sábado, 9 de maio de 2009

TARDE DEMAIS 5

Por Gustavo do Carmo



Sentados na mesa de um bar no subúrbio dois amigos conversam.

— Tá esperando o quê pra aceitar o pedido, Adonir?

— Coragem, Feliciano.

— Está com medo de quê, rapaz!

— Dela mudar de idéia.

— A Salustiana te ama, cara! E, pelo que eu sei, ela não é mulher de mudar de idéia repentinamente. Vai por mim, Adonir. Aceita logo essa declaração de amor que ela te mandou por e-mail.

— Sim, vou aceitar.

Mal Adonir entrou em casa, vindo do bar com o amigo Feliciano, o telefone toca.

— Alô? Eu queria falar com o Adonir?

— É ele.

— Oi, Adonir. Aqui quem fala é a Salustiana.

— Oi, Salustiana. Que bom que você me ligou, meu amor. Eu estava mesmo querendo falar com você. Eu reconheci a sua voz, mas fiquei com medo de ser outra pessoa e passar um vexame.

— Nossa, por que passar vexame? O que você queria dizer de tão grave assim?

— É sobre aquele e-mail que você me mandou anteontem.

— Que e-mail? Eu não mandei e-mail nenhum anteontem.

— Se não foi anteontem então foi quando? Você estava se declarando para mim. Eu também estou apaixonado por você. Eu tentei disfarçar o meu sentimento para não te magoar. Não conseguia dormir sufocado por tanta paixão. Eu te amo, Salustiana!

— Ah! Agora eu lembrei. Foi um e-mail que eu mandei há oito meses e você não me respondeu. Nossa! Como o seu provedor é lento, hein? Somente agora ele chegou pra você?

— É que ele foi filtrado pelo anti-spam da merda do meu provedor. Ele libera os spans e bloqueia as mensagens sérias. Você me perdoa, tá? O pedido ainda está de pé?

— Agora é tarde demais. Na época eu fiquei chateada com a sua demora. E você podia ter me ligado também, né? Mania de só querer conversar pela internet! Acaba não saindo de casa. Agora já esqueci e te perdoei. Eu só estou te ligando para avisar que eu conheci um jornalista inglês no carnaval, ele reapareceu no mês passado e me pediu em casamento. Aceitei e vou morar em Londres com ele. Ele me arrumou um emprego lá. Eu te liguei também porque ainda quero continuar a sua amiga.

— Está bem. Parabéns! Boa viagem.

A voz de Adonir ao se despedir da amiga era um balbucio. Desligou o telefone e ligou para o provedor. Já esperava uma hora para cancelar a assinatura quando a ligação caiu.

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