VAI QUE ELA É FEMINAZI


Conto de Gustavo do Carmo


Cansado de ouvir minhas reclamações sentimentais e de falta de mulher, um ex-colega da faculdade me reencontrou (porque eu não procuro mais ninguém) e me arrastou para um barzinho na Lapa.

Me perfumei todo, lavei bem a minha pele e avisei aos meus pais idosos que talvez não chegasse em casa à noite. Peguei um táxi e fui me encontrar com o meu ex-colega.

Já me deu vontade de ir embora por causa do barulho e da pouca iluminação. Mas ele me bloqueou segurando meu braço e acabei ficando. Separado da mulher, disse que uma mulata estava me observando. Falei logo com sinceridade:

— Desculpa, amigo! Mas não quero namorar negras. Por isso que eu despachei aquela amiga que você me apresentou uma vez.
— Ah! Deixa de ser racista, cara!
— Não gosto! Vou ter que gritar?
— Grita!
— Não gosto de preta, porra! O preto só quer casar com branco! Se ele está no direito dele eu também estou no meu. Só gosto de mulher branca! Gritei. Exatamente na hora em que o som parou.

Todos olharam de cara feia para mim. Meu amigo, convencido da minha imaturidade, revirou os olhos, arfou e resignou-se da minha preferência. Viu uma ruiva de cabelos ondulados, magra e seios fartos passando por trás de mim. Estava acompanhada de uma negra. Aparentemente, não ouviram a minha gafe.

— Ó! Passou uma do tipo que você gosta. Vai lá falar com ela.
— Eu, não! Não procuro mais ninguém.
— Vai, sim! Senão vou te contar aquele teu segredo.

Sem lembrar que segredo era esse, entendi que isso foi uma motivação para eu ir paquerar a moça. Decidi me levantar e arriscar. Voltei.

— Fiquei com medo.
— Não, senhor! Volta lá! Senão vou te arrastar até lá e aí é que você vai passar mais vergonha ainda.

Resolvi ir de vez. Me aproximei da moça, que estava sozinha no lounge.

— Oi, tudo bem?
— Tudo bem merda nenhuma, seu machista, misógino, coxinha, estuprador, tarado, vagabundo, canalha, mau-caráter...

A negra que estava com ela completou:

— E ainda é racista! Ouvi muito bem ele falar que não gosta de negras!
— Mas eu não gosto mesmo. Por isso escolhi a sua amiga para tentar um relacionamento.
— E ainda assume!
— E também assume que é assediador! Quem é você? Completou a ruiva.
— Eu só queria te namorar. Mas vi que você não quer nada comigo, vou para casa.
— Não vai pra casa, porra nenhuma! Você vai pra cadeia, seu tarado! Assediador! Nem se eu fosse hétero eu iria para cama com você. Eu sou lésbica, e a Gerusa é minha noiva!

Em seguida, a moça ruiva chamou a polícia. Fui parar na delegacia e depois fui logo transferido para um presídio de segurança máxima. Meu ex-colega de faculdade fugiu. Só fui solto por interferência de um advogado, amigo do meu cunhado, que foi procurado pela minha mãe, preocupada com a minha demora. Só tive direito a dar um telefonema, mas ninguém em casa atendeu. Meus pais estavam dormindo.

Não consegui conquistar uma mulher. Só dois processos: um por assédio sexual e outro por injúria racial, dos quais fui absolvido no primeiro e condenado no segundo a prestar serviço comunitário numa favela.

Nunca mais vou paquerar ninguém. Vai que ela é feminazi.

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