quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Cafeína



28 de junho




Ela vem do outro lado da rua, seu corpo esguio deslizando sobre a faixa de pedestre. Seus cabelos curtos e acobreados emolduram o rosto fino. Os olhos possuem um brilho como duas chamas bruxuleantes, acima das profundas olheiras.

Na mão ela traz um copo de café expresso. 75 mg de cafeína.


Quando caminhamos lado a lado eu digo a ela que tenho problemas com finais. O meu problema é que não acredito neles. Para mim tudo está inacabado. Nenhum trabalho está finalizado. Sempre fica necessitado de reforma, de uma atualização. As coisas sempre em constante transformação. Não se termina um relacionamento, não se dá um final para uma amizade. Tudo permanece como escombros. Nem os buracos negros são um fim. Ao redor as coisas são como se alguém tivesse começado a construir algo, mas abandonou por ter ficado cansado. Tudo são ruínas, nada está acabado, vive eternamente se acabando.

Uma lufada de vento traz até mim o odor de seu hálito amargo.


Quando eu ler isso no futuro estarei mais velha do que posso lembrar. Se você estiver lendo isso, bem-vinda de volta à realidade. O que você pensava sobre finais mudou? Eu duvido muito. As coisas que aconteceram desde então devem ter corroborado ainda mais a ideia que você tinha sobre isso. Finalizar alguma coisa seria aquele tipo de paz que a vida jamais deixaria você alcançar. O mundo continua sendo assombrado por fantasmas de coisas inacabadas.



30 de junho


Eu estou sempre triste. É que às vezes esqueço disso.

Então um sorriso brota quando ela vem dobrando a esquina para o lugar em que combinamos nos encontrar. Há uma sedução emanada de seu ar de constante sono, suas olheiras acentuam seus grandes olhos, como um abismo que te chama a cair nele.

Na mão ela traz uma lata de coca cola. 35 mg de cafeína.

"Sabe, eu tô cansada de as pessoas dizerem pra eu tirar o pé do chão. Você não fica entediada com a perfeição que as coisas todas estão tomando? O som das músicas é cristalino, limpo demais. Dá uma saudade do ruído que tinham os discos de vinil. As imagens então. Tudo agora é full hd. Sempre preciso, sempre perfeito. A digitalização, como um buraco negro, suga a vida de tudo o que passe perto dela. Tudo está morto."

Ela sempre fala como se lesse meus pensamentos. Como se soubesse expressar coisas que eu não conseguia.

Você aí no futuro, já experimentou damasco? Sabe, as pessoas se parecem com essa fruta. Costumamos apreciar as pessoas pelo leve sabor doce que possui sua fruta. Mas você tem que gostar muito de uma pessoa para suportar o leve amargor em volta do caroço.


Um amigo do trabalho disse hoje que todas as mulheres são doidas. Me senti como se não fosse doida o suficiente.



5 de julho


O bocejo parece uma insatisfação em câmera lenta. E ele aparece nos piores momentos, como se fosse uma forma do corpo te dizer quem é que manda nessa porra. Eu vejo isso no homem que boceja numa conversa aparentemente importante com outro na mesa ao lado.

Ela chegou antes de mim, então já está com o notebook ligado, esperando que eu também faça o mesmo.

"Uma vez eu vi um amigo ter a perna esmagada por uma viga" ela fala enquanto eu lhe passo uns papéis com anotações. "Ele estava com medo de que nunca mais conseguisse andar. Falava bem perto de mim e eu senti seu hálito com um cheiro avinagrado. Desde então fiquei me perguntando se vinagre é o cheiro do medo."

Eu pergunto se ela tem medo de morrer. Ela diz que não pode ser pior que viver.


Na mão ela segura uma xícara de chocolate meio amargo. 20 mg de cafeína.



8 de julho


Faz calor e ela usa uma blusa de alça. Nunca havia reparado em seu pescoço, em suas clavículas. A sua pele me faz salivar inconscientemente. Uma gota de suor cai de seu queixo e se esconde entre os seios. Forço meu olhar para algum lugar longe, onde pessoas caminham ou correm ou passeiam com seus cachorros. Olho para minha própria pele, esse lugar macio e levemente perfumado onde a vida registra os fracassos e meu cansaço.

Sua mão segura um energético. 80 mg de cafeína.

Eu pergunto a ela se já leu um livro que foi como se lhe dessem uma bofetada na cara. A resposta saiu de sua boca como carne que se desprende do osso. "Noites Brancas", ela diz e eu lembro do impacto desse livro em mim.

Ela é o que hoje você chamaria de "limpa". Sem piercing, sem tatuagens ou cabelo colorido ou escarificação. Ela hoje não teria problemas com tatuagens flácidas, bunda caída e coxas magras. Para que você saiba, caso sua memória falhe, você nunca a beijou, apesar de desejar. Mas tenho a impressão de que sua boca é amarga, sem nada adocicado que pudesse mascarar o gosto inevitável de sua tristeza.

Ela fala como se saísse de uma profunda reflexão.

"Já parou pra pensar que a pessoa precisa estar muito fudida pra criar arte? Olha Nietzsche e sua sífilis, Mozart e seu acúmulo de ureia no sangue. Frida Kahlo vivia com as pernas sangrando. É sério. Parece que a inspiração precisa de uma desgraça própria. Por isso Cioran fala que os escritores de segunda linha tendem a autenticidade. Claro, eles não são muito capazes de maquiar a individualidade do que os leva a escrever. Imagina o que Dostoiévski sofreu pra escrever tudo o que escreveu."

Depois que ela termina eu olho para um homem muito gordo que está sentado numa lanchonete, com essa desesperança vítrea que tem todos os gordos enquanto mastiga de forma rítmica seus quilos de frango frito.


Só para que conste nesse registro, você já foi gorda, mas nem por isso se tornou imbecil ao ponto de militar pela gordofobia. Ao menos eu espero.



15 de julho


Na mão ela segura uma lata de ice tea. 60 mg de cafeína.

Continua o calor. Parece o dia mais quente do ano. Eu ergo meus braços para aspirar o odor das axilas e meu cenho franze num misto entre desgosto e um aroma adocicado. Ela ri. Há uma insistência desconcertante do real e um esforço ridiculamente palpável para ignorá-lo. Eu estava naquele estado que só é reconhecível quando se sai dele.

"Ontem um amigo me ligou dizendo que encontrou a mulher dele na cama com outro homem. Ele disse que percebeu que não se importava. Na verdade ele não se importava há anos. Então sentiu um pouco de pena deles e lhes desejou boa sorte."

Olho para ela e rio. Percebi que ela seria capaz de perdoar qualquer coisa. Perdoar com sua indiferença infinita. E percebi também que coisas reais não me fazem chorar, só as falsas, as que estão no mundo da ficção. E me resignei com isso. Existe uma paz na autorrepulsa.

Eu digo a ela que a primeira coisa que existe é o horror, que basicamente é o primeiro horror. Aí nós temos que assimilá-lo. Ela fala:


"A gente é um bando de filhos da puta. Tu sabia que um pintor italiano chamado Manzoni colocou a própria merda dele numa lata, tô falando de merda mesmo, que ele cagou, aí pôs uma etiqueta na lata dizendo "100% pura merda de artista" e o povo comprou?! "



19 de julho


A chuva parou antes do meio dia. O céu, absurdamente bonito, era tingido por uma cor amarelada em meio a pequenas nuvens granulosas.

Ela apareceu no café molhada. Nunca usava guarda-chuva. Seus lábios estavam molhados, ela era a Eva, com os lábios ainda úmidos do fruto proibido.

Ela pede um cafezinho. 100 mg de cafeína.

"Você já percebeu que quando você goza, você não está lá?" ela fala enquanto eu abro o sachê para derramar o açúcar no meu café. Eu a olho com rugas entre as sobrancelhas. Ela continua. "Esse êxtase aniquila você. Você não fica ali pra experimentar o gozo. Sua participação é apenas na preparação, no que antecede e no final, quando sente aquele vazio sórdido."

Para que fique registrado, nós nunca fizemos sexo, mas ela me causava orgasmos intelectuais. A coisa mais bonita que lembro dela é que ela me questionava sobre minha individualidade. A conclusão a que cheguei é de que só somos indivíduos se estivermos inseridos num constructo composto por outros indivíduos, que respeitam ou não sua individualidade e seus direitos e escolhas.

Se você está lendo isso é porque essa é a história de tudo o que deu errado. Tudo é uma ilusão, uma ficção criada para te manter controlada. Até isso que você chama de realidade é uma camada falsa sobre a verdade. Sabe esse teu rosto? Tirando a maquiagem, ainda tem três camadas de pele. Essa que você toca, o stratum corneum, é uma capa de células mortas. Não vire o rosto. Olhe para si mesma. Essas células mortas estão sendo empurradas, expulsas, pelas de debaixo. Tem o manto ácido, a derme, os músculos. Você pensa agora que conhece a si mesma? Não seja ridícula.



Hemerson Miranda

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