segunda-feira, 2 de julho de 2018

NÃO QUERO ESSE TRANSTORNO DE VOLTA


Conto de Gustavo do Carmo

Estava feliz com a primeira namorada que conquistou, aos trinta e cinco anos de idade. Aparentemente recuperado de uma depressão e de um transtorno de ansiedade severo, Manieri conheceu Melina, de 28 anos, em um aplicativo de relacionamento no smartphone. Ele a marcou pela sua beleza e foi retribuído. Combinaram.


Trocaram mensagens e marcaram um encontro. Logo no restaurante começaram a namorar. A noite terminou em um motel. Tudo como manda o figurino das propagandas de agências e sites de namoro, que não preciso descrever aqui.

Melina visitou, pela primeira vez, a casa de Manieri em um domingo. Conheceu os seus pais, sua irmã, seu cunhado e seu sobrinho bebê.  Em seu quarto, ele lhe mostrou a sua coleção de carros em miniatura e livros. Ela ficou encantada, abriu a porta de um BMW, folheou a biografia de um escritor português e viu a capa do romance de um psicólogo. Tirou de ordem.

Discretamente, Manieri arrumou os livros para a posição exata em que estavam antes. Também mudou a inclinação do seu carrinho na estante do seu quarto. Melina viu e mordeu os lábios, tentando controlar o nervosismo. Foi ao banheiro.  Ao lavar as mãos, amarrotou a toalha de mão do suporte.

O casal saiu do quarto e foi almoçar na sala, com a família, junto com a família dele. Antes, Melina tinha voltado ao banheiro e encontrou a toalha que amarrotara perfeitamente dobrada no suporte. A garrafa do sabonete líquido, que também tinha deixado torta, com o rótulo para a direita e o bico para trás, estava perfeitamente alinhada, com rótulo e bico para frente.

Manieri estava visivelmente incomodado com a presença do sobrinho à mesa. Tremia a cada gemido do bebê. Mas, como a namorada estava em sua casa, controlou-se. Serviu-se de bife à milanesa, farofa e duas rodelas de tomate. Ao mesmo tempo, Melina estava servindo-se de arroz e feijão e perguntou se ele queria.

— Quer arroz e feijão, amor?
– Não. Depois eu como.
A mãe entrou na conversa:
— O Maninho só come arroz e feijão separado da comida. E ainda tem que lavar o prato antes. Desde pequeno ele é assim.
— Mãe!

Melina sorriu amarelo. Depois dessa, vaticinou para si mesma: seu novo namorado tinha Transtorno Obsessivo Compulsivo.  

O pai de Manieri contava as histórias de dificuldades que passou na vida para a futura nora quando o filho, ao ver uma ex-colega de faculdade fazendo uma reportagem no telejornal,  pediu para desligar a televisão. Saiu da mesa, sem pedir licença e foi para o quarto abruptamente quando o sobrinho começou a chorar. Ele já tinha terminado de almoçar.

Pedindo licença para a família de Manieri, Melina saiu da mesa e foi até o quarto do namorado, que tinha fechado a porta, que ela bateu com três toques, perguntando se poderia entrar.

— Claro, amor.
— Por que você saiu correndo da sala?
— Ah, é o chato do meu sobrinho que começou a chorar. Eu odeio choro de criança.
— Bem, eu já vou.
— Fica mais.
— Não. Amanhã eu trabalho e acordo cedo. Preciso ir. Você não vai me levar até à porta?
— Vou esperar o meu sobrinho parar de chorar. Espera comigo?
— Ele já parou.
— Então vamos.

Melina se despediu da família de Manieri. Na semana seguinte, foi a vez dele conhecer a mãe da moça. Enquanto esteve na casa dela, Manieri lavou a mão 50 vezes e o rosto 20 vezes. Também arrumou a toalha de rosto 25 vezes. Foi o que viu e contou a mãe de Melina.

No almoço, a futura sogra adivinhou que ele gostava de lasanha, mas estranhou a sua mania de comer arroz e feijão separado. Melina era órfã de pai e filha única. Por isso, estiveram apenas os três na casa. Dona Mercedes deixou o casal sozinho na sala assistindo a televisão.

Como visita, Manieri teve o direito de administrar o controle remoto. Na meia hora em que Melina aninhou-se ao seu colo, ela percebeu que ele mudou de canal várias vezes. Um porque reapareceu a sua ex-colega de faculdade, outro só falava de violência, um terceiro apareceu um comercial de crianças e o quarto só deu notícias de São Paulo.

Pela primeira vez, impaciente com o namorado, Melina pediu:

— Dá pra parar de mudar de canal toda hora, amor? Eu quero ver televisão.
— Desculpa. Bem, está na hora de eu ir. Está escurecendo e a minha mãe está sozinha em casa.
 — Eu nem vou pedir pra você ficar, porque, realmente, está ficando escuro e preciso me preparar para o plantão na redação logo mais.

Depois deste encontro, Melina não procurou mais Manieri, que pensou que fosse por causa da sua rotina. Ela ficou sem jeito de terminar o namoro. Viveu dos treze aos vinte e sete anos com transtorno obsessivo compulsivo e transtorno de ansiedade. Foi internada aos vinte e cinco, quando passou doze horas imóvel embaixo do chuveiro. Foram dois anos de tratamento. Recuperou-se. Conseguiu emprego na redação de um jornal.

Estava realizada na carreira. Ganhando bem. Jornalista, preparava-se para trabalhar na televisão quando conheceu Manieri. Também estava feliz em tê-lo conhecido. Até conhecer o seu transtorno obsessivo compulsivo. Repugnou essa mania de novo na sua vida. Preferiu afastar-se dele. Nem a amizade levou adiante.

Ela precisava contar para o agora ex-namorado. Não sabia como. Não queria mais vê-lo. Decidiu escrever um e-mail.

  
Manieri,
Amo-te muito e peço que não me julgue. Só que, infelizmente, não podemos continuar juntos. Nem como amigos. Eu me recuperei de um transtorno obsessivo compulsivo, popularmente conhecido como TOC, que usurpou quatorze anos da minha vida.

Estou recuperada e me realizando no trabalho. Fui chamada para ser repórter da mesma emissora da sua ex-colega de faculdade, conforme me contou outro dia. Também estava feliz por estar te namorando. Mas, ao te conhecer na intimidade da sua casa, vi que o pesadelo que quase arruinou a minha vida estava voltando para mim. Não. Não é você. É o seu TOC, a mesma doença que eu tive.

Não quero esse transtorno de volta. Não quero conviver com ele novamente. Mesmo que ele esteja em outra pessoa que amo tanto.   Eu percebi as suas superstições e manias. Vi você reorganizando toalhas e potes de sabonete. Vi você mudando a inclinação dos seus carrinhos em miniatura depois que eu mexi. Vi vários cartões de crédito vencidos na sua mesa de computador. Vi algumas coleções desnecessárias de papel.

Senti que você não gosta de crianças. Vi você comendo em prato separado e dividindo a comida no mesmo. Vi você mordendo o dedo com força, para se machucar. Na última vez em que estive com você, mudaste o canal umas dez vezes. Não dá. Perdão. Não quero conviver com você para ter esse pesadelo de novo.

Faça um tratamento. Será melhor para você. Antes que seja tarde demais. Antes que machuque as pessoas que te amam: seus pais, sua irmã, seu cunhado... seu sobrinho.

Boa sorte. Sem ressentimentos

Melina Alvarardo  

Depois de ler o e-mail, Manieri quebrou o seu quarto todo. Toda a sua coleção de carrinhos foi jogada ao chão. As revistas rasgadas. Os móveis chutados. Trancou-se no banheiro. Passou quinze horas embaixo do chuveiro, preocupando os seus pais idosos. Teve acesso de fúria. Crise de pânico. Foi internado.

Passou um ano. Já tinha recebido alta da clínica havia alguns meses. Escreveu um livro sobre o transtorno obsessivo compulsivo sob o ponto de vista de um paciente e não de um médico especialista. Conseguiu uma editora para publicar, com apoio da psiquiatra que o atendeu.

Recebeu a visita de Melina, que queria lhe dar uma notícia séria:

— Tive um filho e ele é seu. A gestação coincidiu com o dia do nosso primeiro encontro.
— Bem, Melina, eu deveria questionar se esse filho é meu mesmo, depois de tudo o que você me fez. Mas ao mesmo te agradeço por me ligar o sinal de alerta. E seria muito egoísmo da minha parte renegar um filho que pode ser o segundo neto dos meus pais. Respondeu, com uma surpreendente calma e segurança.
— O filho é seu mesmo! É a sua cara. Só não falei nada porque, como já disse, não queria te trazer de volta.
— Isso aí já foi sacanagem da sua parte. Deveria ter falado com a minha família, pelo menos.
— A sua família não quer me ver nem pintada de ouro.
— Também. Com o que você fez comigo. Tem foto dele aí?
— Tenho.

Melina mostrou o seu smartphone. Manieri comparou as fotos com as suas de quando tinha um ano, que também estavam em uma rede social. Realmente Tarcísio Henrique era a cara de Manieri. Perguntou se ele já tinha padrasto. Melina respondeu que não. Todos os homens que conheceu não queriam se envolver com uma mulher com filho.

— Vai continuar afastada de mim para o seu TOC não voltar?
— Eu que pergunto. Pois agora o curado é você. O transtorno voltou para mim.

Beijaram-se apaixonadamente. Casaram-se. O livro de Manieri fez sucesso e o deixou rico. Ela foi promovida a apresentadora de TV, mesmo com TOC. Tiveram mais um filho, desta vez, uma menina: Maniara. Formaram uma família feliz. Os quatro com transtorno obsessivo compulsivo.

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