domingo, 27 de abril de 2008

Nunca mais feliz

Regina foi abordada na saída da boate, às sete da manhã. As olheiras acusavam que a noite foi intensa, e o prazer também. Trabalhar era sua vida, mas o sonho ainda ia se tornar realidade. Adorava viver seu personagem, e o prazer, este era o da representação.

Ele perguntou onde ficava a Caio Prado, e ela disse: - Logo ali. Primeira esquerda, no farol.

Ela desapareceu subindo no ônibus, sem perceber que ele a fitara até o fim de seus passos curtos, e só então dobrou a esquerda.

No primeiro drink estava o desejo de revê-la e sugar-lhe até revelá-la. Ela aparece.

- Acho que já te vi hoje né?

- É. Eu também. Dormiu bem?

- Dormi. A tarde toda. E você? Achou a Caio Prado?

- Achei. Não sou daqui. Moro no interior, e vim procurar uma coisa, mas acabei achando outra.

- Preciso ir. Meu show é agora.

Regina estava acostumada com os olhares masculinos, mas nunca ninguém botara tanto reparo nela como aquele cara. Algo que nunca tinha vivido. E chamou sua atenção. Seria coisa do interior? Subiu no palco para sua apresentação, e sabia que seria difícil tirar os olhos dele. A cada movimento, cada passo de sua dança sensual, ela insinuava que havia percebido a intenção real do tal cara da roça.

- Betinho! Manda um cheeseburger, que tô virada de fome!

Enquanto matava quem tava matando-a, Regina percebe que está sendo observada, e que ele não tirava o olho. Sentiu-se numa sessão paparazzi.

Depois do lanche, saiu e foi ao camarim. Quando voltou, ele a esperava no corredor, e agarrou-a sem uma palavra sequer. Um beijo que só os dois souberam a intensidade.

- Betinho! Um Martini aqui pra moça! – E voltando-se à ela – Você parecia um anjo com aquele vestido azul.

- Minha saia era marrom! E a blusa era bege! – Disse ela, desanimada. Ele não havia prestado tanta atenção assim.

- O de hoje de manhã era azul. Com três botões atrás. E naquele saltinho, ficou perfeita. Se bem que, por si só, não há a necessidade de adornos.
O olhar de Regina entregou. Ela adorou o comentário.

Desde então, toda noite de show da Regina, ele ia até a boate. Já havia se mudado definitivamente para a capital, e íntimo de Betinho, pedia pra entregar bilhetes com poemas e mandava decorar com flores o camarim de Regina. Ela não conseguia esconder a satisfação de ser cortejada como se tivesse passando de mini-saia em frente a um campo de futebol de várzea, ou num canteiro de obras.
Naquela noite, ele abandonou o Martini e foi de uísque caubói:

- Te quero hoje! Você não sai daqui a não ser que seja comigo! Teu corpo é meu!
Apesar do frio, Regina corou a face e não conseguiu dizer não. Aquela noite aconteceu seu último show. Estava de partida pra uma outra turnê.

Engraçado como o amor de esposa e diferente de amor de amante. Ele agora só amava Regina como esposa…

Agora era cuidar da casa, dos filhos… A vida lá fora acabou e o sonho se perdeu. A Caio Prado ficou longe.
De noite, ao esperá-lo em casa, Regina sentada na frente do espelho lembra das noites, dos preparativos para o show, maquiagem. Lembrava dos olhares masculinos, como a tirar-lhe fotografias. Mais pra raios-X de tão profundas. Das cantadas mil e dos bilhetes que Betinho entregava – Vinícius, a Vinícius de Moraes, quanta saudade. Saudades das flores no camarim. Do Martini que a conduziu ao amor verdadeiro. Que pena.

A estrela passou a brilhar num único e diferente céu, e seu resplendor foi abafado.

Romance com Martini, flores no camarim e Caio Prado, nunca mais.

Nenhum comentário:

Arquivo do blog