sábado, 31 de janeiro de 2009

Conto de Gustavo do Carmo


No berçário da maternidade, entre dezenas de bebês, alguns chorosos, outros famintos, boa parte dorminhoca, o destoante corpo gorducho de Concórdio era o único que se aventava no lado oposto do berço.

Concórdio levou quase dez meses para nascer. Fez sua mãe tirar licença-maternidade aos cinco de gravidez porque sua barriga já parecia ter noventa dias a mais. Dona Linda foi internada no sexto mês porque o menino estava tão grande que poderia nascer, prematuramente, a qualquer momento. Demorou três semanas além dos nove meses normais. Veio ao mundo no meio de um engarrafamento. Do hospital para casa.

Sim. Do hospital para casa porque sua mãe tivera alta, horas antes, por causa da demora do parto. O plano de saúde dos seus pais não queria pagar mais uma semana de internação. Ela já estava há quase quatro e nada do bebê nascer. Só para contrariar, a bolsa estourou no meio do trânsito.

O parto foi feito pelo próprio pai que, horas antes, reclamava, mal-humorado, do trânsito tão ruim que desejava estar num concorde. Querendo brincar com a situação, Seu Almir decidiu homenagear o avião supersônico e o batizou de Concórdio Diverges da Silva.

Apesar do hipotireoidismo com o qual nasceu e de ter emagrecido bastante com o tratamento, Concórdio cresceu saudável. Mas, aos cinco anos, já tinha as suas próprias opiniões. Só aceitava ordens dos pais quando eram necessárias para a educação. Era uma das poucas crianças que adorava comer verduras e legumes. Praticamente a única que não gostava de ganhar brinquedos. Pedia roupas e livros de presente.

Nas brincadeiras com os amiguinhos, sempre inventava uma coisa para discordar. Era chamado de chato. Na escola, costumava questionar as explicações da professora. Principalmente nas aulas de história. No teatrinho infantil, falava diálogos que não estavam no roteiro.

Quando chegou ao segundo grau, seus colegas organizaram uma passeata para derrubar um presidente da república. Concórdio se recusou a participar. Era o único contrário ao impeachment. Foi vaiado por todos. Mas não se importou com isso.

Filho de um casal de advogados, neto de juízes e sobrinho de procuradores, Concórdio decidiu cursar medicina. Apesar de não concordar em participar do trote e do chopp com os amigos no bar da esquina, o jovem enturmou-se facilmente com os colegas. Logo entrou no conselho do DCE da faculdade. Mas discordava de tudo e de todos. Suas ideias revolucionárias iam sempre contra aos interesses da reitoria. Era sempre voto vencido nas reuniões deliberativas. Suas sugestões nunca eram aprovadas. Abandonou o diretório. Formou-se.

Casou-se com Duadeleine Regina, a servente da universidade, magra como um esqueleto, corcunda, dentes superiores bem pronunciados, queixos pontudos, nariz idem. As olheiras chamativas como um panda davam-lhe um aspecto sôfrego e agredido. Isso não impediu a paixão de Concórdio pela moça. Tiveram dois filhos: Concórdio Júnior e Leila Sara.

Concórdio começou a exercer a profissão atuando como residente no hospital da universidade. Mesmo tendo uma rotina de quatro horas diárias para cumprir, fazia questão de trabalhar o dia inteiro no hospital. E ainda pediu para aumentar a carga diária. Achava pouco.

Odiava concursos públicos. Não fazia nem para a sua profissão. Graduou-se em uma faculdade particular. Sempre trabalhou em hospitais privados. Ganhou experiência e se tornou um cardiologista respeitado. Integrou diversas equipes médicas. Primeiro como terceiro auxiliar. Foi subindo até chegar ao posto de chefe. Em todas as posições que ocupou, sempre discordou dos companheiros. Recusou um cargo de diretor-geral no Instituto do Coração, em São Paulo. Ganharia cinco vezes mais. Quis ficar no Rio, onde nasceu e foi eleito presidente do conselho regional de medicina.

As suas ideias contrárias à maioria se tornaram a sua marca registrada. Muitas delas ajudaram a torná-lo um homem ético. Outras geravam críticas e protestos. Ficou famoso.

Opinava sobre todos os problemas do país. Não se importava em criar polêmicas. Porém, Concórdio estava consciente de que, com as suas opiniões, nunca seria eleito para nenhum poder legislativo. Tornou-se deputado federal ao herdar o mandato de um amigo de quem era suplente. Criou diversos projetos de lei benéficos para o país, mas contra os interesses de um estado democrático. Todos rejeitados. Ao votar nos outros projetos, era sempre vencido. Como nos tempos do diretório estudantil da faculdade.

Somente uma vez Concórdio concordou com a maioria. Votou a favor da absolvição de um colega deputado, acusado de corrupção ativa e quebra de decoro parlamentar. Não foi chantageado e nem coagido para defender seu companheiro de bancada. Votou por amor. Amor de pai. Concórdio Júnior foi absolvido por unanimidade.

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Navegando na rede, encontrei uma garrafa à deriva que transmitia a mensagem:

"Definição Blog: mídia virtual que geralmente mantém em contato um escritor egocêntrico e leitores bisbilhoteiros. Não sei o porquê, fiquei com rosto vermelho."

Como dizem: “ a carapuça serviu direitinho...”
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009




É uma boa pergunta curiosa esta!

Mas o que é verdade, é que nós pais, somos os culpados da alimentação dos nossos filhos. Levamo-los ao McDonald's vezes sem conta a comer aquela "maravilhosa" comidinha de plástico que eles tanto adoram, não lancham a meio da manhã nem a meio da tarde, a alimentação nas escolas também não é a mais saudável e, só à noite é que os nossos filhos se sentam à mesa connosco e têm uma refeição decente.



Os nossos netos, vão ser piores ainda!



Temos que evitar este mau hábito criado, e fazer com que quer eles, quer nós tenhamos umas refeições saudáveis.



Como fazê-lo? Muito simples.



A criança deve tomar o seu pequeno almoço à base de leite, iogurte, cereais pão com queijo, fiambre e uma peça de fruta. No lanche da manhã, deveria comer uma peça de fruta e umas bolachas de água e sal. Almoço normal e, a meio da tarde, um leite ou iogurte acompanhado de um pão. Ao jantar, o jantar normal, evitando nas grandes refeições, o abuso excessivo dos fritos.



A acompanhar tudo isto, exercício físico. Andar a pé, de bicicleta, são exercícios fantásticos para o bem da nossa saúde.



Evidentemente que uma criança não está parada o dia todo. Brinca com os colegas, corre, salta, mas o exercício mais cuidado, também não lhe faz mal nenhum!



Também não vamos proibí-los de ir de vez em quando à pizzaria ou ao Macdonald's, mas tentemos evitar.



Ao evitar isto, estamos a zelar pela saúde dos nossos filhos, pela nossa, evitando os excessos e as doenças que daí possam advir.
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A obra de Camões não é vasta.De facto, Os Lusíadas são a sua principal obra. Mas o poeta escreveu ainda uma ode, dois sonetos e uma elegia, publicadas em vida em livros alheios. Assim, a sua lírica é recolhida de manuscritos vários e de várias épocas, colocando-se a autenticidade de alguns poemas. Para terminar o estudo da vida e obra de Luís Vaz de Camões, falta ainda salientar uma outra emissão saída em 1980. Esta emissão é constituída por dois selos, picotados a meio, com os valores de 6$50 com o perfil do poeta e, ao lado, uma estrofe d’Os Lusíadas (III 20-11).


Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

No selo de 20$00, temos o mesmo perfil do poeta e um soneto.


Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo na esperança,
Do mal ficam as mágoas na lembrança
E o bem, se algum houve, as saudades.

Desenhados por J. Pedro Roque, estes selos são em papel esmalte F e denteados 12x12 ½.Foram impressos na Imprensa Nacional Casa da Moeda e circularam de 9 de Junho de 1980 a 31 de Agosto de 1989.


Lusíadas

Os Lusíadas são uma epopeia narrativa dos feitos gloriosos de um povo, que é o povo português. Estrutura externa – Divididos em dez cantos, cada um com um número variável de estrofes, somando 1102 todas oitavas de decassílabos heróicos, obedecendo ao esquema abababcc –rimas cruzadas nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos. Estrutura interna – Camões respeitou a estrutura clássica da epopeia, sendo que n’ Os Lusíadas são claramente identificáveis quatro partes.· Proposição – O poeta declara aquilo que se propõe fazer, os Portugueses conquistarem o Oriente,· Invocação - O poeta dirige-se às Tágides (ninfas do Tejo), para lhes pedir o estilo e eloquência necessários à execução da sua obra,· Dedicatória – É a parte em que o poeta oferece a obra a D. Sebastião,· Narração – Constitui o núcleo fundamental da Epopeia e que vem ao encontro da Proposição.Camões traça um plano de viagem. A viagem de Vasco da Gama para a Índia, como sendo o episódio mais significativo da nossa História. No plano mitológico, o poeta imagina um conflito entre os deuses pagãos, onde Baco se opõe à chegada das caravelas portuguesas à Índia, receando que o seu prestígio fosse colocado em segundo plano pela glória dos Portugueses, enquanto Vénus, apoiada por Marte, os protege. No plano da História de Portugal, o objectivo de Camões, era enaltecer o Povo Português, não distinguindo ninguém, introduziu na narrativa outros acontecimentos que valorizavam os portugueses, localiza o reino de Portugal na Europa e conta ao rei de Melinde a história de Portugal até ao reinado de D. Manuel pelo personagem Vasco da Gama. Os acontecimentos posteriores à viagem de Vasco da Gama não podiam ser introduzidos na narrativa como factos históricos. Para isso, Camões recorreu a profecias colocadas na boca de Júpiter, Adamastor e Thétis, principalmente. Por vezes, normalmente em final de canto, a narração é interrompida para o poeta apresentar reflexões de carácter pessoal sobre assuntos diversos, a propósito dos factos narrados.






(À D. Isabel, grande Amiga e Pedagoga, que me incutiu ainda mais o gosto pelas Línguas e Literturas Modernas)






Em 1931 e passando um pouco à frente do seguimento das emissões saídas depois do 4º Centenário do Nascimento de Camões, faz todo o sentido dar continuidade à obra referindo todas as emissões saídas até 1980. Como referi, em 1931, sai uma emissão Lusíadas desenhada por Pedro Guedes, com gravura de Arnaldo Fragoso. É uma emissão de dezoito selos em papel liso pontinhado em losangos horizontais e verticais de denteado 14, que circulara de Março de 1931 a Setembro de 1945. Reproduzo aqui o selo de 40 Centavos laranja vermelho. Em 1933, sai nova emissão d’ Os Lusíadas com novas cores e novos valores que circulam de Junho deste ano até Setembro de 1945 sobre papel liso denteado 14.



Reprodução do selo de 1$75 azul.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


Exibição do filme "A Paixão segundo Callado", hoje às 20h na Casa da Gávea.
A entrada é franca.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

Por Ed Santos

“Tio, posso dar uma olhadinha?” É assim que fui abordado quanto parei o carro em frente ao banco. Não bastasse aquele calor infernal e quase 10 minutos pra encontrar uma vaga. “Se é pra olhar, que seja bem olhado hein! Não quero nenhum pernilongo pousando ai em cima. Lavei o carro ontem!”, respondi tentando manter o ar de bom humor, e já me preparando pra arrumar umas moedas pra volta.

Sigo pro banco e fico numa fila daquelas, tipo centopéia e que demora uns 25 minutos pra que eu chegue no terminal. Não fiquei nenhum pouco nervoso quando o sistema ficou fora do ar quando restavam duas pessoas na minha frente. A saída foi respirar fundo, cantarolar algumas musiquinhas inconscientemente e esperar, porque a moça que faz a triagem no atendimento disse que “lá dentro caiu também e não tem previsão de volta, infelizmente”.

Meu dia de fúria estava começando. Precisava fazer um depósito e já eram quase três e meia da tarde. Não tinha conseguido sair na hora do almoço porque estava numa reunião tentando explicar pro meu chefe porque que eu não havia conseguido atingir as metas do mês. Depois ainda teria que explicar pra ele porque que eu demoro tanto quando vou ao banco.

O cheque ia compensar as 16h00 e eu ainda não havia conseguido sacar o dinheiro, até que às 16h10 eu saio correndo daquele lugar insuportável e atravesso a rua em direção ao outro banco pra agora fazer o depósito a tempo. Na saída percebi que o garoto que estava “olhando” meu carro, tava de papo com mais uns três, às gargalhadas enquanto fumavam tranquilamente uma bituca de cigarro que alguém havia jogado no chão.

Tive sorte que o sistema do outro banco estava funcionando normalmente, mas só consegui fazer o depósito às 16h23. Minha mulher não suporta quando um cheque dela volta. Saí enfim, daquela maratona em direção ao meu carro, louco pra ligar o ar condicionado e ficar alguns minutos pra ver se conseguiria secar a camisa toda suada. Lembrei que não tinha nenhuma moeda pra dar pro fumante mirim que estava a guardar meu patrimônio, e disse que depois dava um trocado pra ele. Ouvi um sarcástico “Vá com Deus!” acompanhado de um  “Deus  te dê em dobro!”.

Pior que isso seria chegar no escritório e encontrar palavras pra convencer o chefe que não entreguei o relatório por que o sistema da empresa “deu pau”.

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sábado, 24 de janeiro de 2009

Por Gustavo do Carmo

Um dia liguei o computador. Aliás, o notebook, recurso portátil ao qual finalmente tive acesso em setembro do ano passado como presente de aniversário. A banda larga sem fio estava totalmente disponível. Tinha todo o tempo do mundo, afinal, estava de férias em Cabo Frio.
Poderia navegar em qualquer site que eu quisesse. Só que, de férias, com os dois blogs em recesso até o final de janeiro, todos os contos para a nova temporada adiantados e todo o tempo do mundo, você acaba enjoando de acessar a internet e foi isso o que me aconteceu.

Decidi escrever uma crônica. Estava com uma idéia na cabeça há algum tempo. Porém, eu ainda não estava com o todo tempo do mundo para colocá-la no computador. Além disso estava quase me decidindo a escrever só contos em 2009, deixando as crônicas apenas para ocasiões especiais. No ano passado, durante o ano inteiro, alternei a programação do meu blog entre realidade e ficção. Quase, porque decidi continuar escrevendo crônicas. Achei que estava escrevendo muitos contos inverossímeis e crônicas de verdade quase nada.

Então, chegou finalmente o tal todo tempo do mundo. O tal dia em que eu liguei o computador, aliás, o notebook, o recurso portátil ao qual finalmente tive acesso em setembro do ano passado como um presente de aniversário. O tal dia em que a banda larga estava totalmente disponível.
Só que na hora do todo tempo do mundo cadê a idéia? Sumiu. Como toda coisa que eu guardo na cabeça e esqueço. Como todo escritor que está sem inspiração, dei uma volta. Mas pelo apartamento, porque já eram onze horas da noite. Além disso não podia sair na rua e deixar o notebook ligado.

Como todo escritor, acabei de escrever um conto sobre falta de inspiração. Na verdade, já estava quase desistindo. Já estava chegando a hora de eu contar as visitas diárias dos meus blogs (todos os dias por volta da meia-noite). E minha irmã acabou de chegar do Rio. Mas a idéia que eu tinha na cabeça, que não era essa, acabou voltando quando eu já escrevia esta crônica. Tratei de salvá-la no computador (o problema é se eu não esquecer do que eu ia desenvolver e acabar deletando ou deixando o arquivo esquecido roubando memória inútil do pen-drive).

Então, acabei escrevendo esta crônica, literalmente, tarde demais. Já era uma da manhã.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

PEDRO ALMODÓVAR



Anos atrás quando vi um filme de Almodóvar, considerei tudo muito tosco. Estava no cinema da faculdade e lembro que os alunos intelectuais olhavam-me com desprezo. Realmente, em muitos aspectos sou ignorante e ainda tenho muita coisa para aprender.

Com o tempo, percebi que o cineasta espanhol trabalha com várias referências artísticas e principalmente faz uma metalinguagem com o cinema e a televisão. Quero deixar claro, que não sou especialista em cinema e na filmografia de Almodóvar. Assisti alguns filmes que trabalham com esta metalinguagem.

Por exemplo, FALA COM ELA( 2002) há uma cena em que uma personagem( a toureira) é abandonada pelo namorado e ao dar entrevista num programa de televisão, se irrita com a apresentadora que faz perguntas sobre o relacionamento amoroso. Ela sai enfurecida, enquanto a apresentadora a agarra pelo braço e cai quando a outra dá um puxão forte. Não tem como fazer uma relação com alguns programas de televisão, que exploram o sensacionalismo e o mundo das celebridades. Também há no filme uma referência ao cinema mudo, logo o diretor insere uma pequena película dentro do filme, que narra a história de um cientista que faz uma experiência mal feita e começa a diminuir até desaparecer dentro do corpo da amada. Esta pequena história tem tudo a ver com o enredo Fale com ela, que conta a história do zelo e admiração de dois homens pelas suas amadas.

Outro dia, estava a ver um telejornal, aí, passou a notícia de que uma jovem foi encontrada soterrada e amarrada em um esgoto. O caso já era denso, mas o apresentador queria saber se, além disso, ela foi violentada. Parecia que necessitava deste detalhe a fim da notícia ficar mais redonda aos telespectadores. Logo, fiz uma relação com kika(1993) do mesmo cineasta, em que há uma personagem que aparece com roupas exóticas e apresenta um programa exclusivamente de tragédias. Ela corre atrás dos criminosos e faz como alguns reportes da vida real; transformam a desgraça alheia em showbiz.

As análises e a crítica de Almodóvar são ao mesmo tempo líricas, pastiches e paródias. Levei algum tempo para perceber a riqueza artística deste cineasta. Ah!! Antes que me esqueça:

Desculpa! Colegas intelectuais do tempo de faculdade.

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EU E O TELEFONE

Sempre trocamos olhares. Somos tão cúmplices que permanecemos num silêncio que diz tudo. Nosso companheirismo começou, quando cansado de esperar, acostumei-me com a casa quieta. Um dia ele tocou e em pensamento pedi para se calar.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009


As armas e os barões assinalados,

Que da ocidental praia lusitana,

Por mares nunca dantes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana,

E em perigos e guerras esforçados,

Mais do que permitia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino que tanto sublimaram;


Começa assim aquele que é o primeiro canto do mais famoso poema português escrito por Luís de Camões, evocando a epopeia dos Portugueses por mares adentro rumo ao Desconhecido, em busca de novas terras.Luís Vaz de Camões, era descendente de uma família galega. Não se sabe onde realmente nasceu. Provavelmente, terá vindo estudar para Coimbra, indo depois para Lisboa por volta de 1542.Com uma vasta cultura e talento, acedeu à corte de D. João III. Parte para Ceuta em 1549, onde perde uma vista. Regressado a Lisboa, pratica uma vida de boémia. Envolve-se em rixas tendo por isso sido preso. Liberto por carta régia de perdão, embarca para Goa onde começa a escrever Os Lusíadas. Naufraga na foz do rio Macom, salvando apenas Os Lusíadas. Passa fome em Goa tendo sido encarcerado por dívidas. Vem para Moçambique onde trabalha afincadamente na sua obra, mas vivendo da caridade.De regresso a Lisboa, publica Os Lusíadas com a ajuda de D. Manuel dedicados a D. Sebastião que, como sabemos, se perdeu na batalha de Alcácer Quibir.Luís Vaz de Camões vem a falecer numa casa na Caçada de Santana em Lisboa, tendo sido sepultado em campa rasa numa igreja próxima.(baseado na Nova Enciclopédia Larouse vol. 5)Desenhados por Alberto de Sousa, esta emissão tem por base Camões em Ceuta, Salvando os Lusíadas, Busto e Últimos Momentos, impressos em talhe doce na Waterlow & Sons, de Londres. As folhas eram constituídas de dez por dez selos em papel pontinhado em losangos e denteado 14 em linha.Circularam de 11 a 13 de Novembro de 1924.


(continua)
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


Por Gustavo do Carmo


Força através da alegria. Este foi o primeiro nome do nosso velho Fusca. Para aumentar a popularidade do regime nazista nos anos 30, o ditador Adolf Hitler encomendou um veículo robusto, resistente, que possa transportar quatro pessoas, trafegue continuamente a 100 km/h e custasse no máximo 1.000 marcos imperiais. Após a apresentação de protótipos da Daimler-Benz (atual Mercedes) e Opel, o engenheiro Ferdinand Porsche venceu a concorrência e levou adiante o projeto com o qual tanto sonhava.


O carro foi batizado de Kdf-Wagen. KDF são as iniciais de Kraft durch Freude, o que em alemão significa Força através da Alegria. Este era o lema do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. O carro foi lançado em 1938 e era vendido inicialmente através da compra de selos (como fazem os jornais populares de hoje).


O nome Volkswagen surgiu após uma irritação do ditador Adolf Hitler com um diretor da Opel que apresentara o seu “carro do povo” (volkswagen em alemão). Hitler respondeu: carro do povo só tem um, o Kdf-Wagen. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a produção do KDF ficou parada até 1948, quando a fábrica de Wolfsburg, destruída pelos bombardeios, foi reconstruída para voltar a produzir o Volkswagen. Naquela época, a fábrica passou a ser administrada por Heinrich Nordhoff, ex-diretor da Opel caminhões. Ele criticou e mandou fazer várias alterações no motor e no acabamento e o carro aumentou bem a sua produção, saltando das 10 mil em 1945 (ano do fim da guerra) para 25 mil unidades três anos depois. O Fusca reergueu a Volkswagen e a indústria alemã.


Em 1949, o Fusca começava a ser exportado. Holanda e Estados Unidos foram os destinos do besouro antes de chegar ao Brasil um ano depois, importado pela Brasmotor. Em 1953, em parceria com o Grupo Monteiro Aranha, a Volkswagen se instalava no país e abria a primeira linha de montagem em São Paulo. Junto com a Kombi, o Fusca passou a ser montado com todas as peças vindas da Alemanha. Com os incentivos do governo de Juscelino Kubitschek através do GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) em 1956, a Volkswagen inaugurou a fábrica de Anchieta em São Bernardo do Campo e em três anos, o Fusca já era inteiramente produzido no Brasil.


Quando chegou ao nosso país, o Fusca era chamado de Sedan e equipado com motor 1200 cm³ de apenas 36 cavalos de potência. As lanternas traseiras eram minúsculas e os vidros traseiros ovalados. Não tinha seta, a indicação de mudança de direção era feita por uma haste escondida na coluna central do carro e que era aberta mecanicamente ao virar o volante. Já em 1961, a primeira marcha passou a ser totalmente sincronizada, o chassi passou a ser nacional no ano seguinte, vieram as luzes de direção até que, em 1967, a cilindrada aumentava para 1300, com ganho de dez cavalos na potência. No mesmo ano, houve mais um aumento nas dimensões do vidro traseiro e mais melhorias no acabamento.


A partir dos anos 70, chegaram os motores 1500 (Fuscão) e 1600 (Super Fuscão). Em 1972, o Fusca batia na Alemanha o recorde de vendas do Ford Modelo T: 232.852 unidades. Saía de linha por lá em 1978, enquanto aqui ia ganhando pequenas alterações estéticas na traseira como a adoção dos faróis Fafá, em homenagem aos seios da cantora Fafá de Belém. Isso em 1980. Com a chegada do Gol, no mesmo ano, o Fusca começava a preparar a sua aposentadoria. Em 1983, o nome Fusca foi oficializado pela Volkswagen. Ganhou uma série especial em 1984, onde os destaques eram os novos revestimentos internos e o encosto de cabeça dos bancos dianteiros. Saiu de linha em 1986 para voltar a ser produzido em 1993, sob a chancela do então presidente da república Itamar Franco. Mas o Fusca ressuscitado só durou três anos até sair definitivamente de linha e deixar novamente na saudade os admiradores brasileiros de suas formas arredondadas, mecânica resistente e grande agilidade.


Em setembro de 2003, deixou de ser produzido no México, o último país que fabricava o besouro em todo o mundo. Seu sucessor espiritual dos novos tempos, o New Beetle, desenvolvido nos Estados Unidos, completou dez anos no ano passado.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A minissérie sobre a vida da cantora Maysa Matarazzo acabou, mas sua bibliografia continua viva nas livrarias. A primeira Dica da Segunda fala logo de quatro biografias sobre a artista (Descrições da divulgação para os dois primeiros títulos).

Maysa


A primeira, assinada pelo jornalista José Roberto Santos Neves, está sendo relançada de forma independente, com apoio da ArcelorMittal. Publicada pela primeira vez em 2005, dentro da coleção Grandes Nomes do Espírito Santo, a nova edição foi revista pelo autor, ganhando novas informações e mais fotos. Entre o acervo, algumas imagens raras, como da cantora quando bebê e de seu encontro com Edith Piaf, uma de suas inspirações, além da nova capa da artista plástica Lara Felipe, sobre arte de César G. Vilella - um dos mais requisitados artistas para confecção de capas da bossa nova.

O prefácio é de Ricardo Cravo Albin, pesquisador da MPB e amigo pessoal de Maysa. “Esta biografia faz de Maysa uma presença quase viva para novos (e velhos) admiradores do seu canto apaixonado. E, lembremo-nos, neste país sem memória, de que este esforço do José Roberto é a primeira biografia dedicada a Maysa, a musa “dos olhos profundos como dois oceanos inquietos”, disse Albin no texto. Além da vida da cantora, o livro traz ainda sua discografia, suas passagens pelo cinema e pela TV, reprodução de cartas, manuscritos das primeiras letras, matérias de jornal e o poema a ela dedicado por Manuel Bandeira.

Para escrever sobre Maysa, José Roberto Santos Neves realizou pesquisas e entrevistas com pessoas que conviveram com a cantora. Entre suas fontes, nomes conhecidos do mundo da música e da pesquisa musical como Roberto Menescal, Tito Madi, Gal Costa, Luiz Carlos Miéle, Sérgio Cabral, Ricardo Cravo Albin, e familiares como Jayme Figueira, Sérgio Sarkis e José Carlos Monjardim Cavalcante.

A biografia começa com a chegada da família italiana Monjardine ao Espírito Santo, no século XIX, e se estende pelos principais acontecimentos da música popular brasileira no século XX.

José Roberto Santos Neves
Editora Mauad
202 páginas
Preço sugerido: R$ 35,00



Maysa - Só numa multidão de amores


“Deusa das canções de dor-de-cotovelo”, “rainha da música de fossa”, “Edith Piaf dos trópicos”, a cantora e compositora Maysa foi uma personalidade muito mais complexa do que sugere sua imagem pública. Intérprete de clássicos da música brasileira como “Ouça” e “Meu mundo caiu”, a artista nascida no Rio de Janeiro em 1936 é tema dessa biografia escrita pelo jornalista Lira Neto a partir de pesquisas em arquivos familiares, de entrevistas com cerca de 200 pessoas (parentes, amigos, ex-namorados, ex-maridos, músicos, produtores) e, sobretudo, com base no acesso irrestrito ao diário íntimo de Maça.

O resultado é um retrato cheio de nuances de uma cantora que não apenas se tornou um ícone da vida boêmia, mas foi ela mesma uma cronista da vida noturna, escrevendo as letras de muitas de suas canções – num trânsito incessante entre as figuras da musa e da poeta.

O livro traz algumas importantes revelações, como a de que a primeira gravação de “O barquinho” – canção de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal que se tornou emblema da Bossa Nova – foi obra de Maysa, e não de Pery Ribeiro (conforme a versão corrente). Além disso, mostra como aspectos sombrios de sua personalidade eram vividos com intensidade e autoconsciência – como na passagem do diário em que a autora faz a seguinte anotação: “Há gritos incríveis dentro de mim, que me povoam da mais imensa solidão”.

Lira Neto
Editora Globo
400 páginas de texto
32 páginas de fotos
Preço sugerido: R$ 32,00


Meu mundo caiu



De autoria de Eduardo Logullo, esta é a biografia mais romanceada da cantora. Ou a menos linear e acadêmica.

Eduardo Logullo
Editora Novo Século
248 páginas
Preço sugerido: R$ 39,00



Maysa

Organizado por seu filho, o diretor da Rede Globo e da minissérie sobre a artista, Jayme Monjardim, é mais uma foto-biografia poética, com textos mais íntimos.

Jayme Monjardim
Editora Globo
200 páginas
Preço sugerido: R$ 44,00
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domingo, 18 de janeiro de 2009

Por Ed Santos

Um domingo desses aí, ela não tava muito a fim de fazer almoço. Então fui eu pra cozinha. Confesso que nunca fui muito de cozinhar não, aliás, lá em casa desde moleque a comida era servida pela minha mãe. Eu fui criado pela minha avó desde os quarenta e cinco dias de nascido até os seis anos de idade, quando meu irmão nasceu. O primeiro neto, mimado pra caramba, passava a semana inteira com as minhas tias que ajudaram a me criar.

Naquele tempo, lembro que minha mãe ia me levar logo na segunda-feira de manhã, a pé. Quando o tempo tava meio ruim, a gente ia no domingo de noite, e aí ela também dormia por lá. Na sexta-feira à noite ela ia me pegar e eu ficava em casa no final de semana.

Lembro que minha avó sempre tinha um prato pronto logo depois que eu tomava banho no início da noite, e uma imagem que eu me recordo muito bem é a do prato com arroz, feijão e bife, cortado em pedaços. Sim, a minha avó cortava a carne pra mim. Minhas tias morriam de inveja por que não tinham a mesma regalia. Mas o pior era quando minha avó pedia pra que uma delas fizesse o meu prato. 

Depois, quando fui morar definitivamente com meus pais, a situação permaneceu a mesma. Prato na mesa com arroz, feijão e bife em pedaços pra auxiliar na mastigação. Nunca tive o trabalho de usar faca pra cortar o que quer que seja na hora da alimentação. Tudo era facilitado pra mim.

Num dado momento da vida houve então a necessidade de me virar. Já adulto, morei um período sozinho e descobri que se não fizesse algo pra comer eu mesmo...

Com muito esforço, aprendi a fazer o básico: arroz, feijão e bife, inteiro. A primeira vez que me preparei pra almoçar sozinho, olhei pro prato feito e lembrei do bife em pedaços que minha avó preparava. Quanta saudade!

Dias atrás, fui almoçar na casa de uma das tias que ajudaram a me criar. Na nossa família nunca houve muito isso de cerimônia para comer. Sentar-se à mesa, garfo, faca, guardanapo, etc. A gente se virava, e se vira em qualquer lugar até hoje. Sabe aquela coisa de sentar no botijão de gás quando falta cadeira? Por aí.

Enquanto eu estava na sala conversando com um primo, minha tia tava lá na cozinha preparando o almoço. Quando me trouxe o prato, adivinha se o bife não tava em pedacinhos?
- Tia, já tenho quase quarenta anos! Pra que esse bife cortado em pedaços?
- Pra mim você vai ser eternamente criança meu filho. Não vai passar dos seis anos. Nunca!
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sábado, 17 de janeiro de 2009

Pois é, pessoal. As festas acabaram, as férias também. Está na hora de eu e meus colaboradores voltarmos ao batente. Este ano espero divertir os leitores e atrair investidores para o Tudo Cultural. Quero continuar contando com vocês. Está aberta a nova temporada com um novo visual e o conto Exasperado no post abaixo.

Bem-vindos a 2009!
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Por Gustavo do Carmo

Toca o telefone.

— Oi amor. Feliz Ano Novo.

— Agora que você me liga, seu cachorro! É tarde demais!

— Pô, amor. Não consegui ligar na virada. Todas as linhas estavam congestionadas. Esqueceu que todo mundo liga ao mesmo tempo?

— Ligasse depois.

— Então. Estou ligando agora.

— Ligasse por volta da uma da manhã, imbecil! Hoje já é dia 2 de janeiro.

— É que eu cheguei cansado da cobertura do réveillon aqui na Paulista. Caí morto. Chego ao Rio amanhã e a gente vê o amanhecer junto.

— Até pra isso está tarde demais. Amanhã já será o terceiro amanhecer do ano. Quando você chegar vamos ter uma boa conversa, isso sim!

— Então tá, Duadeleine! Passar bem!

Astroberto bate o telefone no gancho. Cinco minutos depois toca o telefone de Duadeleine Regina. Era Feliciana.

— Duda?!

— Oi, Fê?!

— Feliz Ano Novo!

— Pra você também! Mas por que não ligou antes?

— Desculpa. Eu tentei ligar na hora da virada, mas as linhas ficaram congestionadas.

— Ah! Então foi por causa disso que o Beto só conseguiu me ligar hoje.

— Pois é! Eu vou sair para a praia agora com o meu filho. Mais tarde eu ligo para a gente jogar conversa fora. Um beijo e feliz ano novo.

— Feliz ano novo.

Duadeleine ligou de volta para o celular do marido. Uma voz feminina atendeu.
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Por Gustavo do Carmo

Toca o telefone.

— Alô?!

— Selton?

— Sim. Quem fala?

— Aqui é o Leôncio.

— Diga. Selton usa um tom seco.

— Estou te ligando para desejar um Feliz Ano Novo e pedir desculpas pelo que eu fiz com você no início do ano.

Selton fica calado. Leôncio continua.

— Somente agora, perto do ano novo, caiu a ficha e eu decidi te pedir perdão por ter te proibido de divulgar o meu filme no seu blog. E também por ter colocado vírus na sua página de internet e ainda ter feito a sua caveira em um convite que iam te fazer para ser colunista de um jornal. Sabe como é, amigo! Eu tenho muita influência no meio.

— Eu já estava desconfiado destas duas coisas.

— Agora eu entendi o recado daquela sua crônica sutil contra mim. Mas você também pisou na bola, né, companheiro? Eu senti logo de cara que você andou me chamando de velho para os outros naquela mensagem que você mandou por engano no bate-papo. E nem me pediu desculpas.

— Eu não te pedi desculpas para não ficar bancando o inocente arrependido. Um professor meu uma vez me disse que ficar pedindo desculpas toda a hora é hipocrisia, pois a pessoa nunca vai se redimir dos seus pecados. Mas saiba o quanto fiquei envergonhado do que eu fiz. E entendi porque você mudou o seu tratamento comigo e parou de me telefonar todos os dias.

— Pois é. Agora quem te pede desculpas sou eu. Em que eu posso ajudar para corrigir o meu erro? Vou te indicar para escrever naquela revista famosa, onde trabalha um amigo meu. Ela paga muito bem. Vai gostar dos seus contos. E vou te chamar para você ser assistente de direção do meu próximo filme. E desta vez é pra valer. Não vou te barrar como da outra ocasião.

— Não precisa fazer nada, não. Deixa pra lá, eu te perdôo.

— Deixa de ser orgulhoso, rapaz! Eu sei muito bem que você está precisando de emprego. Agora deixa eu ir lá que os meus netos estão chegando para passar o ano novo comigo. Um Feliz Ano Novo pra você.

Leôncio desliga o telefone. Logo o seu celular toca.

— Selton, é a Keylane.

— Até que enfim você me ligou, hein? Ironiza Selton, que continua: — Você sempre falou comigo pelo bate-papo. Mas eu não te bloqueei não, viu?

— Eu sei. Eu ainda te vejo online. Mas preferi te ligar para dizer que você estava certo ao me chamar de insensível. Somente agora eu me toquei que você queria apenas desabafar os seus problemas e brincar comigo. Eu te julguei e ainda me achei no direito de me sentir ofendida com as suas brincadeiras. E ainda te chamei de egoísta. Isto você ainda é, mas entenda essa afirmação como algo positivo. A única coisa que eu ainda fico chateada é pela sua desconfiança ao conferir se eu fiz o depósito para comprar o seu livro. Mas eu também entendo a sua ansiedade.

— Pois é. Tudo que eu falava pra você eu estava errado.

— Ah, mas amigo não é obrigado a concordar sempre com o outro. Precisa censurar de vez em quando.

— Tudo bem, você está certa. Mas você não concordava com NADA do que eu falava. Pra você eu estava SEMPRE errado. Eu já estava com medo e vergonha de desabafar os meus problemas com você. Eu estava sempre errado, né? Por isso que eu me afastei.

— Está bem, Você está certo. Pode desabafar o que quiser comigo que eu concordo.

— Pode deixar que agora eu já tenho a minha psicanalista.

— Pois é. Você também falou dos meus problemas para a sua analista. Fiquei magoada com isso também. Tinha perdido a confiança em você. Mas agora eu te entendo. Me desculpa? Vamos voltar a ser amigos? Vamos conversar pelo bate-papo como sempre fazíamos?

— Pode ser.

— Então tá. Um Feliz Ano Novo pra você. Agora vou desligar porque a minha mãe está me chamando para ajudá-la. Tudo de bom pra você. Muita paz, muita alegria e quero voltar a ser sua amiga.

— O mesmo pra você, tchau.

Mal acabou de desligar, o celular de Selton toca de novo.

— Oi, Selton. Aqui é a Taviane. Estou te ligando para te desejar um feliz ano novo e dizer que eu esqueci todas aquelas coisas horríveis que você me disse há alguns anos. Somente agora eu entendo o momento pelo qual você estava passando naquela época. Agora estou ligando em missão de paz.

—Você não sabe o quanto fiquei arrependido de ter feito o que fiz. Você se tornou um fantasma na minha vida nesses anos todos.

— Eu sei. Quero voltar a ser sua amiga. Você aceita?

— Não.

— Tudo bem. Eu compreendo a sua resistência. Agora me deixa desligar que eu estou saindo para encontrar o meu namorado para a gente passar o réveillon juntos.

Selton já tinha desligado antes. Ele recebe mais um telefonema. Era o seu maior amigo e companheiro da faculdade.

— Selton, sou eu Renan. Estou te ligando para te avisar que somente agora eu percebi o grande sentimento de amizade que você tinha por mim. Amizade não. Fraternidade. Eu estou arrependido de evitar conversar com você e de te tratar com frieza quando você me procurava pelo bate-papo. Agora deixa eu ir que meus filhos estão me chamando para brincar com eles. Feliz Ano Novo!

Mais duas mulheres ligaram para Selton. Ambas desejando feliz ano novo e pedindo desculpas. Uma jornalista do interior pelo bolo que dera ao ter agendado uma entrevista e não comparecido. A outra, uma ex-colega de faculdade pela grosseria com a qual respondeu a um e-mail. Ela estava estressada com o trabalho e terminando com o namorado depois de dez anos de relacionamento. Esclareceu que o rapaz havia lido a mensagem e ficado com ciúme doentio. Nervosa respondeu daquela forma. Mas deixou claro não ter gostado da crítica com uma colega da turma que não tinha nada a ver.

Quando esta última encerrou a ligação, Selton foi abrir a caixa de e-mails. Quase todos os colegas da pós-graduação desejaram boas festas. O antigo coordenador mandou um convite pessoal para a exposição de arte da sua esposa. Uma outra mensagem se destacava. Era de uma outra jornalista, esta da capital:


Caro Selton,

Por acaso comprei um livro de contos que você publicou. Acabei achando aquele seu conto que o seu amigo virtual me recomendou. Somente agora eu revi os meus conceitos e mudei de opinião. Percebi o quanto as suas histórias são primorosas, apesar de alguns errinhos de gramática. Não são infantis como eu havia achado no início. Reli aquele outro e entendi o enredo da história e a sua intenção, que foi colocar sarcasmo em uma história realmente infantil.

Feliz Ano Novo!!
Mareliz Dantas


Um editor com o qual Selton havia feito contato pedindo uma oportunidade também mandou e-mail desejando boas festas e pedindo desculpas por ter achado todos os seus textos inverossímeis. Propôs editar um novo livro com um segundo volume de contos que Selton havia enviado. Desde que fizesse uma boa revisão que o rapaz iria ajudar. Por coincidência uma ex-professora de oficina literária se ofereceu para revisar os textos e diminuir as inverossimilhanças e incoerências que achou.

Animado com tantas mensagens de ano novo, pedidos de desculpa e propostas que recebeu por telefone ou por e-mail, Selton criou coragem. Ligou para a irmã mais nova para pedir desculpas por um grande erro que cometeu com a família.

— Liliane, sou eu, Selton. Feliz Ano Novo! Somente agora eu... A moça já tinha desligado quando ouviu que era o irmão. As outras três irmãs mais velhas fizeram o mesmo.
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