domingo, 7 de setembro de 2008

UM CHOPINHO NO QUIOSQUE

Por Ed Santos
Dez/06

No telejornal ouço a notícia:
“Tempo bom com sol no início da manhã, mas com pancadas de chuva no fim da tarde”.

Acho que vai dar praia. O feriado prolongado promete e não guento mais ir no clube e ver sempre as mesmas caras! Penso em largar o escritório mais cedo e descer a Imigrantes no fim da tarde. O Paulinho que se vire sozinho.

- Alô, Marli? Vamos aproveitar o final de semana na praia. Vá arrumando as malas aí e deixe que eu pego as meninas no colégio. Vou sair mais cedo daqui. Me espera pronta!

Já são três da tarde, tomo o último cafezinho da Dona Socorro e me despeço. Liguei pro colégio das crianças avisando que vou busca-las mais cedo. Temos um sol de rachar. Desabotôo a camisa, afrouxo a gravata e boto Pink Floyd pra tocar. Caminho da roça.

- Paiê! Põe meu CD do Rebeldes?

- Agora não! Tô ouvindo meu som. Depois é a vez de vocês.

- Droga! Sempre que vamos viajar, papai põe essa música chata.

Pronto. Pegamos a Imigrantes. A ansiedade é geral dentro do carro.

- Meninas, quando pararmos pra comer não quero que tragam biscoitos pra dentro do carro hein? Comam por lá mesmo. Aqui, só uma balinha de coco. Amor, você pode mudar essa música aí? Põe um axé pra combinar com o feriadão. Olha que dia lindo! Quando chegar quero logo tomar um chopinho no quiosque. Que pena que a mamãe não veio. Adoro tomar um chopinho com ela.

Eu não conseguia mais ouvir meu CD. O barulho tava demais naquele carro. As meninas discutindo sobre qual era o carinha mais bonito do tal Rebeldes - meu Deus, onde elas descobriram isso -, e Marli, em outro mundo, tagarela com sua mãe no celular. Bem que poderia falar mais baixo.

No primeiro sinalizador luminoso: “Transito Lento”. Tentei descobrir onde estava e percebi que nem tínhamos passado pelo pedágio. Eram cinco e meia. Sabe como é, né? Antes de pegar a estrada, a Marli tinha sempre que passar no mercado, e fazer suas compras.

Olhei pro alto. O céu já não era o mesmo que às duas horas da tarde. As nuvens estavam sobrepondo o azul, mas aí pensei que era porque estávamos na serra do mar. Lá embaixo tá sol.

Depois de quase uma hora pra atravessar o pedágio, consegui colocar o CD do Pink Floyd pra rolar de novo, pois as meninas dormiam lá atrás, e a Marli aqui na frente também. Só percebi porque desviei a atenção pra dentro do carro, depois de perceber que estava garoando. Mas o otimismo sempre fala mais alto e lá embaixo com a certeza tá calor!

No entroncamento, a descida pela Anchieta era obrigatório. Ainda bem, porque a Marli não suporta passar por aquele túnel imenso da pista nova. Prefere os outros mais curtos da Anchieta.
O trânsito agora está ótimo. Vinte quilômetros por hora. Até aqui andamos o suficiente pra chegar na descida da serra, e chove desde as sete horas da noite. Agora estou ouvindo Rebeldes já pela segunda vez, e o pior é saber que por aí vem Harmonia do Samba. A Marli a-d-o-r-a o tal do Xandy.

São nove horas, e enfim chegamos. O apartamento estava com aquele cheiro terrível de naftalina, mas mesmo de agasalhos resolvemos abrir as janelas pra ventilar, pelo menos até ir dormir. O chope no quiosque já era.

Cansados da viajem rápida, fomos dormir, e eu pensando em como será o dia de amanhã...

Às sete levanto e Marli já está preparando o café.

- Você vai ter que pedir o guarda-chuva emprestado pro porteiro se não quiser comer pão molhado. A padaria é na esquina, logo ali, mas parece que o mar está encima da gente e não na frente. Puta que pariu! Que chuva!

Se as meninas não tivessem trazido o Banco Imobiliário, não sei o que faria após ter completado as duas palavras cruzadas que eu trouxe.

A minha paciência tava no limite e pensei que minha pressão ia chegar no céu. Vocês assistiram Um Dia de Fúria, com o Micheal Douglas? Não sabia mais o que fazer pra passar o tempo, e resolvi: amanhã subo a serra.

Antes de dormir tomei um chá de camomila e pus os fones de ouvido. Adivinha se não era Pink Floyd? Quando a Marli veio deitar, depois de apartar a quadragésima sétima briga das meninas. Criança já dá trabalho livre, imagine presa num apartamento minúsculo, e com um belo mar interditado lá fora?

Voltemos à cama. Eu dizia que acabara de tomar um chá, até achei que depois que a Marli deitou, iria rolar pelo menos um sexozinho. Tirei os fones e fui me chegando.

- Sai pra lá, que pra ajudar acabei de menstruar!

Que vida! Botei a bosta do fone de novo e fui dormir.

No outro dia, olhei pela janela e vi que a chuva estava parando, mas percebi que estava coberto com dois edredons.

- Marli vamos tomar café no rancho da pamonha. Acorda as meninas e vamo embora desse lugar. De hoje em diante só vou vir pra Campos de Jordão no inverno. Pelo menos não chove. E praia só na Bahia.

- E meu chope?

- Hoje eu compro um engradado de cerveja e você se acaba de beber. Aproveita e chama sua mãe pra ir lá em casa. Liguei pro Paulinho e ele disse que ta um sol de rachar lá em cima!

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