quinta-feira, 29 de novembro de 2018



João Paulo Mesquita Simões



Mais um livro lançado pelos CTT. O livro do ano de 2018, bilingue, reúne todas emissões saídas ao longo do ano, com particular destaque ao 130º aniversário da 1ª edição de "Os Maias" de Eça de Queiroz.

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quarta-feira, 28 de novembro de 2018



Para deixar a carne bovina macia você a coloca de molho em sal, limão, suco de laranja e algum refrigerante à base de cola. 50 ml para cada meia hora de descanso da carne. Essa eu uso para picanha.

Para cada quilo de carne você também pode usar uma lata de cerveja preta. Não malzbier. Falo de cerveja de verdade. Essa eu uso para alcatra.

Lembro que a rua em que moro parecia um cemitério. O tédio dela refletia o meu. Eu chegava pelas 17 horas do trabalho, colocava uma cadeira de balanço na calçada e ficava esperando alguma alma viva passar. Foi fruto desse tédio que comecei o churrasco. Espetinhos. Várias carnes de animais mortos assando sobre carvões incandescentes e regados com manteiga para atrair o olfato da vizinhança.

São seis pedaços de carne devidamente temperados espetados em uma haste de bambu que podem, ou não, ser cobertos por uma farofa que leva azeitonas picadas.

Para deixar a carne de porco macia junte ao tempero suco de laranja e vinho branco seco. Deixe marinar por 12 horas.

O que eu gosto de fazer é deixar a picanha suína mergulhada em cerveja estilo Rauchbier, para o defumado impregnar. E se alguém quiser, quando ela já estiver nos espetinhos, no lugar de farofa eu posso derramar molho barbecue.

As pessoas que recebo são em sua maioria homens.

Homens com problemas. Cansados. Que querem esquecer um pouco da esposa. Um pouco dos filhos. Mas não esquecem. A família deles pode ter ficado em casa, mas de alguma forma eles os trazem em sua mente. As fazem sentar do seu lado e até me incluem na conversa.

São homens que chegam com todo o peso do mundo nas costas e tentam aliviá-lo triturando com os dentes linguiça, bisteca, algum membro decepado de um frango. Tudo isso mergulhado em litros de cerveja, cachaça ou, para os mais desesperados, whisky.

Esses homens, eles me contam suas dificuldades. Esses párias de suas próprias famílias constituídas. Esses mártires. Eles vem usar meu ambiente como confessionário. No lugar de padre, me chamam patrão.

Ouça-me. Perdoe-me. Salve-me. Patrão, me traz mais uma gela!

Pegue um espetinho de contra filé e um de lombo suíno, eu estou dizendo. Regue com duas latinhas de cerveja.

Essa é minha penitência para eles.

O cordeiro que tira o pecado do mundo está assando acima de brasas incandescentes esperando para ser devorado. 

Para amaciar a carne do frango, deixe de molho até o dia seguinte os drumet e as asas no shoyu, leite de coco, um pouco de vinagre, conhaque ou vinho branco. Eu acrescento cerveja clara, de preferencia belga. E finalizo com uma pitada de fermento em pó ou bicarbonato de sódio.

Valério chega assim que eu termino de preparar o fogo. Como de costume eu já pego uma latinha para ele. O que eu sei é que ele gosta de coração de frango. O que eu sei é que a mulher dele vai ligar daqui a pouco.

— Ela quer tirar tudo de mim, meu patrão.

A casa está no nome dos dois, mas a ex-esposa dele está brigando na justiça para ficar com ela.

— Divisão de bens é o que chamam, Valério. Ela fica com o lado de dentro da casa e você com o lado de fora.

Ele ri.

O celular toca.

Eu passo o coração de frango na farofa, o que acho um desperdício, mas ele gosta assim.

O celular toca e ele acende um cigarro.

O segredo para deixar a picanha suculenta é sempre assar com a gordura para cima.

O celular toca e ele abocanha um coração. A farofa prega-se aos pelos de seu bigode.

O celular toca e eu dou uma pincelada de manteiga em um carré. Ele atende e começa a mesma ladainha. O segredo para não se irritar com a pessoa do outro lado da linha é beber um forte gole de cerveja.

Nesse momento Thiago chega na sua moto perguntando o que ele já sabe, se tem carne de porco. Na TV está passando a Série B, mas o que acontece aqui é que a TV que assiste aos homens que chegam.

— Meu patrão, lembra aquela coroa que veio sexta aqui comigo beber umas gelas?

— Aquela do rabão?

— Essa mesmo. Levei ela pro motel depois que saímos daqui. — Ele abaixa a voz, mas Valério não ouviria mesmo. Ainda está no celular ouvindo a ladainha da ex. — E se eu te disser que aquilo era um traveco?

Thiago é casado e tem um filho que já está no exército. A moto com que ele aparece dorme na minha garagem. Com o estado que ele sai daqui a queda é certeira na esquina. Então ele volta no dia seguinte, pega a moto e vai para o trabalho. Isso só não acontece quando ele traz alguma mulher para beber com ele. Enquanto a esposa está vendo novela em casa.

— E ai?

— Comi.

Para começar o churrasco ponha primeiro as linguiças. A gordura delas vai atiçar o fogo. Eu as besunto em mostarda antes e o resultado é de dar água na boca, disse Magdalena, minha vizinha.

— Você não dispensou?

— Um rabo daquele tamanho? De jeito nenhum, meu patrão.

Da esquina surge a carcaça de algo que parece um zumbi caminhando atrás de cérebro, mas cérebro não faz parte do meu menu. O corpo que se arrasta é de Luiz. 68 anos, aposentado e pintor. Luiz aparece toda noite já melado e demora meia hora da esquina para chegar onde estamos, salientando que são apenas três casas de distância. Mas sempre tem uma boa alma para ajudá-lo a chegar mais rápido.

Do outro lado da rua aparece Valtécio, que corre em direção a Luiz e o agarra no colo, sob os protestos do aposentado. Chegam ao nosso encontro e começa.

— Esse viado! Eu sei andar sozinho, seu porra!

— Tu nem se sustenta em pé, véi!

— Seu galado!

— Sua quenga!

O segredo para manter a clientela é saber ouvi-los.

Valtécio pede uma dose. Pede dois espetos de carne sem farofa. Pede que eu o escute.

— Meu patrão, Vanessa tá me traindo. Quem me contou foi meu irmão. Como pode, meu chefe? Coloco comida naquela casa com dinheiro suado. A gente tem quatro filhos. Eu nunca fui infiel a ela. Ai ela faz isso comigo.

O segredo para não deixar o cliente passar vergonha é ficar entre ele e os outros clientes. Eu ouço todo tipo de conversa. Todo tipo de desabafo.

Toda uma geração de homens que comem as carnes como bárbaros, engolem bebidas alcoólicas como vikings e derramam lágrimas como cascatas.

— Pegue um espeto e eu vou te trazer a dose. — Essa é minha penitencia para Valtécio. Essa é a fórmula de esquecimento que ele terá por essa noite. Ele ficará bêbado, vai chorar, vai tentar ligar para a esposa, mas seus amigos de noite não vão deixar. Esses amigos que o álcool uniu. Esses homens que tem uma ligação etílica. Eles se conhecem. Talvez mais que suas próprias famílias os conhecem

Para assar queijo muçarela você precisa escolher o curado em forma de nó. Deixe-o na geladeira antes de colocar na brasa. Gire-o constantemente. Ficará crocante por fora e macio por dentro.

O que Thiago está me contando é que ele gostou. Ele gostou do travesti. Ele pode até apostar mais uma latinha de cerveja que está meio que apaixonado. Você pode dizer que é o álcool falando, mas álcool não fala. Podem dizer que álcool é coragem líquida, mas quem precisa dele para ter valentia é impregnado de covardia.

Pode ser o amor falando. Se é que o amor fala. 

Luiz pede uma latinha de cana e fica calado enquanto bebe. O que ele pensa? Difícil saber. Ele só abre a boca quando estamos eu e ele sozinhos. Essa mente diluída em álcool. Abandonado pela mulher, esquecido pelos filhos, ignorado pelos netos. A conversa é entre ele e o copo de cachaça. Murmúrios incompreensíveis é o que se ouve, como alguma reza cansada. 

O próximo a chegar é Carlos. Ele me entrega uma vasilha plástica com algo dentro. O costume dele é trazer algum pedaço de carne para que eu asse na brasa. Não que ele não goste da minha carne, ele já explicou isso. É que ele gosta de escolher a carne que vai comer. 

Então ele sempre trás algum corte nobre de boi, alguma carne de caça, devidamente temperadas por ele mesmo. 

Eu asso com prazer, pois bebida ele consome mais que os outros clientes. Juntos. Carlos é, se é que se pode falar nesses termos, o mais pecador daqui. Ele colhe o que planta. Aqui no lado de fora ele é gente fina. Dentro da sua casa ele é outra pessoa. Sabemos que ele bate nas crianças e na esposa. Mas o que parece é que todos aqui já tem problemas demais com que se preocupar. 

Você pode até me condenar por não denunciá-lo. Pode dizer que eu me aproveito para não perder o cliente. Para você eu digo: pegue dois espetos de coração bovino, um de queijo e um de asa. Beba cerveja. Essa é a minha penitência para você. Aproveite e tome uma dose de hipocrisia. 

O que Carlos trouxe hoje eu realmente não sei o que é. O corte não me é familiar. A aparência da carne muito menos. Está temperada com algumas ervas e azeite. Eu pergunto que carne é. 

— Você não vai querer saber, meu patrão. 

Os outros homens se uniram em uma conversa. Os seus problemas em forma de mulheres. A paixão por um travesti. A traição. A reza silenciosa. 

Carlos já trouxe vários tipos de carne. Algumas exóticas. Os testículos de boi deixaram alguns aqui de cara torta, mas eu aceitei o convite dele em comer junto. A carne de hoje me deixou curioso. 

— Sabe o encanador?

— Felipe? Sei. 

— Ele costuma me trazer várias carnes. Ele tem uns amigos que caçam. Tem contatos muito bons de carnes exóticas. Toda semana falo com ele pra me trazer algo novo. Algo diferente. Silvia não gosta muito dessas coisas. 

Silvia é a mulher de Carlos. Ele pede para eu trazer uma garrafa cheia de whisky. 

— O que eu peço pro encanador é pra trazer a carne só quando eu estiver em casa. Eu quero ver a carne, entende? Gosto de ver na hora que ele me traz. 

Uma chama subiu de entre as brasas. 

— Só que aquele filho da puta inventou hoje de ir na hora em que eu não estava. 

Tiro rapidamente uns espetos para a chama não queimá-los. 

— O caso é que eu terminei um trabalho cedo hoje e fui logo pra casa. 

O que você tem que saber sobre o preparo de carnes é que nem sempre você tem o controle total das coisas. Uma analogia da vida. 

— Quando eu cheguei em casa, meu patrão, — e ele fez uma pausa para tomar um gole enorme de whisky. — estava ele e a Silvia completamente pelados trepando na minha cama. 

Dessa vez até eu enchi meu copo de whisky. 

— O que você fez?

— Enquanto os dois se vestiam e as duas vozes se uniam, uma pra explicar  e outra pra dialogar, fui até a cozinha e peguei uma faca. Dessas que você usa pra cortar a carne pros espetinhos. Dei cinco cutiladas nele. 

Felipe dá dois de Carlos. 

— Sei que ele é bem maior que eu, mas na ira eu virei o demônio. 

O demônio leva a culpa por cada coisa. 

— Silvia começou a chorar com tanto sangue. Agarrei ela seminua por trás e lhe destrocei a traqueia. 

Depois tomei um banho e fui ver a carne que o desgraçado do encanador tinha me trazido. Era javali. 

— Isso aqui não parece javali. — falei olhando novamente para a carne na vasilha. 

Ele tomou mais um gole e sorriu. 

— A carne de javali eu joguei no lixo. Isso aí é é um naco da coxa da Silvia, que eu deixei marinando nessas ervas com o azeite enquanto eu tomava banho. Vou comer aqui, beber essa garrafa toda e ligar para a polícia me entregando. 

Como a voz dele havia aumentado um pouco os outros homens ouviram de quem era aquele pedaço de carne. Carlos veio em busca de uma penitência? Veio se confessar? Veio falar de seu pecado? Talvez. Pode ser que ele não queira perdão. 

Eu bebi mais um gole do whisky e olhei para ele sem pestanejar perguntando: 

— Você vai querer ao ponto ou mal passada?



Hemerson Miranda
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terça-feira, 27 de novembro de 2018



Discussões para nada.


- O que você quer?
- Não sei. Não sei não.


- Oi, tudo bem?
- Tudo bem.
- Tudo bem mesmo?
- ...


- Sabe o que eu queria? Um caminhão de sorvete. Quero sorvete. Sorvete! Sorvete! Sorvete!!!


Por Lucas Beça
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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Por Dudu Oliva

Maria quando viu que a chuva parou, foi andar de bicicleta. Sozinha, sentiu-se a dona da rua. Mas, um homem apareceu e a olhou fixamente. Sentiu raiva dele por ter tirado o momento glorioso que transbordava nela.
O homem quando viu a menina andando de bicicleta, destemida, lembrou-se de um menino que se fora há muito tempo. Hoje, o que restou foi um homem perdido no tempo e no espaço. Ao ver Maria, José desejou ser aquele menino novamente.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018







João Paulo Mesquita Simões







Série filatélica, assinala os 130 anos da primeira edição de "Os Maias" de Eça de Queirós.

Emitida ontem, os seis selos, representam as personagens desta obra marcante da Literatura Portuguesa: Carlos da Maia, Maria Eduarda, Afonso da Maia, Dâmaso Salcede, a Condessa de Gouvarinho e João da Ega.

O bloco, conta com uma ilustração do próprio Eça de Queirós.


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quarta-feira, 21 de novembro de 2018




Estou suando frio.

A temperatura normal do corpo humano é de 35º a 37º C. Por sermos homeotérmicos, nossa temperatura corporal tende a ser constante, havendo apenas pequenas variações em torno de 0,2º a 0,4º C. Esse controle preciso é mantido pelo sistema termorregulador

Então eu estou no caixa do supermercado com vários sacos de gelo e um pack com seis garrafas de cerveja. E quando digo vários, são vários mesmo. Mais de 15. Eu desvio os olhos da moça no caixa que masca um chiclete e já demonstra surpresa. Eu torço para que ela nem pergunte nem comente. Depois de bipar os sacos ela pega o pack e meus medos tomam forma. Ela pergunta se não é gelo demais para pouca cerveja. Eu sorrio apenas. Um sorriso rápido. Rapidamente passo o cartão e saio com o carrinho abarrotado de gelo em direção ao carro.

Entre 33º e 35º C o corpo sofre com a chamada hipotermia leve. A sensação de frio vem acompanhada de tremores, letargia, espasmos musculares e, além das extremidades do corpo ficarem meio acinzentadas, surge uma confusão mental no indivíduo.

Claro que é gelo demais para pouca cerveja. Na verdade, nem é para a cerveja. A cerveja é só meu pagamento. Pagamento pela compra do gelo. Pagamento para ficar calado. É a terceira vez que faço esse tipo de compra. As duas anteriores foram em outros supermercados. Por alguma razão que eu mesmo não compreendo, quis variar dessa forma mais por divertimento que preocupação em me questionarem. Eu gosto quando o coração acelera, pois me faz lembrar que tenho um.

Gostaria de saber se suor frio causa hipotermia.

O gelo é para meu vizinho. Amigo de tempos. E é a terceira vez que ele me pede esse favor. É a terceira vez que ganho um pack de cervejas. É a terceira vez que ele me pede para ficar só entre nós. Da primeira vez ele me chamou para conversar seriamente. Era para falar sobre sua esposa. Nós três nos conhecemos desde a universidade. Sua esposa é uma ótima pessoa. Simpática e educada. Ele me chamou para conversar sobre alguns desejos que tinham. As pessoas tem suas vontades, suas perversões. Chamou para saber se poderia me contar uma coisa, se ele poderia confiar em mim. Eu disse que sim. Nunca fui uma pessoa dada a preconceitos. Minha filosofia de vida é que a vida pode acabar a qualquer momento. A desgraça da minha vida é que esse momento nunca chega.

Entre 30º e 33º C os tremores no corpo desaparecem, um sono recai sobre você, sua consciência começa a nublar, a memória falha, os músculos ficam rígidos e sua fala embolada. Essa é a hipotermia moderada.

Eu ouvi atentamente. Pouca coisa nesse mundo ainda me surpreende e o que ele me falou não me surpreendeu nem um pouco. Eles estão casados há dez anos e são apaixonados. Cada vez que acham que estão caindo na rotina tratam de fazer algo que mude isso. A mudança da vez, ele disse, é a mais estranha de todas as anteriores. Ele falou estranha mais para mim que para ele, mas nem precisava fazer essa distinção. Pelo que percebi, estranhas sim seriam as mudanças posteriores. Eu espero que eles sejam bastante criativos.

Então no meu porta-malas tem vários sacos de gelo. Eu levo o carro até a casa do meu vizinho. Eu o ajudo a levar os sacos para dentro da casa. Ele está usando um roupão. A mulher dele me cumprimenta. Ela está só de toalha. Suas mãos estão trêmulas e dá para ver seus mamilos túrgidos sob a fina toalha. Sorri para mim, mas não com malícia. Ambos sabem que minha fruta é outra. Ele pede para eu o acompanhar até o banheiro e ajudar a abrir os sacos e jogar alguns na banheira.

Pegue uma cerveja para ele, amor, ele diz para a mulher. Eu tento negar, afinal meu pagamento está no carro, mas ele insiste e, antes que eu decline mais uma vez, a mulher dele já está do meu lado com uma garrafa. Ela não está usando maquiagem. Seu cabelo se prende num coque e seus olhos demonstram que não dormiu muito bem. Mesmo assim mantém o sorriso. Parece ao mesmo tempo cansada, mas disposta a fazer sempre algo mais.

Aos 30º C você fica imóvel e inconsciente. Suas pupilas se dilatam e o batimento cardíaco diminui, ficando quase imperceptível. Se não for tratado correta e urgentemente, sua morte é iminente. Essa é a hipotermia grave.

Então deixamos a banheira com gelo suficiente para que uma pessoa possa deitar-se nela. Ele abre o chuveiro e deixa a água ocupar o espaço suficiente e me acompanha com uma garrafa de cerveja trazida também pela mulher.

Isso parece estar dando certo, eu digo antes de bebericar mais um pouco. Sim, eles respondem juntos. Mas acho que essa será a última vez, ele me diz, já que pode prejudicar ela, mas eu estou gostando muito. O sorriso dela também parece ser de aprovação. Ele desliga o chuveiro e levanta-se me convidando a fazer o mesmo. Ele a beija na boca e me segue até a cozinha. Há um espelho ali próximo e eu posso ver rapidamente, enquanto caminho, a mulher despir-se da toalha e entrar cautelosamente naquela banheira com água e gelo.

A casa está com o ar condicionado ligado, então o choque térmico na banheira não será tão grande. A pele dela vai se arrepiar já avisando ao resto do corpo pra tentar mantê-la aquecida, inutilmente, claro. Ela começará a ter taquicardia e tremores.

Ele tira mais duas garrafas do freezer e me oferece uma. Abro e dou um gole grande. Ele parece feliz. Ela não dormiu essa noite para as olheiras ficarem mais aparentes, ele me disse. E eu já estou excitado, ele me disse.

A temperatura da água precisa estar abaixo de 15° C. O objetivo deles é que ela consiga atingir a hipotermia grave.

Conversamos sobre um novo cortador de grama que ele comprou e sobre algumas dicas de jardinagem. Depois de um tempo ele vai até o banheiro e de lá grita meu nome. A hora chegou.

A aparência dela é de um cadáver encontrado há alguns dias.

A aparência dela é como uma folha de papel esquecida e manchada pelo tempo.

Sua pele pálida e os olhos fundos no meio das olheiras lembram algum filme de terror em preto e branco. Seu olhar divisa o nada. Rapidamente eu o ajudo a tirá-la da banheira. A pele dela estava queimada em alguns pontos. Tocar nela era como tocar em um membro dormente.

A colocamos na cama e ele foi tirando o roupão. Eu desliguei o ar condicionado, coloquei uma cadeira perto da porta e sentei. Esse era meu posto. Enquanto isso ele pegava uma bisnaga e passava o conteúdo no pau. Era anestésico tópico.

Dava para ver o quanto ele estava excitado. Então ele subiu na cama e começaram a foder. Digo, ele começou. Ela não mexia um músculo. Seus olhos vítreos fixavam-se na porta. Enquanto isso ele dava fortes estocadas nela junto a baixos uivos de prazer que acompanhavam os movimentos.

Não demorou nem podia demorar muito. Me pareceu ver ela piscar. Foi ai que ele soltou um suspiro longo. Ele gozou e rapidamente saiu de cima dela. Eu corri com alguns cobertores. Ele trouxe mais e a cobrimos. Fizemos os procedimentos para ela melhorar da hipotermia enquanto o café borbulhava na cafeteira.

Enquanto eu e ele bebericávamos o café depois de pronto perguntei qual seria a próxima quebra de rotina. Ele disse que não tinha pensado ainda. E então abriu um sorriso e disse para mim:

Tem que ser algo maior que isso” e apontou com a cabeça para a esposa na cama. “Algo mais perverso. Tipo ter um filho.”



Hemerson Miranda
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terça-feira, 20 de novembro de 2018



Ele me disse alguma baboseira.

Fiquei pensando. Era uma verdade. Era filósofo de botequim. Já estávamos na quarta garrafa.

Não disse nada. Continuei bebendo. 

Meu celular tocou. Mensagens. Toda hora mais mensagens. As pessoas perderam a habilidade de apertar o botão verdinho. Que na verdade não é mais um botão. 

Respondi a mensagem.

Mais uma inútil. Como a maioria. Alguém perguntando se ele estava tudo certo. Querendo "conversar".

As pessoas na praça andavam de um lado pra outro. Mendigos, caras de banho tomado, gostosas de shortinho. Riam, não riam. Se achavam o centro do universo, naquela cidadezinha minúscula. 

Coloquei o celular de volta no  bolso. Ele apitou mais uma vez.

Meu amigo me perguntou alguma coisa relacionada a futebol. O Corinthians tinha perdido na quarta?

Peguei o celular mais uma vez.

“Oi que tá fazendo de bom?”

Não respondi.

Apenas coloquei o celular de volta no bolso.


Conto de Lucas Beça
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segunda-feira, 19 de novembro de 2018


Conto de Gustavo do Carmo


Passados quatro meses, Patrícia já estava aparentemente recuperada do choque com o suicídio trágico do irmão mais novo – que se jogou do sexto andar do apartamento onde morava, depois que viu um ex-amigo fazendo sucesso com um filme baseado em um conto seu, sem autorização – quando resolveu procurar uma editora para publicar, de forma póstuma, os textos do escritor fracassado.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

João Paulo Mesquita Simões





Em primeiro lugar, quero apresentar as minhas desculpas por não ter postado ultimamente. Foi uma situação à qual fui alheio.

Um furacão passou por Portugal, causando estragos de milhões e milhões de euros. Claro que as comunicações também foram afetadas, e estive um mês sem internet, televisão e telefone.

Mas já está tudo restabelecido, e aqui estou para vos falar da Filatelia.

Apresento um selo e um bloco comemorativos do Armistício da I Grande Guerra, que comemora este ano o seu Centenário.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2018



Aos 11 anos eu tive um amigo na escola a quem eu contava tudo. O que me intrigava era ele ainda querer continuar meu amigo depois de tudo o que contei. E naquela época eu parecia ter muita coisa para contar.

Contei que aos nove anos, depois de tomar banho com minha mãe, o que era costume em nossa casa, eu ia para o meu quarto e ficava brincando com meu pinto lembrando dela pelada.

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terça-feira, 13 de novembro de 2018



- E aí, deu certo?


Depois de uma noite de sono, a segunda.


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segunda-feira, 12 de novembro de 2018


Microconto de Gustavo do Carmo

Casal de propaganda
Era o casal de propaganda de margarina. O contrato com a agência de publicidade acabou e o casal se separou.
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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Por Dudu Oliva


Eram duas irmãs com temperamentos opostos. A primeira vivia vigilante e a segunda queria voar por aí.
Segurança aconselhava a Liberdade cautela, pois o mundo não era como sua irmã pensava.
Liberdade exausta com os conselhos da Segurança fugiu de casa e se jogou para o mundo. 
Segurança ficou depressiva, já que não tinha mais a leveza da Esperança. Os dias ficaram mais chatos.
Um dia, Liberdade voltou. Estava ferida e vazia por dentro.
Segurança a abraçou e cuidou dela até voltar a ser como era, para iluminar o lar novamente.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018



Meu pai fazia minha mãe usar cascas de batata para reduzir o inchaço nos olhos provenientes de suas noites mal dormidas. Ela ficava 15 minutos com a parte úmida das cascas, já um pouco escurecidas, sobre a pele. Isso me faz lembrar das aulas de biologia, da informação de que, 30 minutos após a morte, os olhos começam a afundar no crânio, ficam desidratados e a córnea parece um véu viscoso e esbranquiçado. E sobre isso, nem casca de batata ajuda.
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terça-feira, 6 de novembro de 2018



Te vejo aqui, mas você não está aqui realmente.


Deveríamos ir lá! Agora!
Ou quem sabe amanhã, né...


Não sei se estou fazendo o melhor.


Depois do gol, recuaram, como sempre.


Seus sonhos a embalava durante a noite.


Por Lucas Beça
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segunda-feira, 5 de novembro de 2018



Conto de Gustavo do Carmo



Acabei de ter alta do hospital. Fiquei dois meses internado, metade deste período em coma. Quase matei meus pais de preocupação. Sofri um AVC. Andava muito ansioso com o meu futuro e me preocupando demais com a minha família.

Estava em casa, no computador, quando, de madrugada, além de uma forte dor e pressão na cabeça, senti uma tonteira estranha, minha vista escureceu, minha boca ficou dormente para um lado, não lembro qual. Desmaiei. Foi meu pai quem me socorreu.
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sábado, 3 de novembro de 2018

Andei algo ocupado por estas semanas, batalhando uma proposta audiovisual (PPS) para incrementar de alguma forma diferente meu trabalho e segundo romance... Não podemos é desistir! É o que gostariam os 'indiferentes'...
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