O CAÇA-TALENTOS


Conto de Gustavo do Carmo 
Originalmente publicado em 2 de agosto de 2021



— Não, obrigada.

...

—Não.

...

— Não.

...

— Não.

...

— Não. Sou jornalista. Posso ser demitida.

...

— Meu marido é muito ciumento.

...

— Vai atrapalhar a minha carreira de cantora.

...

— Sinto-me muita honrada pelo convite. Mas sou policial. Serei exonerada.

...

— Não. Meu pai não deixa. Ele é muito religioso.

...

— Não posso. Tenho filhos pequenos e eles podem sofrer humilhações na escola.

...

— Não é não! E se insistir, te processo por assédio!

...

— Quanto é o cachê?

— Cem mil reais!

— Só??? Só tiro a roupa por um milhão. Recusou a ex-participante do reality-show.

...

— Eu quero posar nua para você. — Aceitou a única mulher que Deolindo convidou para a nova revista masculina do amigo que o contratou para selecionar mulheres, entre comuns, atrizes, cantoras e modelos.

— Er... Então me dá o seu nome e telefone que a gente entra em contato.

— Olha, eu sei que é prática de vocês pedirem o meu telefone. Mas pela sua cara percebi que você não vai me ligar. É porque eu sou preta, gorda e favelada?

— Não! Imagina!

— É, sim! Eu vou te processar por racismo e gordofobia, seu safado!

Feio, tímido e sem jeito para convencer mulheres a tirar a roupa, Deolindo não conseguiu ninguém para estrelar o primeiro número da revista Beauty Nude. A não ser um processo por racismo, assédio sexual e danos morais. Foi preso e assumiu toda a culpa para não complicar o negócio do amigo.

Acabou absolvido por falta de provas. Causa ganha pela competente e bela defensora pública Milene Batista, uma morena clara de seios fartos e olhos verdes. Deolindo chegou a ser dispensado pela publicação, mas Edgar, o dono da revista, o readmitiu. Depois de saber da sua ingrata missão, Milene topou posar nua para salvar o trabalho do cliente, novo amigo e depois marido.

O ensaio foi um sucesso e quem passou a ser responsável pelos convites para os ensaios foi a própria Milene, que conseguiu contratar uma grande jornalista para a capa da edição de aniversário. Deolindo passou a ser o redator-chefe e entrevistador da publicação, que não chegou a comemorar os dois anos, pois foi derrotada pelas fotos pirateadas na internet.
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