terça-feira, 31 de março de 2009

de Miguel Angel


De idade indefinida, a pequena indígena, trazida pela mão da anciã, apareceu no estabelecimento e o unico traje que aparentava usar, era a negra cabeleira que se espargia nas espáduas cobrindo-a quase toda, permitindo entrever apenas o resto de poncho desgrenhado que vestia por baixo. À interrogação inevitável, a velha nativa lhe respondeu tratar-se de sua neta. E à socapa, avisou que o senhor da casa estava ciente. Neta de índia, sorrateira deve ser. Igual à avó. Concluiu Amanda, numa primeira suspeita malévola.
Nos dias que se seguiram, observando a menina realizar alegremente alguns afazeres da casa, achou seu julgamento precipitado e, ouvindo repercutir pelas dependências as risadas nas brincadeiras inocentes com os bichos da casa, sentiu-se culpada; a despeito disso, dia após dia, certos indícios reacenderam o alerta no momento em que deu com a cabrita se esgueirando rumo ao quarto onde Alfonso fazia a sesta; sem demora, observou tratar-se de método: a pequena aguardava a oportunidade de ela encontrar-se ocupada no armazém ou nos fundos da casa, para fazê-lo; se movida a ordens ou expertise natural, saberia em seguida; na desconfiança, resolveu a emboscada até descobrir a nova oponente num candente flagrante: Cavalgando sobre o desvairado marido, a trêfega indiazinha ria sem vozerio, coberta unicamente pela comprida cabeleira. Naquele momento engoliu o alarde e julgando-se astuta, preferiu guardar a descoberta...
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Trecho do romance Moscas e Aranhas de Guerra de Dalton W.Reis
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segunda-feira, 30 de março de 2009

Este blog atingiu a marca de 20 mil acessos. E isto em apenas pouco mais de um ano.

Obrigado a todos os colaboradores (Ed Santos, Miguel Angel, João Simões e Dudu Oliva) e aqueles que visitaram o blog desde fevereiro. Saudações também para aqueles que nos prestigia desde o antigo Tudo Cultural, criado no final de 2005.

Mas ainda tem gente que diz que blog é coisa de criança e que ninguém vê. Depois se dizem vítimas de preconceito de uma sociedade conservadora que não aceita a sua opção sexual e de um governo que não incentiva a cultura nacional. Na verdade são uns hipócritas que quase acabaram com este blog e o Guscar, pois devido a um transtorno psicológico que ainda não diagnostiquei e que muita gente ainda não entende e acredita que eu que quero fugir da responsabilidade e não quero trabalhar, além da desagradável crítica que abriu este parágrafo, entrei em depressão e quase desisti de atualizar o Tudo Cultural. Mandar amadurecer e acordar pra vida é fácil. Difícil é compreender e ajudar.

Para o desgosto dos seus "incentivadores" este blog continua.
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A Dica da Segunda desta semana é o novo blog do nosso amigo e colaborador d'além-mar João Paulo Mesquita Simões, que todas as quintas-feiras nos brinda com a história dos selos portugueses.
O Coscuvilheiro é o espaço para as crônicas de João Paulo. O cotidiano do seu país é o destaque, mas não faltam assuntos mundiais, inclusive do Brasil, como o caso do bispo pernambucano que tentou excomungar uma vítima de estupro só porque fez aborto, mas só faltou querer canonizar em vida o estuprador.
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domingo, 29 de março de 2009

Por Ed Santos

Quando abri os olhos vi as copas das árvores. Eu não conseguia me mexer direito. Aquela sensação voltou e eu ficava sem entender nada quando acontecia, só depois. O gosto amargo na boca prevalecia sempre, e eu conseguia fazer um único movimento lateral com o braço direito, como se estivesse limpando a boca com o lado externo do punho, mas com o braço mais esticado e duro e o ombro perto do queixo. O Vanderley deu um pulo que quase deu com o pé direito na minha cara torta mas eu ali, nem me mexia. Minha boca beijava o vento e meus olhos fixos no nada. “Dona Mocinha! O Rogério tá dando ataque de novo”, eram as únicas palavras que eu conseguia ouvir ao longe, por uma voz conhecida, mas não conseguia identificar quem que estava ali gritando. E quem era Dona Mocinha? Sei que sempre que eu fazia aquele movimento com o braço, ouvia alguém chamando por ela: “Dona Mocinha! O Rogério...”.

Aquela cena apesar de estranha, era familiar. Quando a vista ficava turva eu tinha certeza que alguma coisa errada estava acontecendo, só não sabia dizer o que era. Apenas depois. E sempre acontecia quando eu sentia a falta do sabor adocicado do brometo de potássio.

Eu era epiléptico e tinhas uns ataques, uns surtos repentinos, acontecia quando menos esperava. A família toda sabia e quando aquele movimento involuntário estava pra acontecer, quando o punho e o cotovelo começavam a formigar, eu tinha vontade de sair correndo sem rumo. Até tentava avisar a quem estivesse ao meu lado, mas era em vão. Não dava tempo. Durante aqueles intermináveis dois minutos que durava aquilo, minha boca ficava feito losna. Mas eu tinha sempre a certeza de que tomava apenas chá de losna para as minhas diarréias e dores de estômago. Nunca abusei do chá. Minha mãe, sempre ia buscar umas folhas no fundo do quintal... Lembrei! Dona Mocinha era minha mãe! Então sempre que acontecia era a ela que chamavam. Lembro que a gente morava numa casa ampla. A sala e os quartos ficavam na parte da frente, enquanto os banheiros e a cozinha ficava nos fundos. Da janela que tinha na pia da cozinha, minha mãe ficava espiando a gente brincar no quintal. Éramos em sete irmãos, eu a Olívia, o Marcelo, o Tonho, a Jocelma, a Dalva que era a mais velha e o Danilo, que todo mundo chamava de Toró. Ele era o irmão mais novo e era diferente da gente. Tinha o cabelo mais claro, mais liso e os olhos levemente puxados, lembrando um pouco os traços de uma criança oriental. Um dia o Toró ficou caçoando do Flavinho, irmão do Cido, porque ele tinha botado uma lombriga pra fora no meio da rua enquanto empinava pipa. De repente o Toró viu aquele troço pendurado entre as pernas do colega e ficou rindo da situação. Tomou uma pedrada na cabeça que lhe renderam seis pontos.

Nesses dois minutos sem fim, consegui lembrar de todos os amigos que brincavam comigo e meus irmãos no nosso quintal. A gente ficava pulando de galho em galho, de árvore em árvore, e minha mãe lá na janelinha espiando. Lembro que a gente gostava de comer "uva japonesa". Tinha dois pés da árvore lá em casa e eram os mais altos. Deve ser de um deles que eu cai.
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sexta-feira, 27 de março de 2009

Por Dudu Oliva

A mosca estava imóvel na parede. Aproximei-me, permaneceu no mesmo lugar; ficamos cara a cara por algum tempo. Cansei da brincadeira, peguei um pano para lhe atingir; fugiu. Um pensamento ainda persiste, porque ela não voou para longe quando me aproximei?
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quinta-feira, 26 de março de 2009

Por João Paulo Simões





Uma vez que existiam grandes quantidades de selos tipo Ceres retirados de circulação e que se encontravam em depósito na Casa da Moeda, e com vista a diminuir as encomendas à firma inglesa que fabricava os selos base com desequilíbrio do orçamento da Administração Geral dos Correios e Telégrafos, a portaria de 19 de Setembro de 1928, mandou pôr em circulação os referidos selos, depois de sobretaxados ($04 $10 $15 $16 $40 $80 $96 e 1$60).

Foram postos em circulação 1.024.480 selos de $04 s/8 laranja, 629.620 selos de $04 s/30 castanho, 544.140 selos de $10 s/ 1/4 sépia, 185.840 selos de $10 s/ ½ preto, 231.200 selos de $10 s/1 castanho vermelho, 967.980 selos de $10 s/ 4 verde, 720.000 selos de $10 s/ 4 laranja, 1.595.080 selos de $10 s/6 sépia, 965.920 selos de $15 s/16 ultramar, 10.800 selos de $15 s/20 castanho, 554.980 selos de $15 s/20 cinzento, 83.420 selos de $15 s/24 verde azul, 560.000 selos de $15 s/25 rosa, 899.060 selos de $15 s/25 cinzento, 324.189 selos de $16 s/32 verde, 4.132.140 selos de $40 s/2 laranja, 36.000 selos de $40 s/ 2 amarelo, 1.694.000 selos de $40 s/ 2 chocolate, 3.513.360 selos de $40 s/ 3 azul, 1.634.820 selos de $40 s/ 50 amarelo.


(In Livros Electrónicos de Carlos Kulberg)
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terça-feira, 24 de março de 2009

De Miguel Angel


AVANT-PRÈMIE


Em silêncio entrou no quarto, fechando a porta atrás de si; só então respirou mais calmo. As batidas do coração, que lhe pareceram ecoar ruidosas pela escuridão da casa, diminuíram ao constatar que ela dormia profundamente; boca aberta e leve gargarejar o demonstravam.
Reavivou-se a náusea e a determinação de realizar nessa última noite o planejado. Aproximou-se da cama, e sem demora espalhou espesso líquido debaixo dela até esvaziar a garrafa, guardando-a novamente no bolso do casaco. O forte cheiro do produto dilatou-lhe as narinas e fez seus olhos lacrimejarem. A mulher na cama mexeu-se de leve. Ficou imóvel até ela se aquietar. Caixa de fósforos na mão, acendeu o primeiro, que se apagou no mesmo instante; mordeu o lábio inferior, engolindo um palavrão. Segundo fósforo aceso, dessa vez cuidou para não se apagar, protegendo-o com a mão em forma de concha. Cuidadosamente, abaixou-se e aproximou a chama na mancha que o líquido formara debaixo da cama. Quando o fósforo chiou e apagou-se ao contato com ele, receou ter enchido a garrafa com o produto errado. Agora o cheiro mais intenso aumentava sua excitação. Leve gemido da mulher o paralisou novamente. De joelhos ao lado da cama, curvou-se até seu rosto ficar bem perto do chão. No sono inquieto, ela esticou o braço e a mão, pendurada na borda da cama, roçou-lhe de leve a cabeça. Sobressaltado, acreditando-se descoberto, afastou-se de um pulo. Já tinha na mão a garrafa vazia que retirara do bolso, pronto a quebrá-la na cabeça, mas ela imobilizou-se e continuou a dormir. Devia se apressar, o cheiro nauseante já estava tomando conta do quarto. Voltou a riscar outro fósforo. Dessa vez, em contato com o líquido, a chama foi espalhando-se aos poucos embaixo da cama. Esperou alguns segundos, até se certificar que o fogo atingia os extremos dos lençóis e parte das cortinas da janela. De costas para não perder nenhum detalhe, foi afastando-se em direção à porta. Antes de sair e apesar da inquietação, não conseguiu evitar um sorriso diante da certeza do êxito alcançado. Tudo conforme projetara durante tanto tempo nas suas vigílias. Fechou a porta suavemente; andando pelo corredor, pé ante pé, chegou às escadas; no topo pareceu-lhe ouvir barulho proveniente da cozinha, no térreo. Estranhou. Tinha certeza de estarem sozinhos na casa; ou teria sido do quarto que deixara? Ela acordara? Se assim fosse, certamente uma gritaria histérica já teria tomado conta da casa. Embora apreensivo, impelido pela curiosidade, acabou voltando. Ao chegar à porta encostou o ouvido; o burburinho vinha do interior do quarto. De um puxão abriu a porta, e então o coração palpitou agitado, a respiração parou na boca aberta e os olhos se abriram atônitos diante da imagem fora do roteiro planejado: sentada no meio da cama, ilhada por línguas de fogo que cresciam aos poucos, imobilizada pelo terror e ao mesmo tempo tremendo como folha de papel, tão branca como os lençóis, a mulher olhava-o fixamente. Antes de perceber naquele mirar qualquer vislumbre de súplica ou espanto, repentina convulsão fez o corpo dela primeiro se contrair, depois se retesar e tombar como se tivesse levado uma pancada no peito. Iluminado pelas chamas, via-se vômito escorrendo pescoço abaixo. Os maxilares pareciam mastigar um grito engrolado pela espuma que se seguiu, formando pequenas bolhas de ar no canto da boca. Os dedos dela, trêmulos, agarravam os lençóis em chamas, e no desvario jogava sobre si mesma o fogo que, depois de alcançar o travesseiro, queimava seus longos cabelos. O gemido que não conseguia articular parecia formar um nó na garganta; somente agudo estertor saía por ela. Os estalos da madeira e o tamanho das chamas aumentaram. De repente, apoiando-se sobre o cotovelo, estendeu-lhe a mão em forma de garra; foi apenas um segundo agonizante, pois nova convulsão a sacudiu, e dessa vez sua violência fez a cama tremer. Nauseado, retendo a respiração, saiu do quarto e trancou a porta atrás de si. Correu até a escada e lançou-se degraus abaixo em direção ao térreo, sem importar-se com mais nada a não ser fugir dali. Abriu a porta da rua, parou um instante para respirar o ar da noite profunda e logo a seguir, num pulo, escondeu-se nas sombras do jardim e vomitou. Depois esperou. Esperou até ver as línguas de fogo assomarem pela janela do quarto. Ficou ali até as chamas, queimando as cortinas de veludo, tornarem-se fragorosas e expandirem-se, iluminando o jardim, refletindo-se faiscantes na órbita de seus olhos bem abertos, para captar cada minúcia de sua pirotecnia. Esperou ouvir os vidros da janela se estilhaçarem pelo calor. Piscou quando, minutos depois, outras janelas da casa explodiram em turbilhão de faíscas. Sentiu o cheiro de livros sendo incinerados, sabia que naquele momento ardiam as roupas e
as portas, inclusive as secretas. Não se mexeu até estar convicto de as maçanetas se terem torrado, inflamado os móveis e os quartos, escadas e candelabros derretidos. Ouviu lustres, garrafas e cristaleiras explodirem num iluminado pipocar de festa e chiados de cimento sucumbirem ao calor das labaredas. Faltou-lhe ar ao vislumbrar paredes se abrasando até caírem com fragor, mergulhando em poça de fagulhas, e logo os tijolos viraram brasas, e cinza seu ódio. Adivinhando o corpo calcinado, misturou-se aos apavorados vizinhos e curiosos, que, fascinados pelo espetáculo pirotécnico, nem deram pela sua presença. Só então, iluminando-lhe as costas a luz do vulcão que o libertaria dos incômodos do passado, desapareceu em direção ao amanhecer. O mar o esperava.
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1º Capítulo do romance A Cena Muda de Miguel Angel Fernandez
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domingo, 22 de março de 2009

Por Ed Santos

O descanso de domingo é sagrado. É o preparo da semana, do moço que trabalha, tá cansado.

No descanso do domingo, ele acorda cedo pra ficar mais tempo sem fazer nada, descansando no domingo.

Vai para cozinha e prepara o almoço de domingo, e a mulher fica descansando, não faz nada no domingo. Só leva a filha pra brincar no parque, pois trabalha na semana toda, e o domingo é dia de parar. Ponto. Descansar no domingo.

Após o almoço de domingo, se preparam pra semana enfrentar. Sentam e descansam. Descansados a semana passa mais rápido, pra no outro domingo, de novo, descansar.

No domingo, o tempo passa, quase não se dá pra acompanhar, apenas o que se quer é fazer de novo o que já foi feito no outro domingo, descansar.

E então, à noite, quando tudo nos eixos está, oram e agradecem à Deus por ter lhe dado um bom descanso de domingo.
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sábado, 21 de março de 2009

Por Gustavo do Carmo


Eu juro que não estou fazendo jabá. Juro que não estou fazendo propaganda gratuita. Garanto que eu não estou escrevendo esta matéria fumando uma cédula de cem reais, porque eu nem fumo. Também não estou cheirando uma onça pintada (a ilustração da nota de 50, que fique bem claro) porque não cheiro. Tampouco aqui não está caindo nenhuma chuva de dinheiro. Pra finalizar o meu juramento, não tem ninguém do Spoleto encostando uma arma nas minhas costas ou na minha cabeça, me obrigando a escrever esta crônica.

Claro que a última justificativa foi apenas uma brincadeira, mas o que eu quero dizer é que vou escrever para elogiar o Spoleto de forma honesta e sincera. Sem nenhuma intenção de ganhar alguma coisa em troca, seja dinheiro ou vale-massa para o resto da vida. Escrevo apenas porque eu queria há muito tempo fazer uma crônica sobre a rede de massas e a inspiração surgiu agora.

Bem, sou fã do Spoleto há quase três anos. Virou a minha melhor alternativa para saborear uma comida de verdade - que não seja hambúrguer do McDonald’s ou do Bob’s e pizza - na hora do almoço fora de casa, sem recorrer aos restaurantes self-service a quilo, que eu detesto. Comida caseira eu só gosto de comer na minha casa ou na casa de alguém. E gosto de me servir sozinho, sem uma multidão atrás de mim ou na minha frente fazendo o mesmo.

E olha que eu já tive preconceito com o Spoleto. Eu já o conhecia bem antes de 2005. Estava para almoçar com um amigo no Botafogo Praia Shopping quando sugeri o restaurante de letreiro vermelho-vinho com faixas verticais amarelas. Queria experimentar. Mas ele, traumatizado, recusou dizendo que o restaurante era tão ruim que já serviu até para terminar namoro. Recorremos ao velho quilo. Passei sete anos com medo.

O medo acabou num dia em que eu estava no Rio Sul, fazendo compras com a minha mãe. Passava pela praça de alimentação. Não queria quilo e nem Bob’s. Muito menos perder tempo em restaurante a la carte.

Uma funcionária do Spoleto me viu na fila e explicou o sistema. Descobri que serviam capelletti ao molho branco e criei coragem. Pedi vários daqueles condimentos. Até quando eu podia pedir. O cozinheiro colocou tudo no prato, misturou com o molho, depois com a massa recém-saída do caldeirão, pôs no prato e na bandeja e só faltou pedir o refrigerante e pagar. Bem rápido. Mais rápido até que o McDonald’s. A minha mãe comeu no self-service.

Claro que a rapidez tem um preço. A massa é um pouco crua. Mas dá para comer bem. Engorda, claro. Mas não dá saciedade e tenho o prazer de almoçar fora sem dizer que eu só faço a dieta do palhaço (com hambúrguer). Outro ponto fraco? Tem sim: aquele rocambole de chocolate chamado Rigoletto é tão doce que não tem gosto de nada. É também um fast-food caro. Um capeletti com polpetone custa mais de 25 reais. Uma sugestão? Que os refrigerantes sejam de máquina. Combinariam mais com o gosto das massas.

Depois que eu conheci o Spoleto, fiquei viciado. Em qualquer lugar que eu vou e preciso comer fora, recorro a ele. Desde que eu esteja sozinho, porque pareço ser o único da família que gosta do Spoleto. Estava quase enjoando, inclusive do raviolli de camarão, quando eles lançaram o polpetone. Voltei a comer.

Apesar de gostar tanto, não como no Spoleto todo dia. Tento fugir para não enjoar do restaurante. Mas em qualquer lugar que eu passo, vejo um: Norte Shopping, Barra Shopping, Botafogo Praia, Rio Sul, Copacabana, Ipanema, Leblon, Largo do Machado, Tijuca, Cabo Frio, Petrópolis... São Paulo. Tem na Espanha e no México também, mas ainda não fui até lá. Só não tem em Bonsucesso. E já tem até imitações. Juro que não estou fazendo jabá.
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sexta-feira, 20 de março de 2009

Por Dudu Oliva

Recebeu um comentário em seu blog, virou uma geléia gigante. A cidade ficou devastada.
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quinta-feira, 19 de março de 2009






Por João Paulo Mesquita Simões






Retirado de DN-Diário de Notícioas online







12 Fevereiro 2009



Aniversário. O naturalista inglês Charles Darwin nasceu há 200 anos em Shrewsbury, na Inglaterra. A viagem que fez à volta do mundo no famoso navio 'Beagle' acabaria por mudar a sua vida e repercutir-se profundamente na ciência. Mas não se livrou de polémica.

CELEBRAR O LEGADO DE DARWIN

Quando embarcou, em 1931, como naturalista, no HMS Beagle, para uma viagem que devia durar dois anos, Charles Darwin não sabia que isso iria mudar a sua vida e muito menos revolucionar a história da ciência e a forma como a humanidade se vê a si própria e à vida.
Hoje, dia em que se comemoram 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin, o legado do naturalista inglês continua actual e vivo, nos caminhos trilhados pela biologia molecular e genética, mas também na biotecnologia e na própria biologia da evolução. Foram as suas ideias que abriram este caminho.
Em vez de dois anos, Charles Darwin esteve cinco anos em viagem à volta do mundo. Um percurso que, por circunstâncias da geografia, teve a sua primeira e última escala em território português. A primeira, à ida, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, hoje independente. A última, no regresso, na Terceira, nos Açores. Entre ambas as paragens, o jovem Darwin teve o privilégio de observar a diversidade de espécies no Brasil, tropeçou em fósseis de animais gigantes, que o puseram a pensar na razão porque eles se teriam extinguido e, claro, passou mais de um mês nas ilhas Galápagos, onde se cruzou com tartarugas e pássaros e se horrorizou com o aspecto das iguanas.
Durante esses cinco anos no Beagle, o naturalista atento e curioso coleccionou 1529 espécies, que levou de regresso ao seu país, acondicionadas em garrafas com álcool, levou tartarugas vivas, 3907 espécimens secos, 368 páginas de notas sobre zoologia, mais 1383 de geologia e um diário com 770 páginas. Teve tempo ainda para ler Princípios da Geologia, de Charles Lyell's, que o familiarizou com os processos geológicos mudavam naturalmente a face da Terra, conta a Scientific American.
Darwin regressou a Inglaterra em 1836 e nos anos seguintes, publicar um livro sobre a viagem e desenvolveu o essencial da sua teoria da evolução, embora só tenha publicado On the Origin of Species (A Origem das Espécies) em 1959, depois de saber que um outro naturalista inglês, Russel Wallace, estava a desenvolver uma ideia idêntica.
On the Origin of Species (cujos 150 anos de publicação também se comemoram este ano) defendia a origem comum de toda a vida actual num organismo ancestral. A selecção natural dos mais aptos era uma das suas ideias centrais. O livro grangeou adeptos e causou polémica. Até hoje, pela voz dos criacionistas, a polémica continua. Mas o que ciência demonstrou de muitas maneiras neste século e meio foi que Darwin tinha razão. Na verdade, não há biologia sem evolução.


Deixo aqui apresentadas duas peças (selo e FDC) emitidos este mês pelos Correios de Portugal.


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quarta-feira, 18 de março de 2009

Por Gustavo do Carmo



Uma pessoa me disse que blog, principalmente o meu, é coisa de criança. Deve ser um ignorante que desconhece que os blogs são a nova tendência da internet, com vários veículos de comunicação os priorizando em seus portais.


Blog é uma brincadeira para alguém dizer que ontem foi a uma festa, provocar o amigo que torce outro time, criticar o time adversário, contar o que comeu ontem no almoço, mas quando traz notícias em primeira mão, mostra imagens e conta histórias interessantes, reais ou artísticas merecem ser vistos como um trabalho profissional, sim. E neste mundo em crise, são bem mais práticos, gastam menos dinheiro e exigem menos tempo. Ou será que site valorizado precisa ter um monte daqueles efeitos frescos visuais que pesam no seu computador e links que você não consegue achar?

Claro que existem blogs que já nascem com apoio e patrocínio e outros que têm que começar do zero, como é o caso do Tudo Cultural e dos blogs de seus colaboradores. Estes necessitam de muita divulgação e a campanha boca-a-boca ajuda muito. Mas tem gente que em vez de fazer esta última para o bem, faz exatamente o contrário: boicota, sabota e ainda diz que blog é coisa de criança, como se as crianças, mesmo já crescidas, fossem algo negativo.

O Tudo Cultural tem poucas visitas, mas está crescendo. Já teve média diária de 10, 20, 30, 50 e agora está com 70 acessos. Já teve pico de 120 e ontem registrou 108.

E vocês? O que acham?

Blog é coisa de criança?

Este é o debate de estreia da nova seção do Tudo Cultural às quartas-feiras. Os leitores e nossos colaboradores também podem sugerir o seu tema.
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terça-feira, 17 de março de 2009

Por Miguel Angel


De repente, o primeiro plano de Laura apareceu na frente, filtrando e obscurecendo - como abençoado íris -, o Fausto inamistoso e a sedenta platéia de sorriso estúpido... o despenteado, o hálito e o olhar bovino de Laura indicavam que sumira para beber escondida. Sentou ao seu lado e grudou no seu ouvido:
– Lauro, larga esse copo... Vem comigo, deixa te mostrar uma coisa...
(...) Lauro debatia-se com a dificuldade de focalizar Laura, muito mais a mãozinha gorducha mexendo na suas calças. No entanto, ao contrário daquela primeira vez, o excesso de bebida tornara seu pênis refratário ao avanço da mão na braguilha... “A bebida e seus excessos.” (...) E Laura? Onde estava ela? Entre suas pernas! Sumiram os deuses dos bêbados? Não enxergavam sua aflição? Os malditos deviam estar rindo e pulando no seu estômago. E Laura aproveitando-se. Pobre Laura, tinha-o à sua mercê, porém o maldito não correspondia. Em cruel compensação, o estômago soçobrou perigosamente de vazio e álcool. Se vomitasse numa hora dessas, no dia seguinte teria tudo preparado para o suicídio, e jamais encontrariam seu corpo. (...) Vigorosa chupada trouxe néctar ao qual Laura abençoou com a alegria esfuziante de troféu reconquistado e há muito tempo almejado. Com vigor preparou-se para continuar a colheita, subindo o vestido e arrancando a calcinha. Iniciando a escalada do monte, abriu as pernas montando em cima da barriga dele... (...) Ainda tonto, sentiu o calor dos pêlos molhados esfregando-se na sua virilha. A mãozinha gorducha de Laura agarrou o pênis para conduzi-lo “e ele a teria penetrado e gozado com doce sensação”... Foi nessa culminância que a porta se abriu no mesmo supetão e alguém de pé na porta estancou; Laura deu grito de ódio no seu ouvido. “Quem é o merda que está aí? Fora! Não vou dividir com ninguém!” E o ribombar de resposta: “Por que você não se mata, filha da puta!? E leva junto esse vexame alcoolizado debaixo de você!” O resto foi estrondo confuso de gritos, portas batendo, obscuridade e ataque de epilepsia.
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Fragmento do romance> A Cena Muda, de Miguel Angel Fernandez
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domingo, 15 de março de 2009

Por Ed Santos

Quando ele, Eleotário, esteve doente, a mamamia cuidara da loja de animais. O Eleotário pediu pra mamamia que tomate mousse cuidade com o pintosilvio. Eleotário armava o pintosilvio. Sempre armou muito o pássaro que viúva acantar por todos os cântaros da loja. Seu silvio era reconhecido aolonje por sertão longo. Ebélo. Mas na ausência de Eleotário, o pintosilvio não cantava mais. Vivia abatido o passarinho. Sempre de cabeiça bauxa. O coitado sentia soldades de seu donald e pernamecia à penas a piar. Só pia o pintosilvio. Só pia. Pia não pelos cântaros, mas afora, à penas na gaiola.

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sábado, 14 de março de 2009

Por Gustavo do Carmo
Crédito da foto: Paulo Madeira - www.paulomadeira.net , in http://br.olhares.com/espelho_de_sangue_foto1041188.html


Viu seu sangue jorrar do pescoço como um chafariz de praça. Seu corpo agonizava como uma barata esmagada pelo chinelo. Salviano contorcia-se desesperado. Sentiu pena de si mesmo e se contorceu junto com ele.

Correu para o próprio corpo como se quisesse assistir um irmão gêmeo atropelado. Foi contido pela mão macia e branca de uma bela mulher de vestido tomara-que-caia branco – quase revelando os seus seios fartos e naturais - olhos verdes, cabelos compridos lisos e negros, que lhe diz asperamente:

— Não! Pra lá você não volta!

— Mas eu preciso voltar!

— Agora você quer voltar? Na hora de fazer o que fez você não pensou nisso.

— Mas eu me arrependi.

— Agora é tarde. Vai ter que aceitar o que fez e vir comigo.

— Mas por que eu não posso voltar?

— Porque quando alguém nos chama, temos que vir buscar e não podemos retornar sozinhos.

— Mas por quê? O ser humano não tem o direito de se arrepender?

— Em primeiro lugar, há uma despesa muito grande quando somos chamados fora da hora. Deixamos de atender os enfermos, os idosos e aquelas pessoas que nos chamam através de orações para cuidar de casos como o seu. Em nosso estatuto, quem nos chama não pode mudar de idéia. Somente quando ocorre algum ferimento acidental. Então analisamos a gravidade do caso e a missão do acidentado.

— Ora, não me venha com essa filosofia de conglomerado empresarial. Eu me arrependi do que fiz. Ainda assim o meu caso foi um acidente.

— Foi acidente sim. Responde a bela mulher, com sarcasmo. Você esperou a sua família sair de casa, se trancou no quarto e escreveu um bilhete de despedida. Tudo premeditado para evitar que alguém descubra e te socorra a tempo. E ainda vem dizer que está arrependido?

— Não importa se eu premeditei ou não! Quero voltar para o meu corpo antes que não dê mais tempo.

— É exatamente pra isso que eu estou te enrolando.

— Que besteira é essa? Está gozando da minha cara?

— Você é quem está, querido.

— Escute: eu não vou com você de jeito nenhum!!!! Não vou!!!! Entendeu? Eu tenho que voltar para o meu corpo! Eu não posso deixar os meus pais e os meus irmãos. Eles vão sofrer.

— Pensasse neles antes de fazer o que fez! Por que nos chamou então?

— Eu não chamei ninguém.

— Sem saber chamou, sim. E também quis chamar a atenção deles. E realmente conseguiu.

— Está certa. Eu consegui. Mas agora eu me arrependi e quero voltar. Dei só um cortezinho no pescoço. Dá pra me recuperar se você me deixar. Quero voltar para o meu corpo e gritar por socorro.

— Impossível, meu querido. Você rompeu a jugular. Do jeito que espalhou sangue não teria como voltar, mesmo se eu deixasse. Ficaria agonizando por dias no hospital e não escaparia. Olhe para este espelho.

Salviano ficou horrorizado com o tamanho do seu corte. O seu quarto já era uma piscina rasa de sangue. Chorou ainda mais arrependido.

— E se eu não for com você?

— Vai ficar vagando como um zumbi, sem corpo e sem poder influenciar ninguém na terra, pois você não vai ouvir nada. Só vai enxergar vultos em um ambiente sombrio, sujo, fedido e úmido.

— E se eu for?

— Terá uma eternidade de paz, luz, felicidade e ainda poderá voltar para a terra de vez em quando para pedir perdão aos seus pais.

— Só isso?

— O que você quer mais? Não está satisfeito em apenas ir para um mundo de paz apesar do que fez?

— E o que eu fiz foi errado?

— Claro que foi. Tirar a vida sem a vontade de Deus é condenável.

— Não acho. Para mim é um ato de coragem e dignidade. Não é a toa que no Japão essa atitude é bem vista.

— Estamos no Brasil. Cada país tem a sua cultura. Mas, infelizmente, são as regras. E o seu erro não foi apenas o seu suicídio e sim o seu arrependimento tardio depois que eu tive que vir, às pressas, para te buscar.

— Afinal, quem é você? A Morte?

— Diria que sou uma representante divina. Olha, o seu tempo já acabou. Você não pode mais voltar porque já está morto. Daqui a pouco a polícia vai chegar para arrombar a porta e encontrar o seu corpo. Eles já foram acionados porque você se esqueceu que tem vizinhos morando em baixo. Foram eles quem denunciaram porque o seu sangue vazou para o apartamento deles. Seus pais também vão entrar desesperados. E então? Vem comigo ou não? Já sabe o que vai te acontecer se você não vier.

— Eu posso te pedir uma coisa? Eu sei que não mereço.

— Tudo bem, mas você vem.

— Vou. Fazer o quê, né? Não pude me arrepender do que fiz. Responde Salviano, resignado, enxugando as lágrimas. Achei você tão bonita, posso ficar com você na eternidade?

Depois de alguns segundos de hesitação, a bela mulher respondeu:

— Está bem. Você vai viver a sua eternidade ao meu lado e nunca vou me separar de você.

A representante divina transformou-se em uma velha decrépita e gorda com quem Salviano foi obrigado a viver eternamente para aprender a nunca mais cair em tentação.
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quinta-feira, 12 de março de 2009


Por João Paulo Simões



Já me tinham falado da notícia. Ainda não tinha ouvido.
Aqui à dias, ao ver as notícias na SIC, senti-me no mínimo revoltado.
Uma menina brasileira de nove anos foi violada pelo padrasto. Dessa violação surge uma gravidez de gémeos, ao qual a criança não resistiria.
Levada ao hospital por sentir uma dor na barriga, é informada a mãe do facto. Imediatamente o aborto foi feito.
Agora o ridículo da situação e, pergunto eu... Estamos mesmo no século XXI?
A Igreja, pela voz do Arcebispo do Recife, vem a público dizer que o aborto é ilegal, que vai contra as leis de Deus. As leis de Deus não podem ser sobrepostas às leis humanas.
Pergunto eu. A Igreja continua retrógada, não é? A Igreja prefere matar uma criança, e seus filhos gémeos em nome de Deus? Afinal, estamos em que tempo? A Igreja não evolui porquê?
Pois!
É por essas e por outras que as pessoas fogem cada vez mais da Igreja!
Não sabe evoluir, acompanhar a Sociedade...
Mas mais grave!
Esta criança que não teve culpa das violações do padrasto, ainda é excomungada, bem como a família e os médicos que a salvaram!
Resta dizer que o violador do padrasto sai como herói da cena, embora com uma ligeira repreenção por parte da Igreja. "Também teve culpa, mas não é excomungado".
Ora bolas para os clérigos!
Ai se eu mandasse!
Que me perdoem os Leitores pela expressão. Mas eu mandava cortar os "ditos" ao indivíduo, para se lembrar para o resto da vida do que tinha feito!
E o Lula subiu na minha consideração!

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Por João PauloSimões



Como já referi num artigo anterior, as guerras têm grande impacto na Filatelia.

Em relação ao tema de hoje, as emissões de Ceres, devido à I Guerra Mundial, eram imperfeitos, de má qualidade, por parte da Casa da Moeda. A má qualidade do papel e das tintas, contribuíam para falsificações dos selos bem como o desgaste das máquinas que não eram arranjadas por razões económicas. Foi então estudado um novo tipo de selo base (Lusíadas) mais trabalhado, sendo mais demorada a sua execução, tendo sida mandada fazer no estrangeiro.

Foi escolhida a firma Thomas de La Rue & C.ª Ltd. de Londres, que entregou esta ao desenhador e gravador Eugénio Carlo Alberto Meronti, com o objectivo de trabalhar e transformar o anterior desenho de Constantino Fernandes, de modo a que desenho e gravura melhor se pudessem adaptar à litografia. O papel utilizado é pontinhado em losangos, sendo os selos tipografados em folhas de 100 selos com denteado 13,5x14, em cores nítidas mas com diferenças de tonalidade entre as 13 tiragens a que tiveram de recorrer, por não autorizar o Ministério das Finanças, uma encomenda do valor considerado necessário devido a dificuldades financeiras. Foram emitidos 8.245.000 selos de $02 chocolate, 8.125.000 selos de $03 azul, 21.055.000 selos $04 amarelo laranja, 20.195.000selos de $05 sépia, 4.500.000 selos de $06 castanho claro, 23.000.000 selos de $10 carmim, 27.400.000 selos de $15 preto, 3.200.000 selos de $16 ultramar, 15.750.000 selos de $25 cinzento, 1.920.000 selosde $32 verde escuro, 111.200.000 selos de $40 verde esmeralda, 1.170.000 selos de $48 rosa escuro.


(baseado em Livros Electrónicos de Carlos Kulberg)


Nota-se na imagem do selo, um trabalho mais perfeito, com desenho e serrilhas muito mais certas e cores mais vivas. Todo o selo é homogéneo, completamente diferente das anteriores séries de Ceres já aqui tratadas.
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terça-feira, 10 de março de 2009

por Miguel Angel

Ilustração: Projeto de capa
(...) Raquel encostou-se no parapeito e soluços sacudiram-lhe o corpo. Ezequiel achegou-se, cobriu-lhe, com a sua, a mão que agarrava a balaustrada. Ele se deu conta que as lágrimas eram de fúria quando ouviu sua voz.
– Viu? Ficou inutilizado do juízo desde que aquela sonsa de minha irmã foi levada pelos paraguaios. E vêm essa discurseira doida de índios bestializando sua avó, sempre nos culpando, ameaçando. Não bastavam os paraguaios malditos rondando por aí? Que nada! Dentro da nossa própria casa tem esse perigo! Esta noite, quase consegue matar uma de nós. Foi lucidez ou errou o tiro? Vamos esperar até o dia que mate a gente? Hoje decidi. – ela agarra a mão dele. Aperta-a. Fita-o nos olhos, suas lágrimas secaram, mas um outro brilho as substitui. É determinação mortal. Ezequiel presente o desatino e tenta desviar.
– Amenhã de menhã, os véios mais eu, tamo de viagem pra chapada. Vosmecês vem coa gente, não vem? – Raquel com a ideia fixa de um rancor antigo, pede.
– Só vosmecê pode nos ajudar a terminar com essa agonia maluca.
– O que Ezequiel pode fazê?
– Deve haver um jeito de... – O negro reluta em admitir que entendeu o solicitado e tenta retirar a mão, de entre as dela. Ela se o impede e, apertando-a com mais força, leva-a até o colo, encosta o corpo no dele.
– Sei o que sinhá me pede? – se esquiva de olhar para ela, pretextando procurar lua que não há, pergunta. – Onde a lua se esconde quando não ta à vista, sinhá? – tenta se separar, ela lhe agarra a cintura, aperta-o contra si.
– Nos meus olhos, Ezequiel. Acha ela. – ele obedece e ouve. – Me ajude, antes que eu mesma o faça.
– Sinhá faria o que me pede?
– Não permita, Ezequiel.
– Que me pede, sinhá? Seu pai... meu senhor.
– Aquele homem não é meu pai e deixou de ser teu amo desde...
– Nem Raquel é mais sinhá! – interrompe ele, encarando o céu novamente, onde só encontra densas nuvens sombrias. Mas a boca da sinhá insiste, encostada em seu ouvido, e admite:
– Por isso não ordeno. Imploro.
O negro reluta, arranca sua mão presa entre as dela, dá um pulo no parapeito e no chão do trilho que rodeia a casa, antes de se embrenhar na noite às léguas, ouve a sentença de Raquel:
– Se não tu, serei eu!

*

A noite toda Ezequiel resmunga indecisão, até o dia raiar, com desatino traçado.
Na entrada da casa grande, Ezequiel amarra no poste as bridas do cavalo que puxa uma charrete, e chama Raquel com um grito. Espera pouco e lhe pede para deixar sair o pai, quer conversar com ele.
Notando a vara de pescar que segura numa das mãos, ela corresponde ao pedido e volta ao interior da casa, sem nada lhe perguntar.
Minuto depois, algo ressabiado, mas contente com a liberdade, o velho aparece na porta, e ao vê-lo, se achega a Ezequiel com interrogação no olhar. Quem fora escravo, apazigua o velho com uma conversa que Raquel, observando os dois homens desde a varanda, não pode ouvir, mas que provoca em seu pai sorrisos e gestos acriançados. D. Eduardo segura a vara de pescar que Ezequiel lhe oferece e se deixa conduzir até a charrete. Ambos sobem e ao trote, se afastam sob o olhar ansioso de Raquel.
*
Na beira do rio Aquidauana, D. Eduardo e Ezequiel observam a chalana que, segura por cordas, sacoleja nas águas agitadas pelo vento, prenunciando temporal.
O preto volta à charrete estacionada a pouco mais de dez metros e, pretendendo tirar as varas de pescar de seu interior, se demora na trama das linhas.
De onde se encontra, o velho Eduardo observa atentamente a tardança de Ezequiel que, de costas para ele, manobra a travanca das varas. Então, vagarosamente, chutando os cascalhos da margem, o velho senhor se acerca da embarcação, sobe nela e a desata; com ajuda de um bastão, empurra-a afastando-a da margem, senta no seu interior, joga fora o remo e se ajeita, segurando-se nos costados; depressa a correnteza captura a chalana e o rio se encarrega de arrastá-la curso abaixo. Ezequiel larga das varas, e se vira para observá-lo se distanciar até perder-se na curva do rio. Levanta seu olhar para o céu e a tormenta lhe sinala com um relâmpago, que está por chegar. Agastado, joga longe as varas, trepa na charrete e governa o cavalo para o retorno.
Irrompe a chuva torrencial ao chegar à porta da casa grande. Na varanda, imóvel, está Raquel, no mesmo lugar de onde vira partir os dois homens; nenhum dos dois se importa com o aguaceiro que os encharca. Ezequiel vai onde ela está. Ao chegar perto, sacode o rosto para tirar a água que lhe anuvia o olhar. Raquel não tira a dos seus.
Um relâmpago e um trovão:
– Sem importar do jeito, só quero saber se vai voltar.
Um segundo relâmpago e outro trovão:
– Não. – Assegurou Ezequiel.
Antes de entrar na casa, Raquel disse para si e ele ouvir:
– Preciso mentir a mamãe. E preparar a mudança.
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Fragmento de capítulo do romance "Moscas e Aranhas de Guerra" de Miguel A. Fernandez
Em finalização.
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domingo, 8 de março de 2009

Por Ed Santos
foto: http://www.indizivel.com/images/mulher_1280x960_notext.jpg

Queria falar da importância da mulher neste oito de março de dois mil e nove, mas não sabia bem ao certo o que dizer. Me veio a idéia de escrever sobre Leila Diniz, mas não tenho conhecimento suficiente pra explorar a importância que ela representa para o país e para as mulheres. Pensei então em falar sobre a mais nova celebridade feminina mundial, Michelle Robinson Obama, mas aí é que me falta conhecimento mesmo.
Poderia mesmo até falar de várias mulheres ao mesmo tempo, cada uma representando sua atividade. Derci Gonçálves no campo das artes, Clarice na literatura, Hortência no basquete, Marta no futebol, Daniele Hypolito na ginástica, Carmem Miranda na música (vamos aproveitar o centenário), e se formos destacar os estilos, então teremos: Rita Lee para o rock, A primeira-dama do samba Dona Ivone Lara, Nara Leão para a bossa nova, e assim vai.
Poderia falar das mulheres da minha vida: minha mãe, avós, primas, tias, esposa e filha, sem contar com as diversas professoras ao longo da vida, as tias da cantina e depois já na fase adulta, no trabalho, as chefas e as tias do café.
Ficariam faltando as que realmente representam a importância feminina: as mulheres-mulheres. Aquelas que cuidam da casa, dos filhos, dos maridos. Aquelas que trabalham fora, ralam pra ajudar no sustento da família, que sofrem as mais duras agressões. Aquelas que são discriminadas, que são violentadas, que encaram a vida com toda força e gana, e que possuem “a estranha mania de ter fé na vida”.
Para essas mulheres apenas um dia no ano é pouco. Seria necessária uma vida inteira para reconhecer o valor de cada uma delas. Muitas ficam felizes com a comemoração, mas uma grande parte não faz nenhuma questão de comemorar, pois estão tão envolvidas cada uma em sua rotina, que o data passa despercebida. Então, só resta lembrar Lenine pra finalizar:

... Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Steve Wonder, ó minha parceira.
Você é pra mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
 Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna pra Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby pra Waly Salomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.

Só você;
Mais que tudo e todas, é só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.
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Gustavo do Carmo

Quando completou dez anos de vida uma tradição iniciou-se para Miraela. A cada três anos ela visitava a rodoviária da cidade onde nasceu, no interior do estado do Rio de Janeiro. E o passeio não era nada agradável. Terminava sempre em lágrimas provocadas por tristes despedidas.

O pai foi tentar a sorte em São Paulo. Nunca mais deu notícias. Depois, a irmã mais velha foi trabalhar em Belo Horizonte. Aos dezesseis anos abraçou, emocionada, a amiga de infância, que foi morar em Porto Alegre. O primeiro amor partiu com destino a capital, onde embarcaria para estudar nos Estados Unidos. Estava com vinte e dois anos quando viu a mãe ir embora para São Paulo encontrar-se com o novo namorado e, juntos, voarem para Paris.

A rodoviária deixou de ser o amargo passeio onde Miraela se despedia de pessoas tão queridas em sua vida para se tornar o seu árduo sustento. Trabalhou na bilheteria de uma empresa de ônibus. Durante quarenta anos testemunhou, por inúmeras vezes, as mesmas despedidas que viveu.

Aposentada, já tinha filhos, genros, noras e netos quando embarcou no primeiro ônibus que saiu da rodoviária. Não se despediu de ninguém.

Conto republicado em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Parabéns a todas as mulheres!
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sábado, 7 de março de 2009

Por Gustavo do Carmo


Crédito da Foto: Karl Tacheron - Dicionário Fotográfico (The Photographic Dictionary - www.thephotographicdictionary.org



Uma festa de quinze anos em uma casa de festas no subúrbio está no final. O DJ toca a última música. How Deep is your Love, grande sucesso dos Bee Gees, rola na caixa de som em um volume moderado ao ritmo do globo de vidro que gira no teto para fazer reflexo no único casal de meia-idade que dança na pista vazia, pois a última metade dos convidados começa a deixar o local se despedindo, praticamente em grupo, da aniversariante, morena clara, de olhos verdes, bonita, mas que se acha gorda por causa das suas pernas grossas e do busto grande, e da sua mãe, uma senhora de cabelos curtos tingidos de vermelho, recém-entrada na menopausa dos seus cinqüenta e quatro anos.

O pai da debutante, com seus cabelos grisalhos e óculos bifocais de aro fino e que se recusa a revelar a sua idade, conversa com o diretor da empresa onde trabalha, um senhor barrigudo de setenta anos, de cabelos brancos. O paletó aberto do anfitrião mostra a etiqueta da loja onde o terno foi comprado em três vezes sem juros. O fotógrafo, para encontrar o melhor ângulo para as suas últimas poses, quase se senta no colo do anfitrião da festa.

A balada dos Bee Gees termina. O DJ desliga a aparelhagem e guarda os discos. Se prepara para ir embora. Aparecem os cinco faxineiros, que varrem o salão praticamente vazio. Os garçons, na cozinha, conversam aos gritos e afrouxam as gravatas. O cozinheiro guarda as panelas, limpa o fogão e lava as bandejas.

O pai da aniversariante que estava conversando com o diretor da empresa, que já foi embora, vai ao escritório da casa de festas para acertar a conta. A aniversariante feliz e a mãe emocionada, acompanhada do filho caçula de dez anos, tímido e de óculos “fundo de garrafa”, aguardam impacientes pelo pai e marido para irem embora para casa.

O segurança rondava o salão para checar se estava tudo em ordem. Acorda o idoso que está dormindo na cadeira próxima à varanda. Socorre o bêbado caído na escadaria do salão. Vai ao banheiro, ouve gemidos de prazer e bate a porta. Sem resposta, arromba e flagra dois jovens transando. São expulsos aos empurrões.

O DJ já foi embora. Ganhou uma carona dos anfitriões da festa encerrada. Os cozinheiros se despedem dos colegas faxineiros e seguranças e vão embora, se dirigindo ao ponto de ônibus mais próximo. Os faxineiros também se preparam para voltar para casa.

As últimas luzes se apagam. Sem esperança de receber pelo serviço de filmagem que eu fiz na festa, vou embora. A dona da casa de festas realizava o último evento no local, que encerrará as suas atividades. Ela foi embora para não pagar os funcionários, pois estava com vergonha de contar que está endividada e que o dinheiro que recebeu do anfitrião da última festa não vai dar para pagar nem a conta de luz.

Na saída, passo pela piscina e vejo um corpo boiando na piscina. Mas não tenho o menor interesse em registrar a cena e nem avisar à polícia. Já guardei a câmera e estou cansado, louco para voltar pra casa onde ainda terei que decupar e editar as imagens da última festa da Casa da Felicidade.
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sexta-feira, 6 de março de 2009

Por Dudu Oliva

Tome cuidado para não ser mãos de ninguém, não seja simplesmente fios condutores de pensamentos alheios. As mãos não pensam, agem de acordo com os desejos humanos, por isso, não têm culpa de seus atos. O ser humano possui a responsabilidade de suas ações. Como as mãos, muitas pessoas através dos séculos são manipuladas, transformando em ações os desejos de indivíduos cruéis e manipuladores.
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quinta-feira, 5 de março de 2009







Por João Paulo Mesquita Simões




Tendo-se verificado em finais de 1923 uma nova desvalorização do escudo em relação ao franco-ouro, foi necessário fazer uma alteração às taxas com aumento de portes fixado por decreto de 11 de Fevereiro de 1924 (esta nova tabela vigorou durante 17 anos). Foi criada uma nova série para satisfazer as necessidades futuras, com os selos impressos tipograficamente na Casa da Moeda em folhas de 180 selos com denteado 12x11,5. Utilizou-se papel liso (fino ou médio), tendo sido emitidos 11.880.000 selos de 2 centavos amarelo, 2.700.000 selos de 6 centavos
castanho claro, 1.800.000 selos de 8 centavos amarelo laranja, 1.800.000 selos de 16 centavos ultramar, 10.620.000 selos de 20 centavos cinzento, 1.260.000 selos de 30 centavos canela, 1.260.000 selos de 32 centavos verde escuro, 95.120.000 selos de 40 centavos chocolate, 900.000 selos de 48 centavos. rosa escuro, 540.000 selos de 64 centavos ultramar, 6.120.000 selos de 80 centavos violeta, 54.000 selos de 96 centavos vermelho.Em 1926, utilizou-se papel lustrado espesso. Foram emitidos 7.020.000 selos de 1$00 ardósia 360.000 selos de1$20 bistre, 2.700.000 selos de 1$50 lilás claro, 6.480.000 selos de 1$60 azul escuro, 1.440.000 selos de 2$00 verde cinzento escuro, 45.000 selos de 2$40 verde seda, 45.000 selos de 3$00 rosa claro, 135.000 selos de 3$20 verde azeitona, 158.400 selos de 5$00 verde esmeralda, 68.400 selos de 10$00 rosa e 113.400 selos de 20$00 azul turquesa.Por portaria de 25 de Maio de 1926 foram retiradas de circulação várias taxas das anteriores emissões “Ceres”, por não se justificar a sua existência, e bem assim emitir os valores de $02 $04 $25 e $40 em novas cores para evitar que se confundissem com os selos representativos dos portes internacionais($32 e $96). Foram emitidos 2.160.000 selos de $02 chocolate, 720.000 selos de $04 laranja, 900.000 selos de $25 cinzento, e 3.420.000 selos de $40 verde esmeralda.(Baseado em Livros electrónicos de Carlos Kulberg)Por serem séries com muitos selos, deixo aqui representados alguns valores dos anos de 1924 a 1926, nomeadamente o de 6 centavos de 1924, e 40 centavos de 1926.
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terça-feira, 3 de março de 2009

de Miguel Angel


Rodeando a cama, foi até a cabeceira. Os braços abertos, um deles balançando na borda da cama, o corpo relaxado; as pernas abertas de Magda aguardavam. Impacientes.

- Vai, mulher, que estás esperando? - obedecendo imediatamente, colocou as mãos sobre as costas da outra e lá as deixou, quietas, patetas. Sentindo. Pelas palmas abertas, por todos os dedos, o calor daquele corpo penetrou por eles formigando e subindo à face, lá se alojou anuviando seu olhar. Incômoda de pé, ajoelhou-se na borda da cama. Então, obedecendo o impulso, acariciou a pele branca, mas sem jeito, de maneira brusca.

- Esse frasco rosa é creme - maquinal, pegou o frasco e o abriu, derramou abundantemente, sem conseguir evitar parte dele cair também no dorso de Magda. Esta se arrepiou ao sentir o líquido cremoso e frio sobre si, contraiu as nádegas em lenta fricção.

- Gostoso. Trepa na cama, em cima de mim, avec plaisir - com dificuldade, ela obedeceu, mantendo as mãos afastadas e levantadas, semelhante a cirurgião preparado para operação. De joelhos, tinha entre as pernas o corpo de Magda se aquietando, aguardando. Jandira se inclinou e, com as mãos espalmadas nos ombros, apertou, massageou. Do pescoço desceu até o fim da espinha. Saia enrolada na cintura, calcinha exposta, roçou o traseiro arrebitado de Magda, que rebolou ao ritmo da massagem, esfregando-se para provocar deliberadamente o contato dos corpos. Isso ela nunca fizera com Paulinho. E o que sentiu nunca sentiu nem com ele, nem com o pai dele. Novo, diferente. E o que estava sendo bom subitamente a assustou. Magda virou-se de repente, ficando cara a cara com ela. Jandira parou com as mãos levantadas e lambuzadas, sem saber o que fazer. Magda sabia. Segurou-a primeiro pelos braços e, sem lhe oferecer resistência, deixou conduzir suas mãos até serem colocadas sobre os seios. Fragrância de creme e do corpo, o olhar, a intimidade brusca surgindo entre elas, e em seguida o massagear natural nos seios redondos, grandes e tão brancos, confundiram Jandira; não sabia mais se aquilo era massagem ou carícia. Ouvira falar dessas safadezas, de mulheres se acariciarem, contudo nunca imaginara que ela mesma... Acarinhar uma mulher, as curvas do corpo, as nádegas, a pele, os seios... A sensação dos dedos dela entrando pela sua calcinha foi um assombro grato que lhe acelerou a respiração, aumentou as batidas cardíacas e lhe fez morder o lábio. Aquela mulher sempre fora boa. Alguém colocara os dedos dentro dela desse jeito? Quem a acariciara desse modo? Alguém a puxara de leve pelos braços até chegar tão perto de seu rosto que a união de suas bocas foi inevitável? Quem mordiscara seus lábios molhados e pusera daquela maneira a língua dentro dela? Arrancara blusa, sutiã e sugara seus seios assim, sem machucar, como um bebê safado? Santo Deus, ninguém! Dona Magda era tão gostosa, tão perfumada, as mãos não paravam quietas, o corpo molhado apertava e esfregava com tanto ardor... macio. Macio como seus lábios grossos de língua rósea. Dona Magda! Ela sempre fora generosa. Gorjeta por massagem assim, dessa maneira tão... tão diferente... esse rosto lindo e generoso, no momento entre suas pernas, dentes tão brancos mordiscando coxas, língua entrando, saindo e lambendo. Que preço cabia nessa gorjeta?

– Magda, posso entrar? Preciso te falar – irrompeu a voz abafada do marido do outro lado da porta.

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Extraído do capítulo: “Ricardo Alvarenga, Jantar Je ne sais quoi e Gorjeta Inesquecível Esperam Magda e Jandira se Conhecerem Melhor”. do romance A CENA MUDA de Miguel Angel Fernandez
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segunda-feira, 2 de março de 2009


Texto: Divulgação
Introdução de Gustavo do Carmo

Como todo aspirante a escritor, já fui recusado por várias editoras. Eu tenho até uma coleção das famosas cartas de recusa, inclusive uma de Portugal. Curiosamente fui rejeitado pessoalmente pela editora que publica o livro que é a Dica da Segunda desta semana: A arte de recusar um original (Rocco, 144 páginas, formato 12,5x20cm, 25 reais).
Enfrentei uma fila enorme para pegar o crachá de identificação para entrar no edifício onde fica a nova sede da Rocco, no Castelo, junto com um forte vento que vinha da Baía da Guanabara, depois meia hora de chá de cadeira para ouvir que eles não publicavam contos.
Estas são apenas algumas das dificuldades que as grandes editoras impõem para não publicarem os livros que não são dos amigos ou não foram escritos por celebridades. As outras são o excesso de normas e a obrigação de enviar o material impresso pelo correio. Até que a Rocco está facilitando um pouco e agora está pedindo o envio de CD ou disquete. Mas enviar por e-mail ficaria bem melhor.
Voltando às cartas, escritas naquele padrão elogioso que não tem nada ver com o que o editor avalia, eu ainda não tinha imaginado uma resposta mais sincera, mas o escritor canadense Camilien Roy, sim. Ele brincou com a situação dos ingênuos escritores (eu, inclusive), criou 99 formas diferentes de rejeitar projetos de autores iniciantes e as reuniu no livro A arte de recusar um original, traduzido por Pedro Karp Vasquez.
Com elementos próprios da paródia e da sátira, ele revela como uma crítica pode destruir os sonhos de um animado e esperançoso escritor.

Não existe autor que não tenha sido recusado ao menos uma vez e existem milhares que o foram dezenas de vezes. Existem inclusive recusas que se tornaram célebres, como a de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, por André Gide – erro que ele passou o resto da vida se penitenciando por ter cometido.

Se a recusa é inevitável, o melhor é estar preparado para lidar com ela, seja em que ponta da indústria literária você estiver. Camilien Roy imagina diferentes respostas negativas de editores ao original recebido: há a do editor frustrado e desiludido que não aguenta mais receber romances ruins; o preguiçoso, que sequer lê o que lhe mandam mas já o recusa de pronto; o furioso, que agressivamente dispensa a obra do pobre escritor; o analítico, que se perde em muitas linhas para uma simples negativa; e o paternalista, que diz “não” mas tenta impedir o destinatário de desanimar na carreira literária. Há ainda versões mais surpreendentes, como uma carta de recusa escrita de forma poética, em forma de texto teatral e até mesmo em forma de romance épico.

A arte de recusar um original é um divertido exercício que mostra como é dura a vida de um aspirante a escritor que deseja estrear na literatura. Mas, mesmo depois de ler este livro, quem ainda quiser se arriscar, com certeza sabe o que quer, o que não quer dizer que irá conseguir: experimente mandar seu original, e aguarde suas próprias cartas. Boa sorte!
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domingo, 1 de março de 2009

Por Gustavo do Carmo

Hoje é aniversário da cidade do Rio de Janeiro, que está completando 444 anos. Uma data que deveria ser lembrada com um feriado (apesar de neste ano cair num domingo). Mais um? Não. O 1º de março deveria substituir alguns feriados estaduais e nacionais desnecessários à nossa cidade.

A cada ano o Rio recebe um presente de grego: mais favelas, mais sujeira, mais políticos corruptos e mais moradores querendo trocá-lo por São Paulo, que, graças à mídia, se tornou o novo eldorado do Brasil, principalmente para as nossas belas jornalistas.

Se SP está cada vez mais valorizado e o nosso estado mais abandonado, devemos agradecer a algumas pessoas que adoram criticar o Rio, mas não fazem nada para mudar a situação e ainda aceitam o que já se tornou um imperialismo. Claro que os paulistas (queridos como os nossos colaboradores Miguel Angel e Ed Santos) também fazem a sua parte, defendendo com unhas e dentes o estado deles da mesma forma que deveríamos fazer com o nosso. O paulista deve ser visto como um exemplo e não como um inimigo. Os nossos inimigos somos nós mesmos. Não é, Rede Globo?

O meu presente para o dia de hoje é, mais uma vez e imitando o blog do Eduardo Sander, o Patolino, um documentário produzido pela MGM, mostrando imagens da cidade do Rio de Janeiro gravadas em 1936, que faz muito sucesso no You Tube. Chamado de "City of Splendour" mostra imagens de um Rio pacato que já se foi e não voltará mais. Primeiro pelo crescimento da cidade. E segundo pelos motivos que eu falei acima, além do culto da sociedade à desordem urbana, social e cultural, promovendo uma irreversível inversão de valores.



Rede Globo, em 2015 eu quero ver uma comemoração tão ou mais especial para o Rio como você fez para os 450 anos de São Paulo em 2004.
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Por Ed Santos

Chegamos na Bahia, a terra da alegria! Pena que não vamos ficar na mesma pousada, eu e os japoneses. Eles são muito bacanas.

        Fui logo entrando e fazendo minha ficha na recepção. A decoração é rústica, simples, mas muito charmosa. Os donos são de muito bom gosto. A recepcionista, simpática e atenciosa, passa todas as informações e diz que os donos do estabelecimento fazem questão de tomar café da manhã com os hóspedes para lhes desejar boas vindas. Gostei daqui. Acho que vou ficar por muito tempo e sem me preocupar em retornar.

        Depois de um banho e uma soneca, desci e tomei um suco de acerola no bar da piscina. Uma senhora se aproxima e começamos a conversar sobre vários assuntos.  Engraçado, parece que aquela mulher me conhecia à séculos, tão grande foi nosso entrosamento. Num momento do nosso papo ela vira pra mim e diz: “Você é uma pessoa boa, mas tem muita coisa pela frente que terá que enfrentar. Mas você vai conseguir o que quer sim, tenho certeza. Na hora certa você vai descobrir”. Ela saiu e me deixou só no bar. Já estava no começo da noite e fiquei pensando no que ela me disse. Comecei a rever minha vida inteira. Voltei ao passado e refleti sobre muita coisa. Fiquei perplexo com tudo aquilo e percebi que no alto da minha idade, nunca tinha parado pra pensar de verdade na vida. Chorei e vi que eu estava certo nas minhas decisões. Vou ser feliz.

        Acordei cedo, mas já com o sol quente. Fui pro café da manhã e não sabia ao certo o que fazer durante o dia. Estava me sentindo tão bem, tão leve naquela manhã que não programei nada. Iria apenas deixar o tempo passar. O papo com àquela senhora ontem foi muito bom.

        Sentei de costas para a varanda que dava para a piscina da pousada. De repente, ouvi pelas costas duas vozes em uníssono: ”Bom dia!”. Virei-me, e quando vi os dois de mãos dadas, congelei. Era a Marilda e o Catatau. Minha mulher e meu genro. Os dois eram os donos da pousada que vieram tomar café da manhã junto de seus hóspedes.

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