amiga Geni.


—Ele já te procurou para saber?
— Não.
— Então, amiga. Pra quê essa neurose agora?
— Porque estou medo dele descobrir pelos outros. Mas ainda não tive coragem para contar.
— Faz o seguinte, espera ele completar doze anos para abrir o jogo com ele.


Apesar da ansiedade exagerada de Clara, que já era notada por todos os seus amigos, o tempo passou rápido e Pedro chegou aos doze anos. Dedicado à escola e aos amigos da sua idade, o menino sequer se interessou em saber quem era o seu pai. Mesmo perguntado dizia que o seu pai morreu antes dele nascer. E seu pai era morto mesmo. Vinte anos antes dele nascer. Foi o que contou Clara, quase no limite da ansiedade.


—Filho, deixa eu te contar: a mamãe fez uma inseminação artificial de um sêmen congelado de um homem morto há mais de trinta anos.
— Que legal! Maneiro!
— Você não quer saber quem foi seu pai?
— Pra quê?
— Sei lá. Pra saber a origem da sua família.
— Eu não vim de você? A minha família é você, ué?
—Mas você não sente a falta de um pai na sua vida?
— Eu não. Respondeu Pedro, com desdém. Já tenho o tio Cláudio e a tia Geni que é quem me leva para o Maracanã.
— Então, tudo bem.


Clara nunca mais tocou no assunto e jamais procurou saber do dono do sêmen que gerou seu filho Pedro, tão gelado quanto o espermatozóide que lhe deu origem.


Este conto é a minha homenagem 2010 ao Dia das Mães! Parabéns a elas que fazem tudo por nós.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Por dudu oliva


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quinta-feira, 6 de maio de 2010


João Paulo Mesquita Simões

Para vos deixar com água na boca, deixo um artigo retirado da pagela dos CTT (Correios de Portugal) e respectivos selos que compõem a emissão da segunda série do Pão Tradicional Português.
Bom apetite a todos e deliciem-se com as maravilhas da Cozinha Portuguesa!


De todas as plantas que o homem cultiva para a sua alimentação, os cereais são das mais importantes. Em Portugal a palavra pão designa um ciclo de várias etapas até chegar à nossa mesa: a semente, o campo semeado, o cereal crescido, ceifado, atado e transportado na eira, a farinha no moinho, a massa na masseira, no forno, e finalmente, o pão.
Na Idade Média, e até ao século XVI, cultivava-se grande variedade de cereais como o trigo, centeio, cevada e aveia, na Primavera, e milho-alvo e painço na altura do Verão. Em tempo de escassez, misturavam-se as diferentes variedades de farinhas.
Hoje em dia, os principais cereais de pão são o trigo, o centeio e o milho. O trigo cresce na zona mediterrânica, onde as planícies são férteis e os Verões quentes e secos. O centeio encontra-se na zona transmontana e montanhosa, com solos de qualidade medíocre, adaptando-se à altitude e aos Invernos rigorosos. O milho, introduzido em Portugal entre 1515 e 1525, ocupa grande parte da zona atlântica, onde o clima quente e húmido é favorável ao seu desenvolvimento. Para o distinguir dos milhos tradicionais (miúdo e painço), os portugueses passam ao designá-lo por milho grosso, milho graúdo ou milho de maçaroca. É muito rentável comparativamente aos outros cereais, pois a sua maturação faz-se apenas em quatro ou cinco meses. A sua cultura, iniciada no Centro e sobretudo no Noroeste do país, onde vai substituir outras menos rentáveis, intensificou-se nos dois séculos seguintes, propagando-se ao Interior (Trás-os-Montes, Beiras) e ao Sul (Alentejo e Algarve).


Broa (Entre o Douro e Minho)
Nesta região, antes da introdução do milho, era com o milho-miúdo e o painço que se fazia a broa. Actualmente, depois da separação do milho amarelo, que apenas se destina aos animais, do milho branco, a broa é feita com farinha escaldada, um misturada com centeio e trigo o que a torna um pão bastante pesado e compacto. Junta-se o fermento – “o isco” – feito na véspera para dar à massa a qualidade do pão tradicional.
Para a tender, é indispensável um recipiente de madeira enfarinhado, a “escudela de pau” ou o “gamelo”, para lhe dar uma forma arredondada. Depois de cozida, a broa é um pão pesado e compacto, com uma crosta aloirada e escura. Ainda há padeiros que a coze sobre uma folha de couve à moda antiga, o que lhe confere um sabor ligeiramente ácido.
No Minho, não se comem sardinhas sem broa. No Porto, não há broa sem caldo verde.


Carcaça (Estremadura)
A carcaça é a versão industrializada dos pequenos pães que se faziam antigamente no país, moldados à mão, vincados ou bicudos. Inicialmente, em Lisboa, chamava-se “papo-seco”, mas depois de perder as extremidades, as “maminhas”, para aumento da produtividade, adquiriu a designação de “carcaça” no formato grande; e de “carcacinha” num format
o mais pequeno. Entre os pães pequenos, é o mais comum e o mais vendido, e é sobretudo consumido em sandes.


Pão de Mafra (Estremadura)
A fama deste pão saloio é bastante remota. Tradicionalmente, fabricava-se com farinha de trigo duro, que se cultivava em abundância nos arredores de Lisboa. Na altura em que as padeiras de Lisboa tinham de pagar a dízima de todo o pão que vendiam, passou a ser mais frequente fazer este pão em Mafra, para fugir a estes impostos.
Nos nossos dias, o pão de Mafra continua a ser cozido em fornos de alvenaria aquecidos a lenha. É feito à base de produtos naturais como a farinha em rama, muito pouco fermento, ou que suponha uma fermentação lenta, e muita água. Para tender o pão, o padeiro estica uma bola de massa e levanta uma das extremidades, pegando-lhe pelas pontas, dobrando e deslizando-as para baixo do pão. O aspecto final assemelha-se ao nó de uma gravata. É um pão que se aguenta bastante tempo, e o seu aspecto compacto, massudo, sem buracos, é o ideal para fazer tostas.


Padas (Beira Litoral)
Dá-se o nome de “pada” a um pão de trigo formado pela junção de dois ou mais “moletes”. Existem padas de vários feitios em Aveiro, Ul, Ovar, ou Viana do Castelo… As padas do Vale de Ílhavo, por exemplo, formam dois moletes apertados no meio, e o método de confecção faz com se assemelhe a pão caseiro. São amassadas à mão num alguidar, tendidas à mão, e cozidas em forno de lenha. No decorrer da cozedura, mantém-se um monte de brasas à entrada do forno para corar o pão, que as pessoas não gostam de ver o pão branco de mais, dizem que foi cozido ao ar!
Depois de cozidas, as padas molinhas e ligeiramente enfarinhadas, cabem na palma da mão.


Broa de Avintes (Douro Litoral)
Cozida pelas padeiras de Avintes que depois de atravessarem o rio, chegavam à praça de Santa Maria, no Porto, com as suas canastras, a broa adquiriu fama pelo seu gosto e apresentação. A sua forma característica, alta, com a parte superior arredondada e os lados achatados; a côdea branca e gretada; e o miolo, compacto e amarelo-acastanhado, constituiu uma especialidade.
A broa de Avintes só leva farinhas de milho e de centeio, escaldadas em água fervente, e sal. A massa deve ser trabalhada durante duas horas e o processo de tender é inteiramente manual e com a participação de quatro pessoas. As broas são encostadas umas às outras no fundo do forno aquecido a lenha, e uma vez tapada a boca do forno, levam três a quatro horas a cozer.


Pão Alentejano (Alentejo)
O pão alentejano é dobrado, com cabeça alta, côdea rija, uma crosta grossa e sem brilho, com bastante miolo devido à sua forma, e reconhece-se sobretudo, pelo agradável cheiro a trigo, cereal que dá força à massa. Só se pode amassar com fermento azedo que lhe confere um gosto característico e deve ser cozido sempre em forno de lenha, normalmente de eucalipto que oferece um calor “mais compacto”.
No Alentejo, o consumo do pão de trigo começou a ser generalizado à partir dos anos 20, graças à crescente produção deste cereal na região. Os Alentejanos chamam-lhe simplesmente “pão” e, para eles, é o único digno desse nome, já que se come a toda hora e a todas as refeições, constituindo a base da gastronomia alentejana. Quantos pratos não levam pão? Desde sopas (açordas, gaspacho), pratos de carne (ensopado de borrego, sarapatel), de peixe (sopa de cação), até às sobremesas e doces festivos (fatias douradas, boleimas).





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domingo, 2 de maio de 2010

Ia postar um poema hoje 
mas ao ler Leminski, 
desisti.
Por Ed Santos
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Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

Por Paulo Leminski
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sábado, 1 de maio de 2010

Por Gustavo do Carmo


Aqui na empresa ninguém fala comigo. O Almeida foi bastante cordial nos primeiros dias e me apresentou ao pessoal. Na semana seguinte passou a me tratar com a mesma frieza polar dos meus colegas, dos quais não decorei o nome. Não faço o menor esforço para guardar o nome de quem não gosta de mim.

Sei que tem um gordinho, boa praça, muito simpático, que conversa com todo mundo no escritório. Ele é representante comercial. Passa o dia inteiro na rua, tentando conquistar novos clientes. Às vezes, viaja. Quando volta, passa o dia inteiro contando o que viu na rua e em suas viagens, algumas para o exterior. Conta para todo mundo. Menos para mim.

O piadista oficial do escritório é o gerente de vendas. Também não guardei o seu nome. É um magrinho de pele negra, também muito simpático. O mais engraçado em suas piadas são as dramatizações e a sonoplastia que ele faz quando conta para os colegas. Menos para mim.

Lúcia, acho que é esse o seu nome, é a contadora. Uma senhora muito bondosa com os seus colegas e até com os novos funcionários. Considera todos como filhos. Exceto a minha pessoa.

No meio dessa panelinha, tem gente antipática, sim. Geraldo, o estagiário, se acha o máximo. Mas tem uma popularidade... Ih! Consegui lembrar com certeza o nome de alguém! Ele me odeia. É o único que fala comigo. Para me provocar. E tem um louro de cabelos arrepiados que destrata todo mundo e vive reclamando da empresa. Ninguém gosta dele, de quem sempre falam mal pelas costas. Tentei fazer amizade com ele, mas levei um fora. Ouvi dizer que está com os dias contados no escritório. Levou um ultimato. Nem o Almeida agüenta mais.

Eu também me acho um bom funcionário. Faço tudo o que me pedem. Mesmo não sendo a minha função. Sou o responsável por redigir todos os memorandos e circulares da empresa. Ainda faço a coleta de tudo o que é publicado na mídia sobre ela. Quando peço o material que preciso, os meus colegas atendem. Mas passam tudo sem dizer uma palavra. Se não estivessem satisfeitos, me mandariam embora.
Só o Almeida me deu o seu celular e o e-mail. Qualquer coisa que eu precisasse, poderia ligar para ele. Um dia eu precisei. Precisava avisar que ia faltar, não lembro o motivo. Ele me atendeu friamente. Sabia que era eu pelo identificador. Quando lhe disse que eu ia me ausentar naquele dia, foi compreensivo. Até um pouco simpático. Sequer se interessou pelo motivo da falta. Mesmo assim expliquei e ele me cortou seco, dizendo que eu não precisava justificar. Desliguei o telefone. Já os meus colegas não me deram seus telefones. Tampouco me chamavam para almoçar com eles. Iam sempre a um restaurante a quilo nas redondezas do escritório, que ficava na Barra da Tijuca. Enquanto eu ia ao shopping próximo comer um hambúrguer com fritas, refrigerante e a minha solidão.

Voltava muito cedo do almoço. O gordinho, o rapaz negro, a contadora, o Almeida e o Geraldo chegavam sempre em grupo. Riam com as piadas do gerente. Eu me divertia ouvindo tudo aquilo, mas sentia uma ponta de tristeza por ser rejeitado por eles. Quando eu tentava me aproximar do grupo para entrar na conversa e tentar me enturmar, todos saíam dizendo que estava na hora de trabalhar.

No meio dessa turminha, de vez em quando, estava a recepcionista. Cláudia é o seu nome que eu vi pelo crachá. Que mulher linda! Morena, olhos verdes, cabelos lisos e negros, lábios e queixos finos, pernas bem torneadas, seios médios para grandes. Geralmente os deixava decotados. Apaixonei-me na hora. Pena que ela não suporta nem me ver. Ela fica tão nervosa quando a observo que sai correndo sem disfarçar.

Ai, ai! Tenho vontade de deixar a empresa. Se eu soubesse que ia trabalhar neste clima, preferia ter ido para cadeia, como eu quase fui. Um dia, estava desesperado para arrumar um emprego. Cansei-me de tantas frustrações. Tantos nãos.

Sou formado em letras. Mas tímido e sincero demais para passar nas entrevistas. Contava tudo o que não podia quando o entrevistador me perguntava sobre os meus defeitos. Sem falar dos e-mails com o meu currículo que eu mandava e não tinham resposta.

Um dia, quis mostrar que era alguém. Já havia enviado um currículo para essa empresa onde trabalho, por correio mesmo. Atendi ao anúncio de um jornal que precisava de um auxiliar administrativo. Mandei. Não tive resposta. Fiquei tão decepcionado que, num gesto de extremo descontrole, invadi o prédio envidraçado na Barra com uma arma de brinquedo e uma faca de verdade.

Fui recebido com simpatia pela Cláudia. Ela me perguntou o que eu desejava. Respondi que era um emprego.

— Infelizmente, não temos vaga.

— Como não?! Semana passada, mesmo, mandei o meu currículo para cá.

— Mas ela já foi preenchida. Lamento.

— Tão rapidamente assim??? Não pode! Foi para algum apadrinhado. Só pode ser.

Já nervosa com o meu destempero, a recepcionista ameaçou, já com o telefone na mão:

— Olha, eu vou chamar a segurança se o senhor não se acalmar.

— CHAMA QUE EU QUERO VER!!!!

Em um minuto apareceram três seguranças, daqueles bem fortes. Ao sentir a aproximação deles, pulei para dentro do balcão, me agarrei àquele corpo lindo e, por trás, apontei a arma de brinquedo para a sua cabeça, tomando-a como refém. Ameacei:

— SE APROXIMAREM-SE DAREI UM TIRO NELA!!!! AFASTEM-SE!!!!!

Sussurrei em seu ouvido que ela poderia ficar tranqüila, que eu não ia fazer nada de mal. Só pedi para ela falar para os seguranças e o Almeida que eu estava armado e ia matá-la. Subi com ela para o décimo andar. Comecei a gritar que ia matar a recepcionista e me suicidar em seguida se não me dessem um emprego.

Vieram a polícia e a imprensa. Além, claro, dos meus queridos colegas de trabalho. A contadora, mãe de todos, até passou mal. Plantão em todas as emissoras de televisão e rádio. A negociação durou quinze horas. O delegado insistiu se eu queria um carro ou um helicóptero para fugir. Eu me cansava de dizer que não. Dizia que eu queria um emprego nesta empresa. Era a mais importante da cidade. Mas voltavam a prometer um carro se eu soltasse a refém. Não queria nada disso, pôxa! Já estavam enchendo o saco. Acabei soltando a moça, mas fui para a janela. Ameacei pular se não me dessem um emprego e ainda me prendessem.

O Almeida teve pena de mim. Ofereceu o emprego que eu queria e onde eu trabalho atualmente. Ele pediu para a polícia arquivar o caso de seqüestro e perturbação da ordem pública. Disse que resolveu tudo. Iria me empregar e eu começaria na tarde seguinte. Para fazê-lo cumprir a sua palavra, ameacei fazer tudo de novo se eu fosse para casa, me preparasse para o trabalho e fosse barrado. A situação se acalmou. A polícia e a imprensa foram embora.

Voltei para casa. Pedi desculpas aos meus pais pela vergonha que os fiz passar. Eles pararam de falar comigo. Tomei um banho bem demorado. Coloquei uma camisa social e uma calça. Tive que passar a roupa e engraxar os sapatos. Eu morri para os meus pais. Peguei a minha pasta executiva e saí para o meu primeiro emprego na tarde do mesmo dia em que o seqüestro acabou.

Não fui barrado. A imprensa voltou para acompanhar o primeiro dia do homem que seqüestrou uma empresa para pedir um emprego. O Almeida foi bastante cordial comigo e me apresentou ao pessoal. Na semana seguinte passou a me tratar com a mesma frieza polar dos meus colegas, dos quais não decorei o nome. Não faço o menor esforço para guardar o nome de quem não gosta de mim.

Claudinha ganhou licença. Ficou traumatizada. Quando voltou e me viu trabalhando normalmente, fez um escândalo e ameaçou se demitir. O Almeida e as colegas de recepção convenceram-na a ficar. Em solidariedade, os meus colegas de escritório decidiram me boicotar. Ela passou a fugir de mim descaradamente.

Paguei o meu preço para conseguir o meu emprego na marra e sem ser preso por seqüestro. Perdi o carinho dos meus pais e ganhei a antipatia dos meus colegas.

Achei melhor pedir demissão ao Almeida, depois de seis meses de trabalho e tratamento ruim. Quando saí da sua sala, fui surpreendido com uma faixa confeccionada pelos meus colegas de escritório:

“POR FAVOR, PIMENTA!!!! NÃO DEIXE A EMPRESA. VOCÊ É O NOSSO MELHOR FUNCIONÁRIO!”
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