Cartas para ninguém (61, 62, 63 e 64)



- 61
Ontem foi o dia que eu conheci os pais da Karen. Não vou te dizer que foi um completo desastre, mas também não foi tão bom e tranquilo quanto ela me disse que seria.
O pai era um daqueles que discutem política, religião ou futebol por qualquer coisa e querem ganhar o argumento a todo custo. Não preciso dizer que ele não foi com a minha cara.
A mãe, ao ouvir de Karen sobre você, também não gostou. Não disse nada rude, mas deu pra perceber só de olhar.
Será que ela foi adotada?
Talvez você diria algo assim, não é mesmo?
Mas infelizmente não, ela é a cara do pai e da mãe, não tem como negar.


- 62
Depois daquilo parece que a vontade de fumar voltou. Disse a Karen o que estava acontecendo, porque como você sabe, eu acho que para se ter um relacionamento saudável tem que haver comunicação e honestidade.
Ela lamentou o modo que seus pais se comportaram e perguntou se eu precisava ir a uma reunião.
Eu disse que não, que ia ficar tudo bem.
Mas lá no fundo, meus pulmões estavam clamando por alguma fumaça.


- 63
Hoje, pela primeira vez, eu entrei no seu quarto e não senti meu estômago revirar.
Talvez tenha sido pela quantidade de vezes que eu te vi ali e tenha me acostumado de verdade.
Uma pontinha de mim não queria que isso acontecesse.


- 64
Ontem, também, pela primeira vez, eu cheguei mais perto de você e consegui sentir um traço do seu perfume, lá longe.
Isso me deixou um pouco feliz.


Parte 16 do conto de Lucas Beça

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