quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Podre



Meu pai fazia minha mãe usar cascas de batata para reduzir o inchaço nos olhos provenientes de suas noites mal dormidas. Ela ficava 15 minutos com a parte úmida das cascas, já um pouco escurecidas, sobre a pele. Isso me faz lembrar das aulas de biologia, da informação de que, 30 minutos após a morte, os olhos começam a afundar no crânio, ficam desidratados e a córnea parece um véu viscoso e esbranquiçado. E sobre isso, nem casca de batata ajuda.

Nossa família parecia mais uma árvore frutífera onde a primeira fruta apodrecida liberava o etileno para o restante da árvore. É uma analogia estranha, mas é a pura verdade.

Nada naquela casa era desperdiçado, nem mesmo as coisas podres.

Na aula de biologia o professor disse que com a ação de bactérias e larvas os órgãos acabam se desprendendo da estrutura corporal e se desmancham. Entre 3 e 7 minutos após a morte, as células morrem e, dias depois, os gases em decomposição invadem os órgãos e tecidos do cérebro, fazendo-os se desmancharem. Dentro da caixa craniana, isso de que nos orgulhamos tanto vira uma massa cinzenta e depois um liquido viscoso que começa a escorrer pelas narinas.

Meu pai ficou maravilhado quando leu a notícia de que na Holanda estudantes tinham criado uma forma de transformar frutas podres em um material maleável e durável como o couro, o que traria bolsas, calçados, roupas e até estofados com esse material, no futuro.

Nada naquela casa era desperdiçado, nem mesmo as coisas podres.

Na garagem tínhamos uma escada velha, de madeira, toda apodrecida. Meu pai se recusava a jogar qualquer coisa fora. Então ele pegou essa escada e a transformou em uma estante pros meus livros, no meu quarto. Quando eu dormia podia sentir um cheiro adocicado vindo da madeira carcomida. Eu sempre achei intrigante como todas as coisas podres possuíam um aroma doce.

Em uma mesa grande, também com sinais de apodrecimento, meu pai costumava fazer enormes barras de goiabada com as frutas bastante maduras que caiam em profusão no nosso quintal. O cheiro do doce era maravilhoso. Hoje, quando vou verificar um corpo morto há 8 ou 12 horas, lembro dessas barras vermelhas de doce na mesa velha de meu pai. Por conta da gravidade o sangue se concentra na parte de baixo do corpo, como costas e pernas, formando "piscinas de sangue", cuja consistência é semelhante a de goiabada. Chama-se livor mortis.

Nada naquela casa era desperdiçado, nem mesmo as coisas podres.

Minha mãe tinha cabelos compridos e negros como a noite sem estrelas. Lembro que quando eu tinha 9 anos o cabelo dela tinha o meu comprimento. Suas unhas. Eu sempre ficava admirada com as unhas dela, tão perfeitas, tão lindas. Lembro disso quando os cadáveres estão diante de mim para necrópsia. Apesar da falta de irrigação no corpo após a morte, os cabelos, pelos e unhas não se dão conta disso e continuam a crescer 0,5 centímetros até a decomposição completar 24 horas.

Os cabelos da minha mãe. Dançavam ao som do vento, sentada naquela cadeira de balanço, tricotando ou polindo os sapatos do meu pai com cascas de banana. Seus cabelos. Lembro quando meu pai os pegou em sua mão, como se pega uma corda para puxar algo, e a fez gritar. Lembro quando ele a estuprou na minha frente, desse jeito, puxando seus cabelos e, sob os protestos dela, dava tapas no seu rosto, gritando ofensas, cuspindo em seu corpo uma gosma meio amarelada com odor pútrido de whisky barato.

O cabelo da minha mãe ganhara uma mecha vermelha que contrastava lindamente com seus fios negros como o breu. A mecha foi tingida pelo sangue que jorrou de sua cabeça, depois que meu pai a empurrou com violência contra a parede.

No dia seguinte, ao acordar, fui até a varanda e minha mãe estava lá, sentada. Seus olhos, encobertos por um véu viscoso e branco, olhavam o nada. A mecha de seu cabelo estava agora com um tom quase azulado. Meu pai passou um fio de arame em volta do pescoço dela para que sua cabeça não ficasse pendendo. Ela vestia a mesma manta florida que usava nos domingos. Sua pele parecia cera, tão branca quanto uma folha de papel. Eu passei a manhã toda sentada no chão olhando para a sua face morta até todas as linhas de seu rosto desaparecerem na minha cabeça e formarem uma tela em branco onde eu poderia pintar outros rostos, outras realidades.

Nada naquela casa era desperdiçado, nem mesmo as coisas podres.



Hemerson Miranda

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