domingo, 16 de novembro de 2008

JOEIRA

Por Ed Santos

A relação dos dois já não era mais a mesma. Culpa dela que largou todo o sonho da adolescência e foi cuidar da profissão. Eles tinham compartilhado uma vida inteira desde sempre. A união acima de tudo e de todos. Ele o eterno servidor, ela a gestora. Era assim que queriam.

Quando se conheceram na década de oitenta, ela com quinze ele dezesseis, estavam descobrindo o rock nacional. Blitz, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana. Os ídolos iam sendo cada vez mais conhecidos e venerados. Passavam os dias embalados pela simplicidade dos acordes e pelos compassos enxutos. Ela vivia dizendo que Acrilic on Canvas era a música da sua vida. Aquela letra tinha tudo a ver com sua história até aquele momento.


O Eduardo e a Mônica eram as referências para os dois, não pelo perfil, mas pela fantasia, pelo enredo. Queriam ter um final feliz. Diferente do final da música, queriam levar os filhos pra viajar nas férias, sim. Sem recuperação.

Casaram cedo. Queriam curtir a vida e estudar, e o fizeram. Ele, foi ser contador, ela dona de casa. Ele trabalhava num escritório no centro da cidade e rotineiramente almoçava num restaurante por quilo que era divino. Sabe aqueles restaurantes que têm comida com gosto de comida caseira? Quase todos os restaurantes do centro servem comida com gosto de comida caseira. Pelo menos pra ele.

Ela que nunca tinha trabalhado, vivia fazendo cursinho de astrologia, artesanato. Às vezes ia pra academia e tinha aulas de inglês duas vezes por semana. Num dia ao sentar prum lanche no shopping, recebeu um cartão de uma senhora. “Me liga” disse a mulher, e retirou-se. Ela deu mais um gole no capuccino.

Passou a ficar por muitos dias longe do companheiro. Ossos do ofício. Do novo ofício, que se tornou único e responsável pela alteração da rotina.


Num domingo pela manhã ele foi buscá-la no aeroporto. Ela desembarcou feliz por retornar e pediu um abraço. Ele foi logo dizendo: “Fico triste quando você demora pra voltar. O Junior diria que ‘é só você que me provoca essa saudade vazia’. Parece que suas viagens nunca têm fim. Deixa essa vida pra lá. Não quero mais esse negócio de você longe de mim”.

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