sábado, 31 de dezembro de 2011


Gustavo do Carmo



Toca o telefone.

— Alô?!

— Selton?

— Sim. Quem fala?

— Aqui é o Leôncio.

— Diga. Selton usa um tom seco.

— Estou te ligando para desejar um Feliz Ano Novo e pedir desculpas pelo que eu fiz com você no início do ano.  

Selton fica calado. Leôncio continua.

— Somente agora, perto do ano novo, caiu a ficha e eu decidi te pedir perdão por ter te proibido de divulgar o meu filme no seu blog. E também por ter colocado vírus na sua página de internet e ainda ter feito a sua caveira em um convite que iam te fazer para ser colunista de um jornal. Sabe como é, amigo! Eu tenho muita influência no meio.

— Eu já estava desconfiado destas duas coisas.

— Agora eu entendi o recado daquela sua crônica sutil contra mim. Mas você também pisou na bola, né, companheiro? Eu senti logo de cara que você andou me chamando de velho para os outros naquela mensagem que você mandou por engano no bate-papo. E nem me pediu desculpas.

— Eu não te pedi desculpas para não ficar bancando o inocente arrependido. Um professor meu uma vez me disse que ficar pedindo desculpas toda a hora é hipocrisia, pois a pessoa nunca vai se redimir dos seus pecados. Mas saiba o quanto fiquei envergonhado do que eu fiz. E entendi porque você mudou o seu tratamento comigo e parou de me telefonar todos os dias.

— Pois é. Agora quem te pede desculpas sou eu. Em que eu posso ajudar para corrigir o meu erro? Vou te indicar para escrever naquela revista famosa, onde trabalha um amigo meu. Ela paga muito bem. Vai gostar dos seus contos. E vou te chamar para você ser assistente de direção do meu próximo filme. E desta vez é pra valer. Não vou te barrar como da outra ocasião.

— Não precisa fazer nada, não. Deixa pra lá, eu te perdôo.

— Deixa de ser orgulhoso, rapaz! Eu sei muito bem que você está precisando de emprego. Agora deixa eu ir lá que os meus netos estão chegando para passar o ano novo comigo. Um Feliz Ano Novo pra você.

Leôncio desliga o telefone. Logo o seu celular toca.

— Selton, é a Keylane.

— Até que enfim você me ligou, hein? Ironiza Selton, que continua:  — Você sempre falou comigo pelo bate-papo. Mas eu não te bloqueei não, viu?

— Eu sei. Eu ainda te vejo online. Mas preferi te ligar para dizer que você estava certo ao me chamar de insensível. Somente agora eu me toquei que você queria apenas desabafar os seus problemas e brincar comigo. Eu te julguei e ainda me achei no direito de me sentir ofendida com as suas brincadeiras. E ainda te chamei de egoísta. Isto você ainda é, mas entenda essa afirmação como algo positivo. A única coisa que eu ainda fico chateada é pela sua desconfiança ao conferir se eu fiz o depósito para comprar o seu livro. Mas eu também entendo a sua ansiedade.

— Pois é. Tudo que eu falava pra você eu estava errado.

— Ah, mas amigo não é obrigado a concordar sempre com o outro. Precisa censurar de vez em quando.

— Tudo bem, você está certa. Mas você não concordava com NADA do que eu falava. Pra você eu estava SEMPRE errado. Eu já estava com medo e vergonha de desabafar os meus problemas com você. Eu estava sempre errado, né? Por isso que eu me afastei.

— Está bem, Você está certo. Pode desabafar o que quiser comigo que eu concordo.

— Pode deixar que agora eu já tenho a minha psicanalista.

— Pois é. Você também falou dos meus problemas para a sua analista. Fiquei magoada com isso também. Tinha perdido a confiança em você. Mas agora eu te entendo.  Me desculpa? Vamos voltar a ser amigos? Vamos conversar pelo bate-papo como sempre fazíamos?

— Pode ser.

— Então tá. Um Feliz Ano Novo pra você. Agora vou desligar porque a minha mãe está me chamando para ajudá-la. Tudo de bom pra você. Muita paz, muita alegria e quero voltar a ser sua amiga.

— O mesmo pra você, tchau.

Mal acabou de desligar, o celular de Selton toca de novo.

— Oi, Selton. Aqui é a Taviane. Estou te ligando para te desejar um feliz ano novo e dizer que eu esqueci todas aquelas coisas horríveis que você me disse há alguns anos. Somente agora eu entendo o momento pelo qual você estava passando naquela época. Agora estou ligando em missão de paz.

—Você não sabe o quanto fiquei arrependido de ter feito o que fiz. Você se tornou um fantasma na minha vida nesses anos todos.

— Eu sei. Quero voltar a ser sua amiga. Você aceita?

— Não.

— Tudo bem. Eu compreendo a sua resistência. Agora me deixa desligar que eu estou saindo para encontrar o meu namorado para a gente passar o réveillon juntos.

Selton já tinha desligado antes. Ele recebe mais um telefonema. Era o seu maior amigo e companheiro da faculdade.

— Selton, sou eu Renan. Estou te ligando para te avisar que somente agora eu percebi o grande sentimento de amizade que você tinha por mim. Amizade não. Fraternidade. Eu estou arrependido de evitar conversar com você e de te tratar com frieza quando você me procurava pelo bate-papo. Agora deixa eu ir que meus filhos estão me chamando para brincar com eles. Feliz Ano Novo!

Mais duas mulheres ligaram para Selton. Ambas desejando feliz ano novo e pedindo desculpas. Uma jornalista do interior pelo bolo que dera ao ter agendado uma entrevista e não comparecido. A outra, uma ex-colega de faculdade pela grosseria com a qual respondeu a um e-mail. Ela estava estressada com o trabalho e terminando com o namorado depois de dez anos de relacionamento. Esclareceu que o rapaz havia lido a mensagem e ficado com ciúme doentio. Nervosa respondeu daquela forma. Mas deixou claro não ter gostado da crítica com uma colega da turma que não tinha nada a ver.

Quando esta última encerrou a ligação, Selton foi abrir a caixa de e-mails. Quase todos os colegas da pós-graduação desejaram boas festas. O antigo coordenador mandou um convite pessoal para a exposição de arte da sua esposa. Uma outra mensagem se destacava. Era de uma outra jornalista, esta da capital:

Caro Selton,

Por acaso comprei um livro de contos que você publicou. Acabei achando aquele seu conto que o seu amigo virtual me recomendou. Somente agora eu revi os meus conceitos e mudei de opinião. Percebi o quanto as suas histórias são primorosas, apesar de alguns errinhos de gramática. Não são infantis como eu havia achado no início. Reli aquele outro e entendi o enredo da história e a sua intenção, que foi colocar sarcasmo em uma história realmente infantil.

Feliz Ano Novo!!
Mareliz Dantas

Um editor com o qual Selton havia feito contato pedindo uma oportunidade também mandou e-mail desejando boas festas e pedindo desculpas por ter achado todos os seus textos inverossímeis.
Propôs editar um novo livro com um segundo volume de contos que Selton havia enviado. Desde que fizesse uma boa revisão que o rapaz iria ajudar. Por coincidência uma ex-professora de oficina literária se ofereceu para revisar os textos e diminuir as inverossimilhanças e incoerências que achou.

Animado com tantas mensagens de ano novo, pedidos de desculpa e propostas que recebeu por telefone ou por e-mail, Selton criou coragem. Ligou para a irmã mais nova para pedir desculpas por um grande erro que cometeu com a família.

— Liliane, sou eu, Selton. Feliz Ano Novo! Somente agora eu...  A moça já tinha desligado quando ouviu que era o irmão. As outras três irmãs mais velhas fizeram o mesmo.  

O Tudo Cultural deseja um 2012 repleto de amizades verdadeiras, o que   o Selton não conseguiu. Volto no dia 14 de janeiro. 

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sábado, 24 de dezembro de 2011


Gustavo do Carmo


Estava falido. Aliás, sua família faliu. Seus pais morreram e ele não soube administrar a loja do pai, que quebrou. Sua irmã rompeu com ele por causa da sua falta de atitude.  Nunca teve maturidade para conseguir um emprego pelos próprios méritos. E nem pelo mérito dos outros. Seus amigos o abandonaram. Ninguém dos ex-colegas das duas faculdades e duas pós-graduações que cursou o procurava.

Eustáquio já estava na miséria. O apartamento de veraneio em Cabo Frio já tinha sido vendido quando surgiram as primeiras dificuldades financeiras. Agora perdeu o apartamento no subúrbio, onde foi criado, leiloado por causa das dívidas trabalhistas com os empregados da loja.

Estava sem teto. E incomunicável. A linha do celular foi cortada e ele não tinha dinheiro nem para pagar uma hora na lan-house da esquina. Se recusava a pedir esmola, mas aproveitou-se da caridade de alguns passantes na rua, que lhe jogavam moedas e notas de 2 reais. Até que alguém lhe estendeu uma mão.

Não conseguiu identificar de imediato, ofuscado pelo forte brilho do sol. Só depois de alguns segundos, por mais um gesto de solidariedade, a mão se aproximou e revelou um antigo colega da primeira faculdade.

Eduardo hospedou Eustáquio em sua casa. Era véspera de Natal. Em troca, o amigo sem teto ajudou a família do amigo solidário na preparação para a ceia. Depois de tomar um bom banho e fazer a barba, claro.

No descanso do trabalho pesado para a noite de Natal, Eustáquio acessou a internet depois de quase um ano.  E viu 400 mensagens acumuladas na sua caixa de entrada. Quarenta delas era de ex-colegas da segunda pós-graduação pedindo desculpas por tê-lo magoado. 

À meia-noite, a família de Eduardo - mulher, filhos, pais, sogros, irmãos, cunhados e sobrinhos - saudou a chegada do Natal. Eustáquio participou da festa. E ainda ganhou presente. Um celular pré-pago, com a sua linha reativada.

Logo, Eustáquio recebeu as primeiras ligações. A primeira delas de Geiza, uma sumida colega da primeira pós-graduação, lhe oferecendo emprego em sua agência de publicidade. O que ele mais precisava. As outras vinte foram de antigos colegas da faculdade de publicidade e oficinas literárias se desculpando por tê-lo desprezado.

No dia 25, Eustáquio abraçou Eduardo e a esposa, agradecido pela generosidade. Disse que, no dia seguinte, ia a uma entrevista de emprego na agência de Geiza. Eduardo ficou feliz.

Eustáquio conseguiu o emprego, se estabeleceu e retomou sua vida de classe média. Em fevereiro deixou a casa de Eduardo para alugar a sua própria. Em abril já morava em apartamento próprio. Em maio casou-se com Taís, colega de uma oficina de roteiro que havia feito antes da sua família falir.

Construiu uma nova família. Em dezembro, recebeu Eduardo, esposa e filhos para uma tarde de véspera de Natal em sua cobertura na Barra da Tijuca. Ostentou a barriga de sete meses da esposa Taís. No início da noite recebeu o casal de amigos recém-perdoados, Fábio e Adriana, que estudaram com ele na segunda pós-graduação.

Mas os amigos não viraram a noite de Natal com ele. Eduardo, Fábio e Adriana foram passar com as suas famílias. Já Eustáquio recebeu a irmã e o cunhado, também reconciliados, em sua residência. Comemoraram, além do nascimento do menino Jesus, o primeiro ano do milagre de Natal que recebeu, quando saiu da miséria sem futuro para uma vida feliz e bem-sucedida.

Um sonho que Eustáquio viveu e acordou. Seus pais, felizmente, ainda estavam vivos, saudáveis, apesar de idosos, e ainda na classe média. Tinha dormido o sono da tarde antes de sair para o apartamento da irmã na Barra da Tijuca, onde iam passar o Natal.  Mas ele ainda não tinha emprego e nem o perdão dos antigos colegas. Muito menos de Eduardo. 

Aos leitores do Tudo Cultural um Feliz Natal e próspero 2012! Volto no dia 14 de janeiro. 
  

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

por dudu oliva


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sábado, 10 de dezembro de 2011

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011




Palavras esquisitas.


Você pode vir comigo.
Você sabe que eu dirijo.
Sou um alguém natural.
Não chego tarde a casa.

Se você quiser, eu posso,
posso deixá-lo esquivar-se
pelas ruas antigas, chamando
por mim, palavras esquisitas...

Nossas folgas da vida estão próximas.
Mas é impossível sem aquele carro
e nem possível sem o que é você.

Venha, vamos navegar pelas estradas
com estas nossas mãos ajustadas.
Venha, vamos devagar pela manhã.

Você concorda comigo.
Precisamos de algum lugar.
Serve-nos qualquer abrigo.

Vamos sozinhos pela primeira vez.
Repetindo mentiras engraçadas.
Você me ensina as facilidades.
E as dificuldades, esquecidas.

Poderíamos ir, pois sabemos ir.
Você me encontraria bem ali.
Ou eu poderia ir à sua casa.
Eu prometo não me demorar.

Se você quiser, eu posso,
posso ficar e deixá-lo
esperando, mais um pouco,
por mim, para novamente
sem medos de dúvidas,
dizer aquelas eloqüentes
para mim, palavras esquisitas...

                                                    Rogerleo.
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sábado, 3 de dezembro de 2011


Por Gustavo do Carmo



Moça bonita parada no ponto de ônibus em Copacabana. Estava de vestido de alcinha florido. Branca, magra, cabelos curtos, mas femininos. Cortado à altura dos ombros. Do jeito que eu gosto. 

Tive o receio de que ela fosse do tipo Raimunda, feia de cara e boa de... você sabe! Mas não era. Era bonita de rosto, sim! Aliás, sou mais chegado aos seios do que ao traseiro. Não consegui reparar no seu peito. Precisava ser discreto, não olhar muito. Então, não lembro direito se eram grandes ou não. Acho que eram médios.

Voltei a ficar atrás dela. Ela de costas para mim. Costas brancas e lindas. Não vi nenhuma falta de educação ou elegância da parte dela. Só uma alça azul do sutiã.

Ela esperava pelo ônibus, impaciente. Eu também. Ficou um tempão. Eu também. Segurava impaciente uma bolsa de butique. Deve ter comprado outro vestido florido. Teve um momento em que ela colocou a bolsa de butique no chão da calçada.

Foi aí que eu comecei a ter fantasias. Não as sexuais (por enquanto), mas as sentimentais. Pensei em lembrá-la da bolsa no chão. Pensei nela agradecendo e depois nós nos conhecendo, conversando, trocando e-mails e telefones... A gente saindo. Indo ao teatro ou ao cinema. Indo ao motel. Transando, finalmente.

Fantasiei, também, com ela conhecendo a minha família e eu conhecendo a dela. O nosso noivado. O nosso casamento. Os nossos filhos. Até as nossas brigas.

Como será o seu gênio? Pelo que eu vi dela no ponto, parecia ser enfezada, nervosinha. Requer cuidado. Mas esperando um ônibus em Copacabana por um tempão, correndo risco de voar pelos ares na explosão de um bueiro, qualquer um vira uma pessoa enfezada e nervosa. Vai que ela seja um doce.

Será que ela tem TPM com freqüência? Será que ela gosta de ajudar os outros? Será que os pais dela são ricos? Será que ela já trabalha? Onde será que ela estuda? O que ela estuda? Jornalismo? Arquitetura? Engenharia?

Ao mesmo tempo, pensei no pior: ela poderia estar falando com o namorado ao celular quando deixou a bolsa no chão. E se eu a lembrasse da bolsa no chão, poderia estar passando por idiota. Afinal, ela sabia e não era cega.

Pela demora do nosso ônibus imaginei que ela estivesse esperando a mesma linha do meu. Imaginei ela indo para Bonsucesso também. Ou até para a Penha. Repeti todas as minhas fantasias sentimentais, românticas e sexuais. Todas as minhas ilusões.

O ônibus chegou. O meu. Subi no meio da multidão. A moça bonita do vestido florido não entrou. Meu ônibus não serviu para ela. Ela ficou parada no ponto. Nunca falei com ela. Não sou sedutor barato. Sou mesmo um bobo. Nunca mais a vi.
E com este conto eu entro de férias. Mas o Tudo Cultural vai continuar neste final de 2011 com o Dudu, o João e a Sheila. Eu espero. 

Infelizmente, este ano não foi muito bom para o blog. Foram poucas visitas. Assim, nem vou comemorar os seis anos do blog, completados no último dia 29/11. Deixo apenas os meus agradecimentos aos colaboradores Dudu Oliva, João Paulo Simões, Sheila Fonseca, Ed Santos, Miguel Angel, Rosilene Câmara e Igor Gomes, o Rogerleo. 

Se der tudo certo, postarei um conto inédito no Natal e outro no ano novo. Ou então, farei uma reprise de anos anteriores. Volto definitivamente no dia 14 de janeiro. Até lá. 

Se eu não voltar, feliz Natal e ótimo 2012!
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011






“Eu te amo agora
porque escreveste para mim.

Eu te amo agora
porque de mim tu estás afim.

Eu te amo agora
porque me compraste um presente.

Eu te amo agora
porque tu me ouves sempre, sempre.

Eu te amo agora
porque tu aceitas o que eu faço.

Eu te amo agora
porque tu fazes o que eu quero.

Eu te amo agora
porque tu nunca reclamas.

Eu te amo agora
apesar de nesta hora
ou em qualquer outra
nunca teres dito que me amas.

Eu te amo agora
e para sempre irei te amar
e enquanto não houver outro
a quem eu possa explorar.

Eu te amo agora.
Graças a Deus que te amo,
se não eu jamais teria
meu sonhado 'carro do ano'.

Eu te amo agora
porque eu quero
não te amar
e isto não é causa
e nem é conseqüência
dos reais objetivos
do meu, meu querer.

Eu te amo agora
não porque eu quero te amar;
sim porque tu atendes
aos meus, meus interesses.

Eu te amo agora
e para sempre vou te querer
e enquanto houver de ti
coisas boas a mim, oferecer.”


                                                 Rogerleo.


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