segunda-feira, 16 de outubro de 2017

GELADO


 Decidida, Clara ligou para a amiga geneticista e confirmou:

— Geni, eu decidi. Vou fazer aquela inseminação mesmo. Tá confirmada! 
— Ok, minha amiga. Não vou nem perguntar se você tem certeza. Só uma coisa: e quando ele perguntar pelo pai?
 
— Ah, Geni, isso eu ainda não sei. Digo a verdade, ou apresento um rapaz qualquer. Ah, sei lá! Agora eu só quero mesmo ser mãe.
 
— Está bem. Então, amanhã você aparece aqui às nove.
 
— Combinado.


Clara confirmou a agenda e às nove da manhã bateu ponto na clínica de reprodução assistida da amiga Geni, responsável pela inseminação daquele esperma congelado. No mês seguinte confirmou a sua gravidez. Apesar da possibilidade de gerar gêmeos, nasceu, mais nove meses depois, um único menino, batizado de Pedro.

Geni foi escolhida como madrinha e o irmão de Clara, Cláudio, como padrinho de Pedro, que cresceu como uma criança normal: saudável, esperto, inteligente, que gostava de estudar e, claro, de brincar. O menino também cresceu alheio ao medo da mãe de ser cobrada pelo filho para saber a origem do pai.

A cada ano que passava, Clara ficava ainda mais ansiosa por essa procura. Que não acontecia. A angústia de ser cobrada deu lugar à angústia de avisar ao filho que seu pai era apenas um doador. Ela não se perdoaria se Pedro descobrisse na escola que era filho de um sêmen de aluguel. A primeira pessoa consultada para saber se diria a verdade ao filho foi, naturalmente, a amiga Geni.

—Ele já te procurou para saber? 
— Não.
 
— Então, amiga. Pra quê essa neurose agora?
 
— Porque estou morrendo de medo dele descobrir pelos outros. Mas ainda não tive coragem para contar.
 
— Faz o seguinte, espera ele completar doze anos para abrir o jogo com ele.

Apesar da ansiedade exagerada de Clara, que já era notada por todos os seus amigos, o tempo passou rápido e Pedro chegou aos doze anos. Dedicado à escola e aos amigos da sua idade, o menino sequer se interessou em saber quem era o seu pai. Mesmo perguntado, dizia que o seu pai morreu antes dele nascer. E estava morto mesmo. Vinte anos antes da inseminação. Foi o que contou Clara, quase no limite da ansiedade.

— Filho, deixa eu te contar: a mamãe fez uma inseminação artificial de um sêmen congelado de um homem morto há mais de trinta anos. 
— Que legal! Maneiro!
 
— Você não quer saber quem foi seu pai?
 
— Pra quê?
 
— Sei lá. Pra saber a origem da sua família.
 
— Eu não vim de você? A minha família é você, ué?
 
— Mas você não sente a falta de um pai na sua vida?
 
— Eu não. Respondeu Pedro, com desdém. Já tenho o tio Cláudio e a tia Geni que é quem me leva para o Maracanã.
 
— Então, tudo bem.

Clara nunca mais tocou no assunto e jamais procurou saber do dono do sêmen que gerou seu filho Pedro, tão gelado quanto o espermatozóide que lhe deu origem.

Conto de Gustavo do Carmo

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