terça-feira, 16 de julho de 2019

Cartas para ninguém (77, 78, 79 e 80)



- 77
Eu dei a ideia para que fizéssemos uma festa de aniversário a dois. Apenas eu e ela.
Um jantar romântico, alguma coisa desse tipo.
Dei argumentos também:
1º) Minha mãe odiava festas. E ela não viria pra cá só por conta de uma festinha de aniversário idiota. Essa é a minha mãe.
2º) Os pais dela também não fariam esse esforço.
3º) Quais outros amigos eu tinha, além de você, do Robinson, do meu ex-chefe e... bom, só vocês.
Ela disse que iria pensar no meu caso.


- 78
Tenho ido às reuniões frequentemente. Não falto nenhum dia.
Obviamente, há alguns dias em que a vontade de fumar cresce, mas eu tento me lembrar das histórias dos meus colegas e ela passa.
Às vezes tenho que chupar uma daquelas pastilhas.
Em último caso, se a vontade é muito grande, eu saco o tal cigarro eletrônico, e parece que o meu cérebro muda ao ver o formato do cigarro, mesmo que não tenha o mesmo efeito.
E sim, eu sei que você faria uma piadinha sobre o que eu acabei de escrever.
Eu conheço você.


- 79
Hoje eu tive um dia tranquilo. Acordei, fiz café, eu e a Karen comemos e fomos para a loja.
Ao meio-dia ela saiu para ir almoçar. Depois que ela voltou, eu fui e ficamos abertos até às seis.
Passamos no mercado e compramos um pacote de salsichas para fazer cachorros-quentes. Ao chegarmos em casa, colocamos as salsichas para cozinhar. Ela foi tomar banho e eu arrumei a mesa.
Jantamos, eu fui tomar um banho e então pegamos um DVD da pilha com centenas de títulos e assistimos. Até que era um filme mais ou menos.
Depois que o filme acabou ficamos zapeando os canais por um tempo até que ela ficou com sono e foi dormir.
Eu peguei uma das folhas em branco e comecei a escrever esta carta.
Essa é a minha vida agora.


- 80
Eu fiquei sabendo que o Robinson está internado em uma clínica para reabilitação voluntária por um conhecido que apareceu lá na loja.
Peguei o endereço com o homem. Não era longe. Como o movimento estava pouco, Karen ficou tomando conta da loja e eu fui até lá.
Porém ao chegar, uma das funcionárias disse que ele não estava em condições de receber visitas.
“Talvez em alguns dias”, ela me disse.


Parte 20 do conto de Lucas Beça

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