quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Smile




Onde eu estava?
Ah sim, no quarto dela.
Janelas com cortinas.
Na cama, um lençol desenhado com cogumelos.
Um pôster de Rick Martin.
Escova de cabelo rosa.
A cama dela era macia e sentamos na ponta, um ao lado do outro.
Meu coração palpitava forte e minha camisa recendia a desodorante. Podia sentir uma gota de suor deslizar na minha têmpora esquerda.
Eu estava beijando Ellen.
Não, na verdade ela estava me beijando.
Mas isso foi ontem. Onde estou agora?
Ah sim, na fila do supermercado.
Música entediante saindo de caixas de som ocultas.
Pirâmides de latas de extrato de tomate e ervilha.
Espera, o que é isso preso ao bolso da minha camisa?
Um button.
Um sorriso.
Um emoticon?
Isso me faz lembrar de várias coisas, menos o que ele está fazendo ali e de onde veio. Comprei? Alguém me deu?
Ghost in the Shell.
Watchmen.
Afinal, o que estou mesmo fazendo aqui nessa fila? Na minha mão tem uma garrafa de vodca e um pacotinho de salame fatiado. Mas e o button?
Alguma coisa aconteceu antes de Ellen e o quarto dela.
Ah sim, o enterro da minha tia.
A cada hora morre uma pessoa neste maldito mundo e ninguém ainda se acostumou com essa porra.
Minha tia.
Minha melhor amiga.
Um dia antes estávamos, como sempre, conversando. Ela, mais velha que eu 20 anos, era a única pessoa com quem eu realmente me sentia à vontade para conversar. Então ali estávamos mais uma vez, batendo papo.
Coca-cola.
Pizza.
Batata frita.
No dia seguinte: ela morre.
Assim. Apenas assim.
Ela não me avisou. Não me mandou uma mensagem ou deu sinais de que ia embora para sempre.
Tudo no corpo dela desprendia vida. Uma vida sofrida e se esvaindo aos poucos como uma ampulheta, claro, mas nenhum indício de que ia terminar sem uma introdução dramática.
Apenas foi. E eu tive ódio disso.
Após o enterro, Ellen me consola. Não bebi nada, mas acho que por causa da situação, estou, sim, bem embriagado.
Ela me leva até seu quarto, para continuar me consolando.
Ellen, amiga.
Ellen, paixão antiga.
Ali, sob o manto do luto, vulnerável, Ellen faz o que eu queria fazer com ela há muito tempo.
Minha tia morta.
Essa é a simplicidade da morte, a indiferença do coração.
Ele bate e então para de bater.
Cessa a repetição.
Sem ele bombeando, o sangue simplesmente busca as partes inferiores do corpo, para se acumular ali como pequenos lagos vermelhos.
Livor mortis.
É hora das bactérias e dos vermes fazerem festa naquele belo corpo de minha amada tia.
Canais de Havers.
Glândulas de Lieberkühn.
Ilhotas de Langerhans.
Minha tia estava aqui ontem. Não está mais aqui hoje. Acabaram as conversas e eu perdi minha melhor amiga.
O exército da morte avança pelas profundezas escuras e úmidas de seu corpo sem vida.
Cápsula de Bowman.
Coluna de Clarke.
Nosso corpo basicamente é uma divisão de territórios loteados com nomes de homens que já morreram.
No quarto de Ellen: ela está deitada na cama e levanta a blusa.
Está sem sutiã.
Minha língua lambendo.
Meus lábios chupando.
Meus dentes mordendo.
Até então eu achava que o tesão residia no meu pau, mas então percebi que ele habita no estômago, em explosões ácidas e por vezes sobe até a garganta, como a bile.
A minha mão resvalou abaixo de seu umbigo e ela retirou as calças.
Calcinha branca.
Pelos pubianos.
Meus dedos deslizaram pelos seus pelos macios.
Dedos úmidos.
De repente eu não senti nada.
Uma ereção que não veio.
Uma oportunidade que se foi.
A sensação pulou de meus dedos para a minha garganta.
Minha tia monopolizava meus pensamentos.
Um buraco negro abriu em meu peito e me engoliu.
Sai dali correndo e pensando que talvez nos próximos dias eu seria considerado homossexual.
Mas e o button?
Lápides ladeavam as ruas do cemitério.
Umas imponentes, como se houvesse algum orgulho na morte.
Outras apenas uma cruz de madeira fincada na terra seca com mato crescendo em alguns pontos.
O túmulo de tia era de mármore negro, mas de que isso importa?
Mulheres chorando.
Homens de cabeça baixa num silêncio reverente.
No túmulo negro meu reflexo é apenas uma sombra.
Não morria somente uma parente. Não era apenas a irmã de minha mãe, a filha de meus avós, a cunhada de meu pai ou a tia de minha irmã.
Morria eu e minhas alegrias.
Uma dor sólida e pesada reside ou dentro ou do lado de meu peito e pulsa como se fosse um outro coração.
Sai da casa de Ellen e corri para o mercado.
Ah, agora estou entendendo.
Então não foi ontem. O ontem que falei ainda é hoje. Estou aqui depois de ter saído correndo da casa de Ellen. E estava lá depois de sair do cemitério.
Agora entendo a vodca e o salame.
Estou bêbado antes mesmo de pagar essa vodca? Eu já havia bebido bastante antes?
Amnésia alcoólica.
Tenho certo temor de que meu cérebro não consiga mais produzir memória de curto prazo e que a minha cabeça não seja capaz de criar sequer uma breve lembrança que eu possa esquecer.
Produzir lembranças, que coisa esquisita.
Tem um ar quente atrás de mim e é uma senhora gorda fungando em meu cangote.
Isso me enoja.
Me aborrece.
Ela e sua gordura que a faz ter movimentos lentos e tediosos.
Bato o pé no chão com impaciência e a fila finalmente começa a andar.
Passo a língua nos lábios e ainda está aqui o gosto de Ellen.
Sal.
Ácido.
Creme hidratante de maçã.
Na minha mão direita ainda posso sentir a carne macia de seu seio, na ponta dos dedos o néctar seco de sua fenda.
A moça do caixa olha para mim com a expressão de quem está vendo um mendigo que não come há semanas. Ela masca um chiclete e todas as suas linhas de expressão parecem se mover em câmera lenta.
Cabelos desgrenhados.
Roupa amarrotada.
Estou falando de mim, não da moça.
Ela sequer olha nos meus olhos, como se eu fosse apenas mais uma coisa que passa na vida dela e a vontade que eu tenho é de lhe dar um tapa na cara.
Apenas quero sair dali. Embalo minhas coisas, passo o cartão e vou embora.
Meu quarto não tem janelas com cortinas nem minha cama tem um lençol com cogumelos.
Pôster de System of a Down.
Guitarra.
Estante com livros de Stephen King.
Uma edição capa dura da revista número 1 de Sandman.
Antes de abrir o salame e a garrafa de vodca, sentado na cama, olho para minhas mãos e aproximo os dedos do nariz.
Cheiro de boceta.
Ellen.
Ah, agora você aparece, ereção?
Meu corpo é tão desobediente que me entristece.
Meu pau duro.
O corpo de minha tia duro.
Ambos temos rigor mortis.
A caneca de Tron na escrivaninha.
Um gole de vodca.
Uma fatia de salame.
Um gole de vodca.
Uma fatia de salame.
Ah, o button.
Passo a mão no rosto e sinto a barba rala, o óleo na pele, mas minha mão trava em alguns pontos que provavelmente foram sulcos criados por lágrimas.
Uma moça de cabelos cor de areia e sardas escorrendo de sua testa, ela me diz “Jesus te ama!” e me dá o button.
Onde eu a vi mesmo?
Moça das sardas, passei a contar os dias achando assim que se o fizesse não estaria perdendo tempo.
Onde ela está agora?
Ah, lembrei, eu a vi no velório.
Seus lábios não se abriam num sorriso, mas um sorriso podia ser visto em seus olhos cinzentos. Por trás deles ela guardava uma esperança vítrea que eu jamais irei possuir.
Onde estou agora?
Ah sim, estou no velório.
Espera aí. Eu não estava bebendo?
Um caixão de madeira com cor de vinho e no meio dele, envolvida por ridículas flores brancas, está minha tia.
Olhos fechados.
Lábios vermelhos, mas um vermelho desbotado, sem vida.
Claro que é sem vida!
Tudo ali agora é morte, não apenas os cabelos, pelos e unhas, cada centímetro de seu corpo agora é a imagem da morte, como uma pedra, um pedaço de madeira, um maço de cigarro.
Parece estar dormindo.
Gostaria de dormir com você.
“Jesus te ama!” Eu conheço a passagem dos minutos, só preciso preenchê-los com alguma coisa.
Ellen e seus seios firmes.
A vodca e seu cheiro de álcool.
O salame, seu cheiro me lembra o aroma acre das partes íntimas de Ellen?
Sou homem, por isso gosto de ter razão.
Um arroto pelo nariz me faz sentir o cheiro apimentado da vodca.
Mas espera aí. Estou no meu quarto bebendo ou no cemitério?
Ou no velório?
Certamente não no quarto de Ellen.
Será que eu devo beber e voltar para Ellen? Ainda posso sentir a reverberação residual do tesão.
Seus seios, poderiam me consolar. Passo a achar que não estou atrás de sexo e sim de um consolo materno. Ellen e seus seios macios e firmes, me consolando, como um bebê diante da indiferença macabra da vida.
Pseudosinceridade.
Jesus me ama, mas parece que o tempo está sendo arrancado de mim a mordidas.
Lembro dos olhos de Ellen quando levantei da cama e sai correndo.
O desejo deixou os olhos dela como uma alma deixa o corpo.
Um gole de vodca.
Uma fatia de salame.
Pego o maço de cigarro e o barulho do fósforo explodindo para acender o cigarro me acorda de um sonho que eu tenho sem dormir.
Tenho apenas 16 anos, mas tanto os vincos no meu rosto quanto os fios prateados na minha cabeça teimam em dizer que eu tenho mais.
Faz frio aqui dentro e me envolvo com um manto quente de tristeza.
Minha tia e seu cigarro formando espirais de fumaça.
Ela e sua pele branca com veias visíveis que lembravam rios azuis indo desaguar em algum mar misteriosos sob suas roupas.
As flores brancas cobrem seu busto, mas lembro deles e do meu desejo de enterrar ali meu rosto e esquecer o mundo. Isso me faz lembrar de um poema de Baudelaire, Os Faróis.
“Goya, lúgubre sonho de obscuras vertigens,
De fetos cuja carne cresta nos sabás,
De velhas ao espelho e seminuas virgens,
Que a meia ajustam e seduzem Satanás”
Onde ela está agora?
Onde eu estou agora?
Ah sim, eu estou aqui.


Hemerson Miranda

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