domingo, 18 de maio de 2008

BICHOS-FILHOS

Por Ed Santos

A Nanda adora cachorro. Tem três poodles: a Vida, o Otávio Cezar, e a Pretinha. Outro dia fui com ela levar a Vida no veterinário. Engraçado recepção de consultório de veterinário. Parece que você tá no pediatra. Você chega a moça pergunta se tem hora marcada ou é emergência, depois pede o nome e sobrenome. “Aguarda só um minuto tá?”, diz após ver a ficha cadastral. Sentamos, eu e a Nanda de frente prum painel, cheio de fotos das “gracinhas” que o doutor atende. Na sala, fora as latidas comuns, o silêncio entre os donos não demora a ser quebrado pela senhora com a gata no colo:
- O que ela tem que tá tão quietinha? É ela ou ele?
- É ela. Deu mau jeito nas costas. Tava subindo as escadas lá de casa, e de repente começou a gritar. Parecia uma criança chorando. – disse a Nanda esboçando tristeza.
- Essa raça é muito delicada né? Qual o nome da menina?
- Vida.
- Que linda! Eu. Tenho dois lá no sítio também. O Pupo e o Otelo. Vivem com minha menina aqui.
- E a gata o que tem? – perguntou Nanda, curiosa desta vez.
- Tem um tumor aqui no pescoço, tá vendo?
- Coitada, deve doer né?
- Ela sofre muito. Tive que trazer ela pro apartamento, porque lá no sítio os meninos, que são muito peraltas, não deixam ela em paz, né bebê? – responde a dona enquanto acaricia a gata. Aliás, uma bela duma gata. Enorme, forte, com os olhos inebriantes.
Engraçado o papo das duas. Falam como se estivessem falando de crianças mesmo.
A dona que carregava no colo um papagaio todo enrolado num pano, contribuiu com a conversa, e também a me convencer de que estavam falando de crianças que eram seus filhos, sim senhor.
- Meu filho aqui também tá sofrendo um bocado.
- O que aconteceu com teu bicho?- interroga a dona da gata.
- Ele tá estressado. A namorada dele morreu há um mês, e desde então ele tá assim. Fica se bicando todo até sangrar. Tá todo machucado. Tenho feito medicamento e curativo. A cada dois dias venho aqui, mas ele ainda não melhorou.
Fiquei mais convencido ainda quando vi que as histórias que escutávamos ali perturbaram a Nanda. A minha amiga tratava seus bichos com o mesmo carinho que àquelas pessoas, e vi que ela ficou triste e preocupada com a Vida.
Num outro canto um senhor com um passarinho inteiramente da cor vermelha, dentro de uma gaiola toda imponente, não parecia tão apreensivo quanto seus companheiros de recepção. A curiosa e falante dona da gata se dirigiu à ele:
- E o seu passarinho, o que tem?
- Ele veio pruma sessão de aromoterapia, pra reforçar a penugem, não é nada grave não.
- Graças a Deus né? Um bicho tão lindo você tem. Nunca vi assim todo vermelho.
- Veio da Austrália, e tá estranhando o clima aqui. Mas o doutor disse que ele vai ficar bom.
O que percebi é que as pessoas além de tudo têm a necessidade de falar, de contar seus problemas e de expor suas necessidades e as dos seus bichos. Acho que elas querem na verdade, é sentir orgulho dos “filhos-bichos” (ou será bichos-filhos?), que têm. Afinal são uma gracinhas.
A Nanda, emotiva que é, ainda bem que não viu a cena. Chegaram dois rapazes e uma senhora segurando uma caixa de papelão, os três chorando. A recepcionista pergunta se foram eles que ligaram minutos antes, e diante da afirmativa, sai da sala abrindo uma porta lateral e logo vem uma assistente do doutor. O doutor estava atendendo a Vida. A assistente leva a caixa e minutos depois chama os três. Todos naquela sala olham-se preocupados, e ao mesmo tempo curiosos. “É a Flora, gatinha deles que não tá muito bem”, diz a recepcionista, percebendo o clima e o silêncio na sala.
Pronto, mas um bicho com nome de gente.
Logo, saem os três chorando mais ainda e com a caixa de papelão vazia nas mãos.
- Deus levou minha filhinha! – chorava a senhora amparada pelos dois rapazes.
Um deles se dirigiu à recepcionista pedindo para que ela providenciasse tudo.
A Vida, continuava lá dentro sendo avaliada pelo doutor.

Um comentário:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

Caro Ed,

Bom conto o seu.
Aqui há uns anos, no local onde trabalho, apareceu um cachorrinho abandonado. Simpático! As alunas, pediram-me para o levar, pois seria um bom intertém para a minha filha...
E lá touxe o cachorro
Esteve lá em casa três, quatro anos. Até que no início deste ano, o bicho faleceu no veterinário... ao colo da minha mulher!
O Ed conta como as pessoas se afeiçoam aos bichos fazendo deles filhos, quase. Não era o meu caso. Mas que tive pena do animal, tive. Era um bom vigia e nosso amigo.

Abraços!

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