terça-feira, 26 de junho de 2018

Isso é tudo?



- Você se acha tão foda, né?


Ela parou o que estava fazendo. Escrevia.

- É, e você se acha o quê?

- Eu? Nada. Sou um nada. Mas você não, você é fodona.

Ela ergueu as sobrancelhas.

- Não, não me leve a mal, digo isso num bom sentido, sabe? Acho você foda.

Ela estreitou os olhos.

- Humm. Bom mesmo.

Ele riu. Jogava bilhar.

- Tá melhorando nisso aí?

Ele achava que sim, mas sentia que não.

- Não sei.

- Humm.

- E aí?

- O que que tem?

- Como é que ta a história.

- Não parece bem uma história. São cenas que se costuram.

- Cenas que se costuram, ele disse, pensativo, para si mesmo. Sabe o que você devia fazer?

- Não.

- Escrever um roteiro.

- Um roteiro?

- É, tipo, um roteiro mesmo. Com personagens, falas, ação... mas não ação tipo filme de super-herói, mas ação tipo uma história que vai pra algum lugar.

- To pensando em parar de escrever.

Ele pegou o taco e colocou atrás do pescoço.

- Humm.

- O quê?

- Sei lá. Pensei que não queria saber de outra coisa além de escrever, ser escritora.

- É, eu sei, mas... falta alguma coisa na minha vida. Quero tentar outras coisas, e... parece que já disse tudo que tinha que dizer no papel.

- Te entendo.

- Mesmo?

- Não. Mas eu não vou ser de muita ajuda. Eu trabalho, recebo salário no começo do mês, pago minhas contas e no final de semana se sobrar compro umas cervas. Não fico pensando em legado, ou coisas do tipo.

- Esse é o ponto. Não me importo com legado, também. Talvez eu ajudasse mais o mundo se me juntasse a uma instituição de caridade ou fazer algum projeto social, sei lá.

- Vira médica.

- Não, odeio cheiro de hospital.

- Há há há! De tantas coisas pra odiar na profissão de médico, você não gosta é de cheiro de hispital?

- É.

- Ta bom, então.

Ela tirou a folha da máquina de escrever. Gostava de ser diferente. Apesar do trabalho de ter que digitar no computador depois.

Amassou-a. jogou em direção a cesta. Errou.

Ele pegou a folha, desamassou, e leu.

- Não está tão ruim.

- Está sim.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

- É, tem razão.

Ela colocou a máquina de escrever de volta na maleta. Era uma portátil.

- Acho melhor começar a preparar a macarronada. O pessoal deve estar chegando com a bebida.

Ela deixou a maleta dentro da mala, no quarto com três beliches em que ela iria ficar.

Quando ela voltou na cozinha, ele estava na porta, com o taco de pé, a ponta sobre seu pé.

- Ta falando sério mesmo? Sobre... parar com tudo?

- To... To falando sério mesmo.

- Nossa.

- As pessoas mudam, Pedro.

- Mudam mesmo?

Ela parou.

- Bom... sei lá. Eu mudei.

Ele ficou encarando. Ela começou a procurar as panelas.

- Aonde ta a panela?

Ele apontou. O senhor que alugou o sítio para ele mostrou tudo, detalhe por detalhe, como as coisas funcionavam ali.

- Ah, achei.

Ela foi até a pia. Pôs a panela lá dentro e encheu-a de água.

- Isso é tudo, senhorita Pâmela?

- Isso é tudo, senhor Pedro.


Conto de Lucas Beça

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