terça-feira, 30 de abril de 2019



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A loja foi aberta, finalmente.
Tive alguns problemas no contrato de aluguel e na licença do alvará, mas agora está tudo certo.
As vendas estão aumentando a cada dia.
O chefe está orgulhoso. De vez em quando eu ligo pra ele. E ele está amando a praia. Era o que ele sempre quis para sua vida.


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Agora tem dois quadros na minha mesa: aquela com uma foto de nós dois e uma comigo e a Karen.
A cada dia que passa, a cada vez que vamos visitar você, tenho mais certeza de que vocês duas seriam grandes amigas.


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Karen está trabalhando comigo na loja. Ela é ótima com os clientes. Acho que ela é o grande motivo para as vendas continuarem aumentando. Parece que toda sua timidez desaparece quando um cliente em potencial entra pela porta. É incrível.
Estou saindo mais, também. Pelo menos uma vez por semana nós vamos na pizzaria.


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A nova viciada que entrou no grupo hoje é tão parecida com você. Não seria sua irmã gêmea, mas com certeza poderia ser sua parente. Rá! Rá!
Imagina?
Ela chegou atrasada e quando entrou fiquei paralisado. Foi surreal.
Mas fica tranquila, ela é nova na nossa “grande” cidade. Veio de Santa Catarina. Até o sotaque é diferente.
Achei que seria legal mencionar isso.


Parte 14 do conto de Lucas Beça
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quinta-feira, 25 de abril de 2019


João Paulo Mesquita Simões


Vivíamos nas trevas, no ostracismo, num regime totalitário, onde vivia o medo, a perseguição, a prisão para quem ousava discordar do Regime.

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terça-feira, 23 de abril de 2019



- 49
Finalmente eu disse a Karen que podemos ir te visitar.
Ela está bastante ansiosa.
Mas eu estou muito preocupado sobre qual vai ser a minha reação.


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Karen gostou muito de você. Até falou com você.
Para minha surpresa, não tive nenhuma reação dramática ao te ver naquele estado.
Mas tomei uma decisão.
Vou parar de escrever essas cartas.
Elas não são reais. Isso não é real.
A realidade é que você está naquela cama e talvez nunca mais volte. As chances são mínimas.
Eu preciso me acostumar com isso.
Não tem outra maneira.
Vou passar a te visitar mais vezes. Eu e a Karen.
É isso.
Até semana que vem.


- 51
Eu sei que eu disse que eu precisava me distanciar dessas cartas, que eu precisava encarar a realidade, encarar o fato de que talvez você nunca acorde novamente, e eu estou encarando, agora eu tenho completa noção de que as chances são mínimas, porém eu estava errado quanto ao fato de que essas cartas não estavam ajudando, ou que estavam impedindo que eu visse a realidade.
Eu preciso conversar com você, mesmo que seja uma conversa de uma mão só.
Isso me ajuda a manter sua presença viva, perto de mim, ainda que eu tenha dificuldades de entrar naquele quarto.
Vou continuar, ou melhor, vou voltar a escrever essas pequenas linhas para me manter são.
Espero que não se importe.


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A minha luta contra o fumo continua firme e forte. Estaria orgulhosa de mim, aposto. A Karen também me ajuda e me apóia.
Acho que estou começando a amar aquela pessoinha.


Parte 13 do conto de Lucas Beça
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segunda-feira, 22 de abril de 2019


Conto de Gustavo do Carmo


----- Original Message -----
From: 
pericarsoa@messagenet.com.br
To: 
editor@variasletras.com.br
Sent: Friday, September 24, 2004 11:30 AM
Subject: Original de Romance


Prezado editor,

Estou enviando em anexo os originais do romance Chuvas na Solidão que eu escrevi e gostaria de ver publicado pela Várias Letras.

Atenciosamente
Péricles do Carmo Soares

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quinta-feira, 18 de abril de 2019


João Paulo Mesquita Simões




17 de abril de 2019 - 50º Aniversário da Crise Académica de Coimbra.

Em 1969, a 17 de abril, por ocasião da inauguração do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, Alberto Martins, presidente da Associação Académica de Coimbra, pediu a palavra em nome dos estudantes, na presença do então presidente da República Américo Tomás, e ministros da Educação e das Obras Públicas. 

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terça-feira, 16 de abril de 2019



Cheio de gente.

Olhei para os lados, tentando identificar alguém, mas não consegui. Eram todos estranhos.

Nenhuma cara conhecida.

Já estava na minha terceira cerveja.

Talvez devesse pedir um shot de alguma coisa. Sei lá.

Só pra ver se as coisas melhoravam.

Mas é claro que não iriam. Pelo menos não naquela noite. Acho que não.

Algumas mulheres bonitas, mas nem tanto. Uma olhou para mim, mas logo desviou o olhar. Outra ao ver que eu estava olhando para ela fez cara de como se eu não merecesse nem olhar para ela. Foda-se, então.

Os carros passando pra lá e para cá, lá fora.

A música até que era aceitável. Algum rock brasileiro dos anos 90. 2000? Bom...

Um bar cheio de gente. Eu ali sozinho naquele balcão. A atendente passa um pano onde eu derramei cerveja.

- E aí? Tá gostando daqui? – pergunta ela.

- Com você aqui até que está legal.

Ela dá um sorrisinho, mas eu não acho que vou conseguir nada com ela.


Conto de Lucas Beça
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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Foto: http://www.caoscarioca.com.br/

Conto de Gustavo do Carmo


Na volta para casa decidi pegar o ônibus no ponto final. O abrigo lotado. Não tinha lugar para me sentar. Estava morrendo de cansaço. Não quis esperar em pé. Estava muito quente. Mesmo com o sol assando o meu couro cabeludo preferi andar. Parado ele incide mais sobre a minha cabeça. Andando, pelo menos, vou uniformizando a fritura dos meus miolos.

No ponto final, além de poder ficar debaixo de uma marquise, poderia pegar o ônibus vazio, o que não aconteceria se eu pegasse de onde eu estava. Até a última parada ainda havia mais três pontos no caminho.

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quinta-feira, 11 de abril de 2019


João Paulo Mesquita Simões


A madrugada de 9 de abril de 1918 despertou violenta na Flandres. 

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terça-feira, 9 de abril de 2019



- Ou deixa a transformação se completar ou parte de sua memória será apagada no processo de reversão. É com você...

- Não tem outro jeito? - diz o homem com dois buracos em seu braço, onde estiveram cravados dois caninos.


É uma cena decisiva. O homem foi mordido por um vampiro. Foi pedir ajuda a um amigo que diz que pode reverter o processo, porém, ao fazer isso, sua memória será apagada. Aí está o dilema. O verdadeiro problema não está na verdade se ele deve ou não aceitar, perder quem ele é ou deixar que se torne um vampiro. O problema é que, partindo do pressuposto de que vampiros existem e que há um processo que consiga reverter o vampirismo, por que raios a memória seria apagada? Não tem motivo nenhum. É apenas uma coisa que está ali, sem ser questionada. [Vide: Rubber: O Pneu Assassino]. Mas tudo bem, aceitado esses pressupostos: de que vampiros existam, de que há um processo que impede que a pessoa mordida por um se torne um vampiro, e também de que no processo de reversão a memória será apagada, a cena poderá continuar por alguns caminhos. a) o tal amigo diz que não, não tem outro jeito, e o mordido escolhe passar pelo processo ou não. b) ele pergunta por que a memória dele vai ser apagada no processo de reversão. O amigo diz que é uma longa história e que não tem tempo para falar disso agora. Eles têm que agir rápido. Caso isso aconteça – e eu gosto desse cenário – eles fazem o processo ou não, e não se é discutido o porquê a memória ter sido apagada [Vide... Bom, se ainda não viu, está perdendo um “filmão”]. (b2) ele decide que não quer o processo, vai se transformar em um vampiro e não discutem o fato de o processo apagar a memória, porque ele tem um problema muito maior, que é: Eu sou a merda de um vampiro! (b3) E isso é ótimo: simplesmente aceite que é assim e continue com a história. O problema mesmo, aquele que realmente importa para toda discussão que estou propondo aqui é a terceira (ou quinta, se considerar a b como 3). c) é explicado o porquê de o processo ter que apagar a memória do paciente, como em um filme ou episódio ruim de série de tevê em que: Ok, vamos parar aqui por um momento e explicar para você, telespectador, que esse processo acaba apagando a memória do infeliz mordido – que essa doença não se encaixa no diagnóstico por conta disso, disso e disso, que são decorrências disso e daquilo; que o suspeito não poderia ter matado por conta daquilo, e daquilo outro; mesmo sendo profissionais treinados que sabem como funciona seu trabalho e não precisam ficar se explicando uns para os outros, e que meia palavra basta. Não sou muito fã da terceira opção. Mas ei! Faça o que quiser, conte sua história da melhor forma possível. Eu provavelmente já utilizei a todas as opções. E provavelmente vou usá-las muito no futuro, então...


- Bom, tem outro jeito, sim. Você não vira vampiro e fica com as memórias. Mas você pode morrer no processo - o amigo diz isso com um sorriso na cara.

- Há! Há! Muito engraçado.

- Não estou brincando.

O amigo mordido geme de dor e diz:

- Tá, ok, vamos acabar logo com isso. A última opção.


Conto de Lucas Beça
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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Microcontos de Gustavo do Carmo


Infiltrações
Com tantas infiltrações, as paredes de sua casa ficaram surdas. Deixou-as do jeito que estavam para poder contar os segredos que quisesse. 

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quinta-feira, 4 de abril de 2019


João  Paulo Mesquita Simões



3 de abril de 1953. Falecia aquele que, com a sua assinatura, salvou milhares de Judeus do Holocausto Nazi.
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terça-feira, 2 de abril de 2019



Estava sem inspiração.


Comprou a passagem. Iria viajar! Agora precisava comprar mochila, roupas, tirar passaporte, arrumar dinheiro...


Algumas decepções aconteceram.


Ela tinha que sair de casa. Só não se lembrava pra fazer o que.


- Eu voltei! – gritou.
- Eu não me importo! – gritou a esposa.


- Sabe o que você faz?
- Não, o quê?
Silencio.
...
- Nada, deixa pra lá.


Respirou fundo. Fundo mesmo.


Por Lucas Beça
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segunda-feira, 1 de abril de 2019


Conto de Gustavo do Carmo


Sonhava ver seus contos e romances ganhando vida com atores de verdade. Idealizava o ator ideal para cada personagem. Aquela atriz bonita poderia inovar fazendo um papel de feia. Aquele ator que só faz papel de mocinho poderia interpretar um vilão perigoso pela primeira vez.

Além da realização profissional, Felipe Siqueira também vislumbrava o lado financeiro. Com o dinheiro dos direitos autorais que jorrariam em sua conta bancária, pensava em comprar um apartamento de quatro quartos na Barra da Tijuca para morar só com a mãe, porque a irmã já era casada e o pai não arredava o pé do subúrbio, onde o aspirante a escritor foi criado.

De fato, o romance As Faces de um Casamento virou filme. Com os mesmos atores que Felipe sonhava. As mesmas cenas que ele escreveu e os mesmos personagens que descreveu. A bela atriz fez uma explícita cena de nudez. O ator bonzinho virou um vilão feroz. Como desejava. As Faces de um Casamento rendeu milhões para o seu autor: Adriano Mendonça, um bonitão moreno, de barba cerrada, corpo escultural, casado com uma ex-colega de faculdade de Felipe.

O autor verdadeiro, claro, ficou revoltadíssimo. Aquela história era dele. Aqueles personagens eram dele. Desesperou-se porque não sabia como arrumar um advogado para entrar com um processo de plágio. Seus pais não tinham muita formação escolar e não conheciam nenhum advogado especializado em direitos autorais. A irmã era engenheira química e só tinha contatos na área dela, ou seja, a área científica. Mesmo assim, desdenhava do talento irmão e não acreditava nele. Nem o cunhado advogado poderia ajudá-lo, pois não tinha carteirinha da OAB e desistiu da profissão. Só queria saber da loja do sogro, pai de Felipe, que não queria trabalhar lá.

Felipe procurou um advogado sozinho. Depois de dar queixa na delegacia, foi pessoalmente ao escritório de um deles no Centro, após intensas pesquisas na internet. Encontrou um que cobrava apenas 20% da indenização se ganhasse ou cinco mil reais em caso de perda. Na consulta, a advogada, uma bela morena clara de seios grandes, perguntou se ele havia registrado os contos. Felipe apresentou não só o comprovante de registro do romance como também o livro impresso e editado.

As Faces de um Casamento mostrava as fases de um casamento: a festa, a lua-de-mel, o nascimento dos filhos e a separação, provocada pela mudança de comportamento do marido, que se tornou agressivo e violento.

A causa foi aceita. No julgamento, Felipe depôs que mandou seu romance, já registrado, para incontáveis editoras e produtoras de cinema, na esperança de que alguém se interessasse em editar e/ou produzir. Também tinha dado um exemplar de cortesia para um ex-professor de faculdade, amigo da esposa de Adriano. Ou seja, o plagiador teve acesso ao texto original e, assim, teria copiado o romance. Mas não conseguiu provar, porque Adriano, por esperteza óbvia, não levou o livro para a audiência.

Felipe perdeu o processo. Seu romance foi comparado com o roteiro e chegou-se ao veredicto de que, apesar dos personagens e enredo parecidos, não há nenhuma semelhança no texto e nem no desenvolvimento do roteiro que, segundo a juíza, Adriano desenvolveu com melhor qualidade.

Depois da leitura da sentença, Camila, advogada de Felipe, deu um abraço fraternal em Adriano, que era seu primo, parabenizando-o pela vitória. Felipe foi condenado a pagar os altos custos do processo perdido, a indenização por danos morais a Adriano e a procurar um emprego, para repor a perda do patrimônio da família, que ficou à beira da falência.

Já Adriano ficou ainda mais rico. E só perdeu dez por cento da fortuna por causa de outro processo de plágio que enfrentou de um italiano pelo mesmo filme As faces de um casamento.
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