terça-feira, 13 de março de 2018

Ponto de ônibus



Um rapaz espera o ônibus que o levará para casa depois de um longo dia. Teve que ficar mais tarde para ajudar na limpeza da lanchonete em que trabalha e perdeu a carona pra casa.

Ali, sozinho, às onze horas da noite, no ponto de ônibus, ele desviava o olhar em busca de alguma atividade suspeita. Os carros paravam no semáforo e sua imaginação começava a trabalhar. Já se via no porta-malas de um carro encardido indo pra não se sabia onde.

Ele olhava no relógio e tentava respirar fundo. Havia apenas uma senhora com uma bengala resmungando na outra ponta do banco. Ela se transformava em uma bruxa e tirava de sua bolsa um líquido gosmento e jogava nele. Ele estremeceu quando a imagem passou por sua cabeça.

Onze e três, onze e quatro, onze e cinco... Cada minuto demorava uma eternidade para passar. Ele não sabia que horas passaria o próximo ônibus. Tentava não pensar em coisas ruins. Mas não conseguia.

Passou a ouvir mentalmente suas músicas favoritas. Seu cachorro tinha mastigado seu fone e ainda não tinha dinheiro para comprar um novo. Também não adiantou. As únicas canções que vinham a sua mente eram tristes.

Ele acabara de fechar os olhos para lembrar alguma música alegre quando um toque em seu ombro quase resultou em um ataque cardíaco. O cheiro de álcool e fedor de não tomar banho inundou o seu nariz. Arregalou os olhos e pôs a mão no coração acelerado.

Em sua frente estava um bêbado infeliz de pernas bambas.

“Ô menino... Não dá pra arrumar dois real, não... ?”

O bêbado fechou os olhos e foi caindo em cima do rapaz. Conseguiu apoiar-se no banco. O rapaz se encolheu e continuou com os olhos arregalados, quando o indivíduo se apoiou em seu ombro e começou a vomitar.

Depois de se limpar com a manga de camisa, lentamente o embriagado sentou-se ao lado do rapaz. Ele tentou se afastar e quase caiu no chão.

“Desculpa, moço... Mas me arruma só dois real, vai...”, disse o bêbado e deu um sorriso desdentado. A barba suja não ajudava em nada sua aparência.

“N-n-não posso. S-s-só tenho o dinhier-r-ro da passagem.”

O rapaz estava tão assustado que gaguejava.

Íh! É gago! Há-há! Desculpa, desculpa. Por favor, estou te pedindo...”

O ônibus acabara de parar na sua frente. Se não fosse a senhora dar o sinal, passaria e ele teria que esperar pelo próximo. Isso se tivesse um próximo.

Ele saiu correndo de perto do bêbado e entrou no ônibus. Após se sentar, todos se afastaram dele por conta de seu novo aroma.

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