domingo, 18 de janeiro de 2009

ARROZ, FEIJÃO E BIFE EM PEDAÇOS

Por Ed Santos

Um domingo desses aí, ela não tava muito a fim de fazer almoço. Então fui eu pra cozinha. Confesso que nunca fui muito de cozinhar não, aliás, lá em casa desde moleque a comida era servida pela minha mãe. Eu fui criado pela minha avó desde os quarenta e cinco dias de nascido até os seis anos de idade, quando meu irmão nasceu. O primeiro neto, mimado pra caramba, passava a semana inteira com as minhas tias que ajudaram a me criar.

Naquele tempo, lembro que minha mãe ia me levar logo na segunda-feira de manhã, a pé. Quando o tempo tava meio ruim, a gente ia no domingo de noite, e aí ela também dormia por lá. Na sexta-feira à noite ela ia me pegar e eu ficava em casa no final de semana.

Lembro que minha avó sempre tinha um prato pronto logo depois que eu tomava banho no início da noite, e uma imagem que eu me recordo muito bem é a do prato com arroz, feijão e bife, cortado em pedaços. Sim, a minha avó cortava a carne pra mim. Minhas tias morriam de inveja por que não tinham a mesma regalia. Mas o pior era quando minha avó pedia pra que uma delas fizesse o meu prato. 

Depois, quando fui morar definitivamente com meus pais, a situação permaneceu a mesma. Prato na mesa com arroz, feijão e bife em pedaços pra auxiliar na mastigação. Nunca tive o trabalho de usar faca pra cortar o que quer que seja na hora da alimentação. Tudo era facilitado pra mim.

Num dado momento da vida houve então a necessidade de me virar. Já adulto, morei um período sozinho e descobri que se não fizesse algo pra comer eu mesmo...

Com muito esforço, aprendi a fazer o básico: arroz, feijão e bife, inteiro. A primeira vez que me preparei pra almoçar sozinho, olhei pro prato feito e lembrei do bife em pedaços que minha avó preparava. Quanta saudade!

Dias atrás, fui almoçar na casa de uma das tias que ajudaram a me criar. Na nossa família nunca houve muito isso de cerimônia para comer. Sentar-se à mesa, garfo, faca, guardanapo, etc. A gente se virava, e se vira em qualquer lugar até hoje. Sabe aquela coisa de sentar no botijão de gás quando falta cadeira? Por aí.

Enquanto eu estava na sala conversando com um primo, minha tia tava lá na cozinha preparando o almoço. Quando me trouxe o prato, adivinha se o bife não tava em pedacinhos?
- Tia, já tenho quase quarenta anos! Pra que esse bife cortado em pedaços?
- Pra mim você vai ser eternamente criança meu filho. Não vai passar dos seis anos. Nunca!
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