quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Confissões



Aos 11 anos eu tive um amigo na escola a quem eu contava tudo. O que me intrigava era ele ainda querer continuar meu amigo depois de tudo o que contei. E naquela época eu parecia ter muita coisa para contar.

Contei que aos nove anos, depois de tomar banho com minha mãe, o que era costume em nossa casa, eu ia para o meu quarto e ficava brincando com meu pinto lembrando dela pelada.



Contei da perna que esmaguei de um gatinho com um tijolo quando eu tinha dez anos e em como os gritos de dor dele não mexeram nem um pouco comigo.

Contei que cheirava algumas calcinhas e sutiãs da minha irmã que na época tinha 18 anos quando ela as deixava no banheiro depois do banho.

Contei que lambia algumas páginas das revistas de mulher pelada que meu pai guardava no fundo da última gaveta da sua cômoda.

Contei da vez que vi minha irmã roubar 50 reais da carteira do meu pai e depois ter dito que ele deveria ter esquecido no bar com seus amigos bêbados.

Contei da vez que estava com vontade de mijar de madrugada e vi, quando passei pelo quarto dos meus pais, pela porta entreaberta, eles trepando e meu pai enforcando o pescoço de minha mãe com as mãos.

Contei do passarinho que vi agonizando no pátio da escola e como acabei com o sofrimento dele com um cabo de vassoura.

Nessa época eu estava na quarta série. No ano seguinte ele e eu estaríamos novamente na mesma escola para enfrentar a quinta série.

Mas ele não apareceu.

A mãe dele me disse que um carro o havia atropelado. Suas vísceras ficaram jogadas no asfalto e a mancha de sangue ainda estava lá para confirmar.

Aos 16 anos eu tive uma namorada que me inspirou tanta confiança que eu não escondia nada dela. O que novamente me intrigou foi ela saber de todas as coisas que eu fiz quando criança e ainda assim ela continuar querendo me namorar.

Falei a ela do meu desejo de ser especialista em autópsias e que não era tanto o salário que me chamava atenção, mas a oportunidade de poder ver o corpo em decomposição.

O futuro que aguarda todos nós.

Falei do ódio que eu tinha por pessoas preconceituosas. E do meu ódio por todo tipo de preconceito.

Falei do meu prazer em ler Schopenhauer, não apenas pelo pessimismo que permeia suas palavras, até porque não me considero um pessimista, mas por ele mostrar tão claramente o quão miserável é a natureza humana.

Falei para ela dos meus desejos pervertidos na hora do sexo.

E ela aceitou.

Falei da vontade que eu tinha dos fluidos dela. Da reciprocidade que eu queria e que lhe daria na hora de trepar. De querer que ela me fizesse fio-terra.

Falei da vez que cheguei a pegar um martelo para bater na cabeça do meu pai quando, nos meus 14 anos, ele deu dois tapas fortes na cara da minha mãe por ela ter chegado um pouco tarde em casa. Mas minha irmã pegou o martelo da minha mão.

Falei para ela que eu tinha certo desejo de incesto com minha irmã, antes de conhecê-la.

Falei também que eu gostaria de ver ela e minha irmã transando.

Falei do meu desespero quando via imperfeições em ladrilhos de cores diferentes. Da minha angústia ao ver quadros meio inclinados. E do som irritante das pessoas que tamborilavam os dedos em qualquer superfície.

Então um dia decidimos ir até um parque no domingo. O que aconteceu foi que ela estava correndo atrás de um balão e de repente tropeçou. Seu corpo foi jogado para a frente com força e sua cabeça bateu na perna de ferro de uma mesa que estava inclinada em cima de outra, perto de umas barraquinhas de cachorro quente. A perna perfurou seu olho e algumas pessoas ficaram meladas de sangue e molho de tomate.

Ela morreu ali mesmo.

Aos 23 anos eu precisava a cada dois meses me consultar com meu fisioterapeuta, depois de ter retirado os pinos da perna. A simpatia dele me fez abrir meu coração. Ele demonstrava tanta atenção que cada consulta era como deitar-me no divã.

Eu disse da minha predisposição ao álcool. Disse da vontade que eu tinha de dormir uma noite e não acordar. Do desejo de morrer sem sentir nada.

Eu disse que a mentira que eu conto a todo mundo é que eu caí das escadas. A mentira que eu digo a mim mesmo é que tenho coragem suficiente para enfrentar meu pai. Mas o que realmente aconteceu foi culpa dele.

Eu disse dos pequenos roubos que cometia nos supermercados. Você pega um refrigerante na geladeira, algumas fatias de queijo, algumas de presunto, alguns pães quentinhos na padaria, um pudim para a sobremesa e se dirige à área de alimentação. Se alguém perguntar você diz que está comendo ali porque não quer comer lá fora e daqui a pouco precisa voltar ao trabalho. Diz que assim que terminar você levará as embalagens com os preços até o caixa. O que você faz depois de comer, na verdade, é jogar tudo no lixo e ir embora.

Já fiz as três refeições do dia assim.

Eu disse que um dia cheguei em casa do trabalho e vi minha mãe acuada no canto da parede com sangue escorrendo pelo nariz. Meu pai estava de pé diante dela e olhou para mim ameaçadoramente. Eu disse que parti para cima dele, mas eu sempre fui magro e foi fácil para ele me imobilizar. E quebrar minha perna.

Eu disse da minha irmã que saiu de casa para viver com o namorado em outra cidade. E que eu sabia que na cama ela não aprenderia nada com esse cara que meu pai já não a tivesse ensinado.

Eu disse que minha mãe suplicou para que eu dissesse que havia sido um acidente. Que eu e ela caímos da escada. Que nada tinha a ver com meu pai.

Esse era o nível do quanto ela gostava dele.

Eu disse da namorada, que eu tive aos 20 anos, que me abandonou para ficar com sua vizinha e da vez que as encontrei na cama dela, juntas, fazendo você sabe o quê.

Eu disse da saudade que sentia da minha irmã e da paixão que começou a aumentar por minha mãe. No mesmo grau que aumentava o ódio por meu pai.

Então em mais um dia de consulta eu cheguei na hora marcada e o meu fisioterapeuta não estava lá.

Lamento não termos avisado antes, mas a consulta foi cancelada por hoje, pois ele foi encontrado morto em seu apartamento devido a uma overdose, a recepcionista me disse.

E eu parei de frequentar aquele lugar.

Aos 35 anos eu tive a oportunidade de ter um psicólogo. Uma vez por semana, durante uma hora, eu me consultava com ele. Aí estava mais uma chance de me abrir para alguém. Seriam 15 anos encarcerado numa prisão, então era melhor ter alguém para me ouvir ao menos uma vez por semana.

Ele ouviu sobre meus gostos musicais. Ele me ouviu dizer que o que eu achava que acontecia atualmente era que as pessoas não escutavam mais músicas, elas escutavam cantores ou bandas. E se você não curtisse o mesmo que elas, você era um idiota.

Ele me ouviu dizer que a música deixou de ser ouvida. O bom e velho rock. O fascinante jazz. Agora ouviam qualquer coisa achando que é um estilo. Ele me ouviu dizer que eu não entendia as pessoas.

Ele ouviu quando eu falei do meu Complexo de Édipo. Ouviu que as coisas na casa da minha mãe estavam piorando. Ouviu que eu pedi para ela vir morar comigo em meu apartamento, mas ela se recusou. Preferiu ficar do lado do homem a quem ela ainda dizia ser meu pai.

Ele ouviu do caixa 2 que eu fazia na loja onde trabalhava. Era apenas eu tomando conta daquilo. Uma empresa pequena. Eu, como consultor de vendas. Era fácil no final do dia retirar uma grana sem precisar registrar ela. Além das cápsulas de cafés caros e importados que eu levava para casa na mochila.

Ele me ouviu quando falei que sai correndo com minha moto para a casa da minha mãe depois de ela ter me ligado chorando pedindo que eu fosse rápido para lá. Isso antes de a ligação cair. Isso antes de meu mundo cair.

Ele me ouviu dizer que a namorada que eu tive e que havia me trocado pela vizinha agora traia ela comigo.

Ele ouviu quando eu disse trêmulo que quando cheguei na casa da minha mãe e estava abrindo a porta o meu pai saiu por ela e me empurrou. E foi fumar no jardim da casa. Eu subi as escadas que davam até o quarto dela e o que vi foram os lençóis da cama tingidos de vermelho por causa do sangue que jorrou do seu pescoço.

Ele ouviu que eu comprara uma arma depois de ter sido assaltado pela quarta vez. E que eu treinava tiros na fazendo de um tio durante os finais de semana.

Ele me ouviu dizer que eu desci as escadas e fui até o jardim. Aquele homem estava sentado na cadeira de balanço fumando um cigarro como se nada tivesse acontecido.

Ele ouviu da minha boca as palavras de meu pai:

Vá embora daqui, seu filho da puta veado. Aqui não tem nada para você.”

Ele não ouviu, mas eu sim, os três tiros que dei na cabeça do meu pai.

Ele me ouviu dizer que eu levei o corpo dele para dentro de casa e sentei ele na poltrona. Fui para a cozinha e preparei pipoca no micro-ondas. Procurei entre os DVDs o filme O Mentiroso, com Jim Carrey. Eu sempre ri muito com Jim Carrey. Então assisti o filme sentado ao lado da carcaça sem vida do meu pai, com uma parte de sua cabeça pendendo e alguns miolos à mostra, quase da cor da pipoca amanteigada que eu comia.

Quando o filme terminou eu liguei para a polícia.

Ele me ouviu dizer que a maioria dessas coisas eu não havia contado à polícia, mas só a ele. Pois eu confiava nele. O psicólogo era uma pessoa com quem eu gostava de conversar.

O que aconteceu foi que um tempo depois, no dia marcado para a consulta, apareceu uma psicóloga. Perguntei o que tinha acontecido com meu psicólogo. Vocês não podem mudar assim as pessoas sem me contar, eu falei.

O que eu ouvi foi que ele havia sido morto. A mulher dele o encontrara com sua irmã saindo de um motel. Depois de muita briga, durante a noite, com ele dormindo no sofá apenas por aquela noite, ela amarrou as mãos dele, pôs um saco plástico em sua cabeça para asfixiá-lo, mas antes de ele entregar a alma ela decepara o pau dele com a faca da cozinha.

Ai eu cancelei minha consulta com a psicóloga. Para sempre.

O que eu percebo é que me dá certa alegria em saber que a pessoa que sabe todos os seus segredos morreu. Meu amigo, minha namorada, meu fisioterapeuta, meu psicólogo.

Todos eles sabiam mais de mim que qualquer pessoa nesse mundo. E agora estavam mortos e enterrados com os meus segredos.

Parece que todas as pessoas que puderam me conhecer por completo estavam fadadas a morrer da pior maneira.

Então eu cansei de contar as coisas às pessoas e decidi fazer isso apenas mais uma vez. Uma última vez.

Agora.

Para você que está me lendo. Você que leu tudo sobre mim. Meus segredos.

Agora eu só posso te desejar uma coisa:

Boa sorte.



Hemerson Miranda

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