quarta-feira, 18 de julho de 2018

Cupido



Vejam até que ponto eu cheguei. Estou aqui num daqueles encontros de casais, onde você passa alguns minutos conversando com uma pessoa até o sinal tocar e ter que mudar de mesa para conversar com outra pessoa. Não sei como fui convencido a participar disso, mas já que aqui estou, vamos encarar.

O sinal toca e eu me dirijo à primeira mesa. Quando sento o cheiro que sinto é de um perfume muito gostoso, exalando de uma morena de olhos profundamente negros e lábios carnudos, argolas pendendo de suas orelhas e cabelos cacheados. Ela abre um sorriso e diz oi e eu respondo oi e agora nós temos uns dez minutos para nos conhecer, só que um minuto já foi o suficiente.

“Meu nome é Letícia, tenho 23 anos, 3 filhos, tô separada há 3 meses, faço um curso de artesanato durante a manhã e trabalho numa loja de roupas à tarde, deixando as crianças com minha mãe, que mora sozinha e também cuida de 2 cachorros, mas que, apesar de já estar com quase 60 anos, encontrou um par nas reuniões de apoio pra ex viciados em soníferos que já há 5 anos ela frequenta, um velhinho legal, charmoso, cheiroso e inteligente. Eu adoro cozinhar, você precisa experimentar minha paella, e ver séries, filmes, cinema, de ir à praia, mas faz muito tempo que não vou à praia, e um de meus filhos tem alergia ao sol, tem que usar aqueles protetores absurdos de potentes, olha quanto tempo não vou à praia, tem nem a marca do biquíni mais. Todos meus filhos estão na escola, você tem que conhecer a mais velha, muito inteligente, e inquieta, sempre tá lendo ou inventando alguma coisa, eu acho que ela já me ensinou umas 100 palavras que eu não conhecia e desenha muito bem também. Ela deve ter puxado ao pai. Meu ex e eu nos separamos porque o casamento não ia durar muito mesmo, a gente já tinha terminado e voltado umas 4 vezes, aí eu desisti. É a minha terceira vez aqui, ainda não conheci ninguém interessante e nunca te vi por aqui, deve ser sua primeira vez, mas assim, só de olhar pra você eu já imagino que seu tipo de mulher é parecido comigo. Você deve ter uns 30 anos, eu acho, alguma coisa em volta dos seus olhos me diz isso. Eu sou boa de ler as pessoas, sabe? E não deve ter filhos, eu imagino, sabe, eu, só de olhar pra um homem sei se ele tem filhos ou não. Posso dizer que é algo no cheiro deles e você não cheira a pai.”

Ela finalmente respirou.

Ok, eu falei cedo demais.

“Você deveria ser pai, pois é uma experiência única. Meu ex ama os filhos, que no caso são dois, a mais velha eu tive quando tinha 17 anos com outro cara. Ele morreu, inclusive, alguma coisa no fígado dele, não sei se foi bebida, mas deve ter sido. Espero que meu passado não te assuste. Tem homens que tem certo receio da história de algumas mulheres. Eu acho muito machismo da parte deles, a gente já tá em 2018 e as pessoas ficam perdendo tempo com besteiras ultrapassadas. Mas eu acho que você não é machista, você tem o ar de uma pessoa de mente aberta, aberto também a novas experiências, acredito, mas também não é daquele tipo chato como as feminazis. Deixa eu te dizer, eu sou bem resolvida na cama. Não tem frescura comigo não. Chupo, engulo e ainda dou o cu e gosto de apanhar, só não curto muito escatologia. Um ex meu até quis uma vez me chupar enquanto eu tava menstruando, mas não curti não. A gente precisa ter alguns limites também, né? Acho que esse limite chega quando a gente já não se sente mais bem com alguma coisa. Mas quanto a sexo eu não crio muito tabu. Eu já tô até ensinando algumas coisas pra a minha filha mais velha, porque se deixar que ela aprenda fora de casa, como aconteceu comigo, ela pode até se traumatizar. O meu do meio é um garoto, eu também vou ensinar as coisas a ele. Os pais precisam ter essa intimidade com seus filhos, sabe? Você não me parece ter nada de puritano, então acho que seria um ótimo pai nesse sentido também. A não ser que você não tenha vontade de ser pai, mas acho que não é isso. Você tem jeito de que quer ser pai, seu cheiro diz isso. E mais, acho que sua preferência é de que fosse uma menina, tem algo no seu olhar que gostaria de ser o herói de sua garotinha. Eu já tenho duas, mas não me importaria de ter mais uma menina. Sinceramente eu acho até que elas dão menos trabalho que os garotos. Já pensou? Uma filha nossa?”

Nessa pausa ela aproveitou para beber um pouco de água. Percebi então que até eu mesmo havia prendido a respiração. Ela fala muito rápido, atropelando os assuntos que estão por vir, as palavras se formando em sua mente como explosões desesperadas e vomitadas de sua boca como uma torrente desenfreada. Eu nem sei o que dizer, já que ela responde tudo por mim, mas ali, no final dos nossos 10 minutos, quando o sinal toca, é exatamente o que ela diz que me faz não querer vê-la nunca mais.

“Você é bem calado, né?”

Eu me dirijo à próxima mesa e o cheiro que eu sinto é de enxaguante bucal misturado com alguma pastilha de menta extra forte. A respiração da moça à minha frente me atinge com um aroma gelado. Ela sorri, mostrando dentes brancos e simétricos, formando covinhas em suas bochechas, seus olhos castanhos sorrindo junto. Amarra os cabelos lisos e compridos atrás da cabeça com uma caneta, mostrando lindos braços e axilas muito bem cuidadas, erguendo até meu nariz cheiro de hidratante, e diz oi e em seguida meu nome, que está no crachá no meu peito. Olá, Natália, eu sorrio de volta. Suas clavículas estão expostas devido ao tomara que caia que sustenta um belo e protuberante busto de seios perfeitos. Seu pescoço é comprido, belo e pelo jeito macio. Natália emana de seu corpo uma atmosfera alegre, sem timidez, como uma ansiedade da qual ela não tenta esconder. E junto a isso uma sedução hipnótica, típica das mulheres que são lindas sem fazer nenhum esforço.

“Então, Natália. É sua primeira vez aqui? A minha é.”
“É sim. Eu pareço nervosa?”
“Ao contrário. Sua tranquilidade até me tranquiliza. Eu tenho 30 anos. E você?”

Nesse momento uma sombra passa pelos seus olhos. Ela olha para o próprio colo com um sorriso torto. Eu cruzo minhas mãos diante de mim na mesa e espero.

“Olha, na verdade eu tenho 16...”

Eu engulo uma pedra, um pedaço maciço de metal, seixos unidos por alguma seiva, que cai no meu estômago como algo pesado cai sobre a água de uma lagoa plácida.

“Sei que eu pareço ter muito mais idade, meu corpo é já bem desenvolvido, como você deve ter percebido... Olha...”

Natália se ergue e fica de frente ao meu lado. Para impedir uma ereção eu penso em carcaças de vacas no matadouro, o cheiro nauseante e ferroso de sangue, o odor podre das vísceras que ainda contém dejetos fecais desses animais. Mas é tudo inútil. Natália tem as pernas grossas, muito bem torneadas, coxas cobertas até a metade pela saia justa e preta, macias e voluptuosas. Ela vira para mostrar a bunda e meu coração palpita e lateja. Sua bunda se projeta imponente, não exageradamente grande, mas uma escultura formada por alguma mão divina. Meu coração segue o ritmo da minha ereção e o que faço é colocar a mão na cabeça, olhar para os lados e suspirar. Ela não demonstra nenhuma vergonha.

Mas que diabos você está fazendo aqui, Natália? Você quer levar alguém para a prisão? Você está usando identidade falsa? É algum sonho pervertido seu levar alguém para a cadeia e ir junto? É visita íntima que você quer? Eu não paro de olhar para o relógio ansiando o sinal tocar de novo. Ela senta e continua me contando histórias, que eu tento não ouvir, mas é difícil.

“Tenho mais 4 irmãs, todas entre 14 e 17, e somos todas assim. Todas aparentam ser mulheres mais velhas, todas gostosas.”

Penso em cachorros vendidos ainda vivos com suas peles arrancadas na China.

“Minha mãe já tem quase 40 anos, mas ela é atriz pornô. Seu corpo ainda parece ter 20 anos e ela só começou agora a fazer algumas plásticas.”

Penso em piras de corpos queimando na Índia, em cadáveres sendo devorados por tartarugas carnívoras no rio Ganges.

“Se você quiser eu posso te mostrar algumas fotos. Eu guardo uns nudes aqui. Você vai gostar, sou o tipo de mulher que todo homem sonha.”

Ela começa a tirar o celular da bolsa e eu tamborilo os dedos na mesa de nervoso. Eu não tenho condições e muito menos vontade de ser pedófilo. Quando Natália diz que se eu a achei bonita precisava ver a irmã mais nova eu levantei bruscamente quando o sinal tocou, sorri para ela e sai apressadamente.

Eu sento na próxima mesa e meus olhos demoram a se acostumar com a  poluição visual na minha frente. Na cabeça de Bárbara eu conto 6 cores diferentes, alternando em mechas cujo comprimento vão até seus ombros. Ela tem piercing numa sobrancelha, acima do lábio superior e no nariz. A pele de Bárbara é tão branca que chega a ofuscar, ou ao menos a parte que dá para ver, pois há uma tatuagem enorme e colorida de uma máscara da morte mexicana entre um arranjo de flores acima dos seus seios. Em seu pescoço serpenteiam tentáculos que, eu soube depois, pertencem a Cthulhu, cujo rosto está na sua nuca. Seus braços estão fechados por imagens coloridas de vísceras expostas, mulheres nuas em poses obscenas, deuses mitológicos eslavos e rosas brancas tingidas de sangue. Seu busto é coberto por uma blusa curta e negra da banda Cannibal Corpse, cuja imagem já seria o suficiente para afastar qualquer pessoa em posse de sua sanidade mental. Bárbara masca chiclete e sorri para mim, uma expressão infantil que contradiz todo o resto do seu conjunto.

“E aí, beleza?”
“Tranquilo.”
“Já encontrou muita mulher estranha?”

Eu ri. Não sei se deveria, na verdade. Percebi depois que minha risada soou com um certo tom de preocupação, beirando ao medo.

“Pergunto porque eu já encontrei uns homens bem esquisitos aqui.”

Bárbara tem um magnetismo próprio, algo nela exala confiança. Quando ela sorriu com a boca bem aberta eu vi sua língua bifurcada.

“Na verdade até agora sim. Mas cada pessoa tem suas peculiaridades, né?”
“Então é bom eu ser direta com você, certo?”
“Claro.”

A frase que veio depois me atingiu como um soco no estômago. Eu estava certo de que havia sido um erro ter ido aquele lugar, estava quase certo também de que aquilo tudo se tratava de uma pegadinha, pois não era possível que tanta coisa bizarra acontecesse em sequência. Bárbara falou com a maior naturalidade do mundo e, diante da minha boca aberta e de minha falta de ação, ela riu e balançou a cabeça em compreensão. O que ela havia dito foi isso:

“Na verdade eu era homem. Fiz uma cirurgia.”

Depois de me recompor nós conversamos e eu demonstrei curiosidade pela sua decisão. Seguimos os minutos discutindo sobre gêneros e o preconceito que ainda existe sobre isso. Acabamos trocando números de telefone e prometemos nos contatar para beber alguma coisa no futuro. Nunca aconteceu, claro.

Quando o sinal tocou eu tive medo da próxima mulher e cresceu em mim a vontade de correr dali. Fui até a outra mesa e sentei com o cansaço de um dia inteiro, mesmo ainda sendo 10 da manhã.

“Olá.”

Os olhos verdes por trás do óculos me fitaram e um sorriso muito discreto se desprendeu de seus lábios. Agatha. Até seu nome demonstrava uma aura intelectual. Soltou os cabelos e uma massa negra e brilhosa desabou em seus ombros como uma janela estilhaçada. Ela me contou de sua paixão por livros, por filmes e por Bach. Me fez várias perguntas, demonstrando um real interesse. Um ano mais nova que eu, relacionamento anterior destruído por causa de uma traição, desejo de ter filhos só em um futuro distante. Pela primeira vez eu me senti confortável naquele lugar, com aquela pessoa. Mas algo no meu ombro, como um pequeno demônio, sussurrava no meu ouvido me despertando para alguma coisa assustadora nesse mar de perfeição que era essa mulher. Sem pesar as palavras eu cuspi:

“Certo. Qual o seu defeito, pois você não pode ser tão perfeita assim depois de tudo o que eu já vi aqui hoje.”

Ela sorriu e ergueu os óculos. Suas roupas são leves e seu corpo possui uma suavidade convidativa. Sua voz é um pouco grave, o que lhe confere um ar de segurança e, às vezes, de ameaça. Não estou acostumado de que as coisas sejam tão fáceis assim. Seja qual fosse o segredo dela, não poderia ser mais assustador que os outros anteriores. No mesmo tempo surgia em mim o sentimento de que mesmo que desse certo, eu me cansaria, me entediaria com esse relacionamento.

“Talvez o meu defeito seja ser eu mesma.”

O que aconteceu depois é que saímos juntos daquele lugar. Começamos a namorar e seis meses depois estávamos morando juntos. Até então eu não tinha uma visão muito boa sobre relacionamentos, principalmente de casamentos. Isso de abandonar uma rotina que eu já dominava, abrir mão de poder transar com quem quisesse sem o peso de arrependimento por causa de um compromisso. A ideia de que somos uma pessoa melhor ao lado de outra era uma dessas construções criadas para entender ou ao menos aliviar a vida em que eu não acreditava. O que eu achava de verdade era que dividir uma vida com alguém era muito mais difícil do que ficar sozinho. Tudo mudou quando ela apareceu.

Estávamos felizes, num ápice, divisando o resto do mundo no alto de uma montanha, até que ela começou a erodir. Depois de um tempo notei que havia nos humores de Agatha violentas flutuações. Em alguns períodos ela era ativa e produtiva, escrevendo tanto artigos quanto textos seus, contos, um diário. Nesses períodos ela lia muito, ouvia muita música e começou até a pintar. Uma inquietude e uma energia se apossavam dela de tal forma que eu não conseguia acompanhar, nem compreender sua voz rápida, atropelada e estranhamente animada. Noutros períodos ela se jogava num poço profundo de tristeza, cuja melancolia era tão viscosa que se apegava a todo o apartamento, atingindo até a mim e em tudo o que eu tocava. Nesses períodos ela se trancava no quarto, destilava pensamentos de morte, de degradação, de suicídio. Eu precisava convencê-la a comer, a tomar banho e a trabalhar. Chegava a gritar comigo, me agredir, pedir para eu ir embora. Mas ela, com sua lucidez natural, chegou a um ponto em que pediu para que eu lhe procurasse tratamento.

Os médicos chamam de transtorno bipolar, ela chama cruamente de doença maníaco-depressiva. O diagnóstico oficial é transtorno bipolar 1, características psicóticas, excessivo envolvimento em atividades prazerosas, severo. Ela acha o nome usado pelos médicos um insulto, como se minimizasse o que ela sente. Já o termo que ela usa acha que dá mais seriedade à condição de sua doença. O que sei é que foram dias difíceis desde então.

Ciente da dificuldade que era conviver com ela e, eu serei sincero, eu a amava muito, não era compaixão, ela, em seus momentos estáveis, sempre me agradecia pela paciência, pelo carinho, por toda a ajuda que eu prestava em um ano e meio de relacionamento.

Aconteceu no aniversário dela. Ela estava começando mais um período negro, mas eu saí do trabalho e levei comigo um bolo, uma garrafa de vinho e um buquê de flores, para comemorarmos sós esse dia especial. Quando cheguei ao apartamento um silêncio quase palpável o inundava. Eu chamava seu nome, mas não havia resposta. A cada silêncio se seguia mais silêncio. Havia duas garrafas de vinho abertas e vazias, uma taça quebrada no chão, artigos acadêmicos escritos por ela espalhados por todo lado e no computador o livro que ela começara a escrever estava aberto. Fui até o quarto e nada dela, nem no banheiro. Deixei as coisas na cozinha e continuei a procurar. A encontrei no cômodo mais inesperado: no banheiro de visitas. Ela estava nua, só de óculos, na banheira, submersa em sangue aguado, seus pulsos rasgados, seu olhar vítreo sem vida me encarando quando parei na porta, seus lábios entreabertos.

Eu fiquei parado um longo tempo olhando aquela cena, as cores, os contrastes, o silêncio que gritava. O tédio monocromático do banheiro maculado por uma mancha rosácea. A dor e o desespero foram, pouco a pouco, dando lugar a uma admiração, uma veneração por aquela imagem trágica, mas tão bela. E eu me ajoelhei.


Hemerson Miranda

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