terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Cartas para ninguém (1, 2, 3 e 4)



- 1
Oi, amiga.
Os médicos disseram que talvez você nunca mais acorde. Disseram várias coisas. Várias coisas médicas, mas o que eu me ative é de que talvez, um dia, você possa acordar.
Por favor, acorde. Por favor. É só isso que eu te peço. Nunca te pedi muito. Você sabe disso. Só a sua companhia era o suficiente. Às vezes um pacote de salgadinho de pimenta mexicana completava uma tarde de conversa, falando sobre nada, ou querendo falar sobre muitas coisas, mas acabando falando sobre nada, escutando alguma banda nova e obscura que você tinha acabado de descobrir. Ah, e coca não podia faltar, como sempre.
Vou escrever uma carta por dia. Bom, pelo menos eu vou tentar. Não vou prometer nada. E você sabe mais do que ninguém que eu sou a pessoa que mais deixa projetos pela metade do mundo. Ao contrário de você e a sua maluca obsessão por planejar, organizar e catalogar tudo.
Vou tentar escrever essas cartas porque é a única forma que eu vejo de manter você perto de mim. É a única maneira que eu consigo pensar em lidar com o fato de que talvez você nunca mais acorde.
Eu rezaria, mas como você mesmo disse um dia, “Talvez não tenha ninguém ouvindo do outro lado.”


- 2
Hoje eu acabei encontrando um dos vários cadernos que eu usava, bom, na verdade, que a gente usava pra tentar aprender japonês. A gente assistia um monte de animes e a nossa vontade de aprender a língua foi crescendo e crescendo, até que a gente achou um site de uma rádio japonesa que ensinava japonês em 50 lições, para várias línguas.
Rá! Rá! Quanto tempo durou antes de a gente desistir? Será que chegou há durar um mês? Acho que nem isso.
Era foda. Dois tipos de escrita, aquela estrutura esquisita com o verbo no final. Mas os kanjis... Pelo amor de Deus! Que tortura. Aquilo ali era tortura mental, não é possível. Eu lembro como foi difícil pra mim, quando eu era pequeno, decorar as 26 letras do nosso alfabeto, e diferenciar letra de mão de letra de forma. Tenho pena dessas crianças japonesas, tendo que memorizar tudo aquilo. De verdade.
Só a gente mesmo, depois de ter assistido meia dúzia de animes, se achando experts em cultura japonesa, porque sabia que konnichiwa era boa tarde, konbanwa era boa noite, sayonara era tchau, e que watashiwaburajirudesu era o suficiente.
Pois é, coisas que a gente faz quando é adolescente.


- 3
Todas as séries policiais e de comédia que você acompanhava já terminaram as temporadas.
Elementary, The Big Bang Theory, Brooklyn Nine-Nine, Arrow, Castle... O Castle foi cancelado. Uma pena, esse até que eu gostava.
Você vai ter bastante episódio pra se atualizar.


- 4
Eu sinto a sua falta.
Sinto muito a sua falta.


Parte 1 do conto de Lucas Beça

Nenhum comentário:

Arquivo do blog