domingo, 18 de outubro de 2009

PASSARELA

Por Ed Santos

Quando a construíram, foram vários operários envolvidos. Trabalho braçal mesmo, daqueles de suar os cotovelos e de muito esforço físico. Dia sim, dia não eu passava por ali. Via do outro lado da rua, entre a calçada e o muro de proteção da linha do trem, também em construção, que estavam levantando uma passarela. Eu que atravessava os trilhos sem o menor esforço pra chegar do outro lado da cidade, e levar as capas coloridas de almofadas que minha mãe costurava para uma loja no centro, fiquei furioso porque teria que subir duas rampas, percorrer por uns vinte metros um corredor numa altura de uns dez, e descer outras duas rampas. Sem contar que o caminho de volta era o mesmo.

Enfim, melhorias na cidade que sempre foi dividida – era o lado rico e o lado pobre, delimitado pela linha do trem. O meio de transporte neste caso não teve culpa nenhuma por estar ali, mas é que a divisão por mais suposta que fosse, era real. Mas isso deveria acabar com a construção da passarela. A integração até não fazia parte do projeto inicial da obra, mas era a esperança dos moradores, por mais que houvesse os como eu, insatisfeitos por terem que andar mais. Afinal iriam acabar com o nosso atalho para o lado rico da cidade.

Toda cidade que se presa, esmera criar um atrativo, um “que” a mais de melhoria na qualidade de vida de seus moradores, e a construção de uma passarela melhoraria em muito a acessibilidade no centro. Os que andam pelo atalho inseguro sobre os trilhos reclamarão apenas no início, mas valorizarão a labuta do trabalhador civil que dedicou muito de seu esforço naquela estrutura crua, mas intimamente ligada às necessidades de todos.

E tem mais. De lá de cima poderão todos olhar sem aquela distinção entre os lados opostos. Todos enfim serão iguais em espécie, cor, credo e simpatia. Poderão esbarrar-se uns nos outros sem que hajam aqueles olhares desconfiados dizendo: “De que lado você é?” Isso, enfim não mais existirá. A igualdade perdurará e todos terão os mesmos direitos e deveres. Olharão a todos à sua própria semelhança, e espelhos serão.

Um dia, não muito distante há de se escutar a história de um casal que se conheceu na passarela. Era um domingo de sol, ela que morava do lado de lá da linha do trem, estava atravessando para ir à outra plataforma, pois era dia de festa na igreja da padroeira da cidade vizinha e todos do colégio resolveram ir junto. Ele, que trabalhou a noite toda na portaria de uma empresa no distrito industrial, ia embora descansar. À pé. Cabisbaixos percorriam o corredor sobre a linha do trem e se esbarraram. Nascia ali o amor, e a certeza de que o encontro não foi por acaso. Eles então, como nas mais fantasiosas histórias de amor seriam felizes para sempre, desde que o viaduto prometido fosse concluído logo. Eles queriam ir de carro na formatura da filha.

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