Conto de Gustavo do Carmo
Originalmente publicado em 4 de julho de 2016
Os pais de Ian descobriram o seu autismo quando ele tinha doze anos. Pouco
depois do quinto aniversário do menino, seus pais começaram a desconfiar da sua
especialidade ao saberem que, no jardim de infância, meses depois de entrar,
ele ainda não tinha feito nenhum amiguinho.
Ficava quieto no parquinho, sem falar com ninguém. Brincava com um
relógio digital, daqueles com cronômetro. Se entretia tentando cravar os
milésimos no 000. Não olhava para os colegas, nem para a professora, e ainda agredia quem
tocasse nele, não importando se fosse colega, funcionário da escola ou
professor, ficando de castigo algumas vezes.
O único que conseguiu ser seu amigo foi Roberto. Este o abordou
oferecendo-lhe metade do seu lanche na hora do recreio. Ian fitou o sanduíche
por mais de um minuto e comeu. Mas se recusou a brincar com ele nos brinquedos
da escola. No dia seguinte, Roberto fez o mesmo gesto. Ian voltou a olhar para
o biscoito e comeu. Desta vez, o amigo perguntou de que ele estava brincando.
Ian respondeu:
— Não sei.
Roberto pediu para ver o cronômetro e Ian o empurrou. O amigo foi embora
chorando. Mas voltou no dia seguinte, com um cronômetro parecido. Ele se
aproximou do colega e disse:
— É de zerar o cronômetro a sua brincadeira? Trouxe um para brincar
também. Vamos brincar?
Ian não respondeu. Roberto continuou brincando na dele, ao lado de Ian,
que permanecia em seu mundo. Roberto dizia:
—Ah, perdi. Você ganhou.
Ian enfim olhou para o colega, sorriu e mostrou o seu cronômetro, que
estava zerado nos milésimos. Os dois passaram a brincar juntos no mesmo
cronômetro de Ian, que zerou todas as dez rodadas que fizeram. Roberto só zerou
uma vez.
Mesmo com a amizade de Roberto e com alguns coleguinhas rindo dele, mas
sem agredir, Ian continuou na escola. Os pais acharam que o seu problema fosse
apenas timidez. Até que ele chegou aos 12 anos, quando os pais, percebendo o
seu comportamento ainda pré-escolar, finalmente decidiram levá-lo ao psicólogo
que identificou o autismo.
Aliás, uma psicóloga, que era eu, Doutora Miriam. Tratei do Ian dos seus
doze aos vinte e dois anos. Durante esse período ele continuou estudando. E o
incentivei, inclusive a se defender dos colegas que praticavam bullying contra
ele. Claro que eu também tentei ensiná-lo a conviver com outras pessoas.
Roberto já tinha se afastado dele. Foi morar com os pais transferidos para
Porto Alegre quando estava na quarta série.
Também dei o maior apoio para ele fazer uma faculdade. Ian tinha uma
inteligência acima do normal. Passou em primeiro lugar para a faculdade de
ciências da computação.
Não sofria tanto bullying quanto na escola, mas
era ridicularizado pelas costas. Abandonou a faculdade mesmo com os meus apelos
para continuar. Não aguentava mais ser esnobado pelos colegas e também por
alguns professores arrogantes. O pai tentou colocá-lo para trabalhar na loja de
autopeças da família, mas ele não se adaptou. Fazia escândalos e assustava os
clientes. Eu o consolei dando o meu amor para ele. Nos apaixonamos e nos
“casamos”.
Fomos vítimas de discriminação. Não só por eu ser dez anos mais velha do
que ele, mas pelo seu comportamento. Para começar, precisei deixar de ser a
terapeuta dele.
Das pessoas, o meu primeiro marido ficou debochando do meu novo amor, me
chamando de samaritana e fada madrinha sexual de “deficientes”. Sofria com o
machismo e os ciúmes do meu ex-marido. Mesmo assim, fui traída, trocada por
outra mulher mais gostosa. Ele, que é advogado, chegou a me denunciar para o
conselho, mas não deu em nada, pois já tinha deixado de tratar o paciente.
Meus pais também foram contra, achando que eu merecia alguém “normal”.
Segundo eles, não é porque eu sou psicóloga que tenho a obrigação de me casar
com os meus pacientes.
A maioria dos meus amigos se afastou de mim e passou me boicotar, não me
convidando para festas e reuniões em restaurantes, principalmente depois que um
deles - que estava na fila para me namorar após a minha separação - ofendeu o
Ian, que fez um escândalo. Só uma amiga me apoiou, embora tenha me alertado que
um autista também é capaz de trair. E eu sabia disso.
Da família do Ian só tive apoio do pai dele e dos primos. A mãe me
acusou de sedução de incapaz. Chegou até a me denunciar à polícia e a denúncia
também não resultou em nada. A irmã envenenava-o contra mim, insinuando que eu
não demoraria a traí-lo.
Sem nos importarmos com o preconceito, decidimos nos casar apenas no
religioso, na igreja onde ele foi batizado, na Tijuca. A mãe e a irmã aceitaram
a contragosto e depois até tentaram ser minhas amigas. Choraram compulsivamente
no altar. Meus pais não apareceram no meu segundo casamento. Já o Roberto,
amigo de infância dele, estava lá, recém-formado em direito.
Eu entrei na igreja vestida com um tomara-que-caia azul (a cor preferida
de Ian), bem decotado e com uma cauda de três metros. Ian estava vestido de
fraque branco, brincando com o seu cronômetro no altar enquanto me esperava.
Não fizemos festa. Ele não suporta barulho e muita gente reunida. Aliás, nem
fizemos a fila para os cumprimentos (que ele também odiava). Acabou a cerimônia
e fomos direto para a minha casa no Leblon, onde eu continuei morando depois
que eu fui abandonada pelo Marcos, meu ex-marido. A mãe dele foi morar conosco
para supervisionar o Ian. Caminhamos até o carro, sem latas penduradas no
para-choque, dirigido por seu pai. Também não houve chuva de arroz.
A nossa primeira vez foi na noite de núpcias. Fiquei nua na frente dele
pela primeira vez. Ele também estava nu. Tocou no meu seio esquerdo, de tamanho
médio, e tirou rapidamente a mão. Ele quase fugiu do quarto, mas eu o
segurei a tempo pelo seu braço. Beijei a sua boca com carinho e cuidado. Ele
concordou e voltou a tocar no meu seio, desta vez, o direito. E apertou forte e
doeu. Em seguida ele os beijou e chupou. Depois tocou no meu sexo peludo. Bem,
chega de detalhes eróticos. Transamos, enfim.
Engravidei de primeira. Passaram-se nove meses e dei à luz Camila, nossa
primeira filha, que nasceu e cresceu sem problemas. Ian não assistiu ao meu
parto normal. Tinha medo de sangue. Tinha medo de hospital. Esperou na casa dos
pais. Foi linda a cena em que ele pegou na filha pela primeira vez. Parecia uma
criança segurando o irmãozinho recém-nascido.
Só não foi lindo o que ele fez comigo depois. Passado o nascimento da
Camila, estava incomodada com o pouco interesse sexual dele. Tentava seduzi-lo,
mas ele não se interessava. Tinha medo de cobrá-lo. Quase procurei o Fábio,
aquele cara que arrumou confusão com o Ian no barzinho, para sair. Fui traída
primeiro.
Ian já tinha vinte e seis anos quando conheceu Adriana. Ela era filha de
uma ex-colega de ensino médio, que soube que eu casei com um autista e ficou
curiosa. Adriana também era e fazia o mesmo tratamento do Ian desde os doze
anos. Já estava com dezoito. A culpa foi minha de ter apresentado o Ian a elas.
Os dois se deram tão bem que eu não imaginava que chegaria ao ponto que chegou.
Um dia, achei perto da porta do consultório, aparentemente passado por
baixo dela, um bilhete anônimo, que dizia com letra impressa em computador e em
caixa alta: SEU MARIDO ESTÁ TE TRAINDO. Achei uma piada de muito mau gosto.
Queria saber se foi o Marcos ou o Fábio. Como pode eu estar sendo traída por um
homem autista? Me lembrei do alerta da Geiza, aquela amiga que apoiou o nosso
romance, mas me avisou de uma possível traição.
Ignorei. Não deu nem tempo para pensar em investigar. Cheguei em casa,
encontrei a minha sogra brincando com a Camilinha, e ela logo me disse que o
Ian estava desde cedo trancado no quarto com uma moça com comportamento igual
ao dele. A pista da Dona Jurema foi certeira como os cronômetros que ele
cravava. Era Adriana quem estava com o meu marido.
Corri até o quarto, bati na porta educadamente e não fui atendida. Bati
mais forte e novo silêncio. Ouvi gemidos e gritos, tanto dele quanto dela.
Arrombei a porta e flagrei Ian em cima da minha paciente. Os dois nus. Dei um
grito.
— IAN E ADRIANA! O QUE SIGNIFICA ISSO???
Adriana gritou e chorou. Dona Jurema correu para socorrê-la e acalmá-la.
Fui embora. Ian foi atrás de mim, ainda sem roupas, e disse na minha cara, nu
no hall do prédio, que não me amava mais. Que eu era muito normal para ele, que
ele tinha encontrado a mulher ideal e queria se casar com Adriana. Fiquei
arrasada.
Nos separamos. Deixei a Camila com a avó e a tia, pois o pai não tinha
condições de criá-la e eu não queria esquentar a cabeça com briga de guarda.
Me casei com o Fábio, que é rico. Na psicologia, passei a me dedicar aos
idosos, especialmente mulheres, para não me envolver com os meus pacientes para
depois ser traída.
Ian foi morar com Adriana. Tiveram uma filha autista, que batizaram de
Daniella. O meu filho com Fábio também nasceu com autismo. Senti saudades do
meu ex-marido especial.
Traí o Fábio e perdoei Ian, que também havia sido abandonado por
Adriana, que foi morar com o seu terapeuta e levou Daniella.
Voltamos a morar juntos com a nossa filha Camila e o meu filho Giovanni.
Dona Jurema e Iara, a irmã, não se opuseram a perder a guarda da menina para
Ian. Afinal, ela sabia que a traição tinha partido dele. E Fábio também não se
importou que eu levasse Giovanni, pois não tinha gostado de gerar um filho
autista.
Eu, Ian, Camila e Giovanni passamos a viver como uma família feliz,
brincando de zerar o cronômetro todos os dias. Ao mesmo tempo, estava me
sentindo vingada pelo chifre que eu levei do Ian.
Este conto não teve a intenção de ofender,
debochar e nem rotular os portadores de autismo, pois eu também sou e pelos
quais tenho sincero respeito.




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