segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A COPA DO MUNDO É GORDA



Crônica de Gustavo do Carmo
               
A FIFA anunciou no mês passado que vai aumentar o número de seleções da Copa do Mundo de 32 para 48 países a partir de 2026, ainda sem sede definida. Uma medida claramente política, principalmente para beneficiar a África e a Ásia, que com 9/10 e 8/9 vagas, respectivamente, terão mais países que a América do Sul. 

Beneficiar a Ásia é até compreensível, pois aumentar o número de vagas pode trazer países árabes dos petrodólares que a FIFA adora, como Catar (sede da Copa de 2022), Bahrein, Emirados Árabes (que não disputa uma Copa desde 1990, sob o comando do brasileiro Parreira) e Arábia Saudita. Ah, claro, tem a China também, que não é árabe, mas é rica.  

Já a África não merece esse populismo. Não é por racismo, mas por questões técnicas e políticas dentro do próprio continente. Primeiro, porque em quase cem anos e vinte edições de Copa do Mundo os africanos só chegaram três vezes às quartas-de-final: com Camarões em 1990, Senegal em 2002 e Gana em 2010. Além disso, em quase todas as Copas, há um time fazendo greve com a federação local às vésperas do embarque para o evento. Já a América do Sul tem 9 títulos. Como podem os africanos ficarem com até 10 vagas e nós apenas 6 ou 7? A Ásia, pelo menos, chegou à semifinal com a Coreia do Sul em 2002.

Pela proposta de distribuição de vagas, a Europa ficaria com 16, a África com 9 mais 1 da repescagem, Ásia 8+1, América do Sul 6+1, Américas do Norte e Central (CONCACAF) 6+1 e, finalmente, uma vaga direta para a Oceania (que a Austrália tanto queria, mas como não foi atendida se mudou para a federação asiática), além do país-sede. Os famigerados play-offs intercontinentais seriam mantidos.

Eu até aumentaria o número de vagas para a África e a Ásia. Desde que a América do Sul tenha mais países. Minha distribuição seria assim: 16 vagas para a Europa, 8 para a América do Sul, 7 para a África (2 a mais do que já tem), 7 para a Ásia (ganharia mais 3 vagas diretas), 6 para a CONCACAF (atualmente com 3 diretas), 1 para a Oceania, o país-sede, devolveria a tradicional vaga para o último campeão e daria uma vaga para o campeão da Copa das Confederações do ciclo anterior, ou seja, da edição de 2021. Pois este torneio tem que servir para alguma coisa além de evento-teste para o ano seguinte e iludir os torcedores do país campeão, como o Brasil, que meteu 3x0 na então badalada Espanha no Maracanã lotado para no ano seguinte tomar de 7 da Alemanha no Mineirão. E acabaria com essas repescagens mundiais, abrindo espaço no calendário para continentes decidirem as suas últimas vagas. Se um país africano ou asiático ganhar uma Copa do Mundo até apoiarei uma redistribuição.

Se uma Copa do Mundo tiver duas ou mais sedes, a segunda desconta do continente (por exemplo, em 2002, a Ásia teria uma vaga a menos). Caso inventem de ter dois países sedes em continentes diferentes, haveria um playoff entre as sedes. O continente perdedor fica com uma vaga a menos.

Da mesma forma que não adianta eu ficar reclamando da “amarelona” África ter mais países que a vitoriosa América do Sul e sugerir a minha distribuição de vagas, também não adianta me posicionar contra o aumento de vagas na Copa do Mundo. Não adianta falar que o nível técnico dos jogos vai cair, que vão surgir mais “clássicos” como Filipinas x Panamá, que o tempo de descanso para manter os 32 dias vai diminuir, que a combinação de resultados vai aumentar, que os países sem tradição vão continuar sendo prejudicados, pois deverá acontecer mais jogos simultâneos nas duas primeiras rodadas e as TVs vão priorizar os jogos mais rentáveis, etc... o Infantino só quer saber de dinheiro na sua conta da Suiça. 

***
Não sou tão velho quanto pensam. Quando comecei a acompanhar a Copa do Mundo da FIFA ela já tinha 24 seleções. Foi a de 1990. Da de 1982 só lembro do clima de torcida pelo Brasil, com as decorações verde-e-amarela pelas ruas e ações de marketing (como o compacto do Café Pelé com os hinos dos clubes cariocas com a Xuxa modelo na capa). E a de 1986 só torcia pelo Brasil. E ambas já tinham 24. Na última Copa com 16 países, em 1978, eu era um bebê e não tinha nem um ano.  
Já era um adolescente e fã de futebol quando finalmente vi o Brasil ser campeão e estava na faculdade quando foi disputada a primeira Copa com 32 países. Voltei para a faculdade quando vi o Brasil ganhar pela segunda vez, desta vez conquistando o penta. Já terei quase cinquenta anos na primeira Copa com 48 times.

A Copa do Mundo vai engordando como a Copa São Paulo de Futebol Júnior (que começou com apenas 4 clubes, comecei a acompanhar com 36 e em 2017 teve 120) e o meu peso corporal. E a Eurocopa vai pelo mesmo caminho (eram 4, 8, 16 e agora 24). Eu preciso fazer um regime. Dona FIFA e Dona UEFA vão fazer também?

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