quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Olhar


Quando eu falei para a moça à minha frente que estou escrevendo um livro, a expressão no rosto dela me fez sentir como se eu possuísse alguma doença contagiosa e terminal.
Eu relevei, afinal ela me conhece há pouco tempo, não entende como entendem meus outros amigos mais velhos como eu sou.
“Hemerson. Obrigada por ter vindo comigo.”
“Sem problemas. Sempre quis conhecer um lugar como esse.”
Estamos num hospital psiquiátrico, o que antigamente se chamava manicômio ou sanatório, popularmente chamado de hospital para doidos. Confesso que sempre nutri um medo ridiculamente infantil por lugares assim, pois imaginava que quando entrasse eles me fariam perguntas e minhas respostas inevitavelmente os fariam me trancarem ali pelo resto da minha vida.
Estamos aqui porque a irmã dela teve, segundo suas palavras, “um surto, ela enlouqueceu de uma hora pra outra”. Claro que existe um termo mais técnico e, particularmente mais bonito, para isso, algo como transtorno bipolar, esquizofrenia etc, mas essa moça ao meu lado não sabe dizer qual o nome e muito menos explicar, o que é uma pena, já que eu gostaria de saber os detalhes. Geralmente não tenho muito tato e logo pergunto sem cerimonias sobre essas coisas, mas, aconselhado por outra amiga, eu me contive.
Quando entramos na sala dolorosamente branca e asséptica uma jovem aparentando uns 20 anos, cabelos castanhos desgrenhados, mas rosto bonito, apesar de sempre parecer que viu um fantasma, estava debruçada sobre umas folhas de papel e desenhava. Eu não consegui ver os desenhos, mas ao entrarmos ela parou, ergueu o tronco com um suricate, me olhou com olhos injetados, rasgou uma das folhas e pegou outra para desenhar.
Estamos agora sentados numa mesa com cadeiras de madeira desconfortáveis e eu sinto cheiro de café vindo de uma espécie de cantina.
A irmã dela vem acompanhada por uma mulher entre os 40 anos, com expressão simpática, mãos aracnídeas e cabelos grisalhos. Elas parecem ser gêmeas, mas não são. Não a conheci quando estava bem de saúde, mas mesmo ali, com sua expressão anuviada, como se seu próprio eu estivesse perdido dentro de seu corpo, ela me passou a impressão de ser uma pessoa interessante.
Unindo o desejo de tomar café e a oportunidade de deixar ambas a sós com sua privacidade, levantei e fui até onde uma senhora gorda desligava a cafeteira e servia para si mesma uma xícara de café. Pedi uma também.
Ao meu redor existem pessoas que olham pela janela como divisando o horizonte em uma paisagem pintada a óleo. Outras apenas enterram suas cabeças nas mãos, balançando para a frente e para trás. Outras estão em pé conversando consigo mesmas. Alguém me disse certa vez que essas pessoas estão assim porque foram a outro lugar, outro mundo, e não encontraram o caminho de volta. Besteira, claro. Existe toda uma explicação biológica para o que aconteceu com eles. Mas a gente sempre se apega mais às explicações enfeitadas.
Passeio um pouco e penso o que me impede de estar ali com eles. Que linha tênue não foi rompida em mim que me separa deles? Como a irmã de minha amiga, bastou o intervalo de uma respiração para que ela caísse no abismo que agora se encontra e continua caindo.
Passo pela mesa da moça de cabelos castanhos desgrenhados e observo o que ela está desenhando. Quase me engasgo com o café.
Ela está desenhando meu rosto. É um talento impressionante. O mesmo rosto que eu já vi nos espelhos e em fotografias, está ali esboçado em grafite por uma dessas pessoas que “se perderam”.
Eu arrisco:
“Poxa, meus parabéns. Você desenha muito bem.”
Ela ergue os olhos para mim e abre um sorriso que mais parece uma ferida aberta e fala:
“Ainda não terminei.”
Ela está terminando a boca. Até o sinal que tenho no lábio superior ela desenha e fico estupefato com a quantidade de detalhes que ela capturou de mim com uma simples olhada. Mas quando ela termina a boca algo estranho acontece.
Ela está desenhando uma espécie de linha em minha boca, como se estivesse costurando meus lábios. É isso mesmo, ela está costurando meus lábios e quando termina a ponta solta do barbante no canto de minha boca, me olha e me entrega o desenho falando:
“Pronto. Agora eu consertei você.”

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