domingo, 10 de maio de 2009

PANELA NO FOGO (À LENHA)

Por Ed Santos


Na semana em que me mudei pra casa onde moro atualmente, revivi algumas sensações que me haviam fugido e que eu nunca percebi que tinham feito parte da minha vida tão intensamente. Depois de montar armários e prateleiras, colocar luminárias e tomadas, desembalar louças e guardar tudo em seu devido lugar, o que me restou foi instalar o chuveiro, o que eu deveria ter feito primeiro, pois por algum tempo faltou energia na rua. Mas não me importei, enchi o pneu da bicicleta e pus-me a pedalar pelas alamedas e quadras arborizadas do bairro. O fim de tarde era muito bonito e a temperatura amena era bastante acolhedora.

O passeio à princípio tinha a intenção de ser apenas um exercício para queimar algumas calorias e manter o condicionamento físico, mas a paisagem era tão interessante e bela que as pedaladas passaram a ser mais lentas. Enquanto pedalava, lembrei que no início da minha adolescência tinha vontade de trabalhar no centro de São Paulo, ter tudo por perto, a Avenida Paulista era um sonho de consumo. Já pensou ser Office-boy no centro? Agora estava ali num bairro totalmente arborizado e que me fez ter a certeza de que havia tomado a decisão correta de me mudar.

Dobrei uma esquina e senti um cheiro familiar de lenha queimando que me fez voltar ao passado. Ao sentir aquele cheiro recordei das muitas férias escolares que ia passar na casa de minha avó no interior de Sergipe. Lá ela cozinhava e no fim das tardes preparava tapioca de coco. Eu e um primo saíamos pra vender as tapiocas e quando retornávamos minha avó sempre deixava algumas delas pra gente saborear à beira do fogo e escutando aquelas histórias que os sertanistas tão bem conhecem, muitas delas de assombração, daquelas que deixam a gente assustados e com medo na hora de dormir.

Na outra esquina, mais uma surpresa. Um vaga-lume. Não lembro quando havia visto o último até aquele momento e meu filho, hoje com 13 anos só conheceu um aqui.

Naquele dia voltei pra casa acompanhado de uma revoada de papagaios barulhentos – que hoje me acordam pela manhã – e com a certeza de que este lugar é muito bom pra se morar. A minha escolha não poderia ter sido melhor. Hoje, voltando pra casa após o trabalho, senti o cheiro de feijão cozido e escutei o som de uma panela de pressão ao fundo, e automaticamente a lembrança foi de novo lá atrás pra fortalecer os laços que tive. E que tenho.

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