segunda-feira, 27 de novembro de 2017

BOICOTES


Crônica de Gustavo do Carmo

Há alguns meses, uma grande discussão tomou conta da opinião pública e das redes sociais. Uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM-SP – colocou um homem nu à disposição de crianças que quisessem tocá-lo. O peladão brincou até de roda com as meninas. Um claro incentivo à pedofilia.

O Fantástico, da Rede Globo, fez uma matéria para comentar a “polêmica”, ou melhor, a canalhice que atentava contra a moral e os bons costumes do Brasil. Só que acabou botando gasolina na fogueira ao só entrevistar defensores da arte indecente, todos ligados a partidos de esquerda, em vez de ouvir os dois lados, como manda a regra do jornalismo, ensinada nas faculdades (aliás, dominadas por comunistas). Todos condenando os que são contra a essa baixaria disfarçada de arte, chamando de intolerantes e preconceituosos.

Vou dar rapidamente a minha opinião: o problema da exposição não é a nudez. E sim o uso de crianças nessa exposição indecente. Aliás, outra manifestação artística de baixo nível, em Porto Alegre, também foi lembrada: o tal do Queermuseu, que mostrava pinturas e desenhos incentivando crianças a se tornarem homossexuais e a fazerem sexo com animais (zoofilia), além da pedofilia, claro.

A matéria tendenciosa provocou uma reação justíssima contra a Globo. E muitos propuseram boicotes à emissora e seus anunciantes. É aí que eu quero chegar. Ultimamente,  tenho feito, sim, alguns boicotes. Ou melhor, muitos contra a Globo. Por causa desta reportagem e por outros motivos também.

O Fantástico eu já não vejo mesmo antes da exibição desta reportagem. Motivos:

A) matérias sobre corrupção e violência urbana. No primeiro caso, mostram os casos, mas ninguém é punido, para variar. Só tem sensacionalismo. No segundo, maioria das reportagens sobre violência urbana foca no Rio de Janeiro. Como se aqui fosse o inferno e São Paulo, o paraíso. E também me sinto mal de tanta revolta. Seja em qualquer lugar do país.

B) Reportagens fúteis e tendenciosas como essa da exposição pornô.

C) Prioridade ao telespectador paulista. Ou melhor, aos anunciantes paulistas. Há muitos anos, a Rede Globo virou a porta-voz do governo de São Paulo e difamadora oficial do estado do Rio de Janeiro. Matérias positivas são sempre produzidas lá, o Tadeu Schimidt conversa mais com os cavalinhos dos clubes paulistas, os gols da rodada começam sempre pelos times bandeirantes, jornalistas paulistas ganham mais destaque e promoções, etc. Não estaria tão incomodado se a Globo não fosse a única emissora do país nascida no Rio de Janeiro. Parece aquele carioca que está doido para se mudar para São Paulo, porém, ainda não tem dinheiro para comprar um apartamento lá, mas, enquanto isso, fica falando mal de onde nasceu e foi criado e se junta ao inimigo (ou ao amigo falso).

D) Ex-colega de faculdade trabalhando como editora. Já sofro por nunca ter trabalhado como jornalista. Fico com vergonha de ser um desocupado enquanto meus colegas se dão bem. Por isso, me recuso a prestigiar gente que me boicota e finge que não me conhece nas redes sociais.

Também não vi A Força do Querer (Transgredir) – que fez apologia ao tráfico de drogas, não estou vendo esta atual das nove e programas da emissora produzidos em São Paulo, principalmente os telejornais. Ah, também não estou assistindo ao RJTV pelo excesso de violência. Até a edição local de Cabo Frio está insuportável de assistir. No seu canal a cabo, a Globonews, parei de assistir ao Estúdio i, que adorava. Transformou-se numa reunião de socialistas televisionada.

Só que, finalmente chegando ao que eu queria dizer, é impossível boicotar tudo. Assumo que ainda assisto à novela das sete, aos jogos da Seleção Brasileira de Futebol, aos jogos exibidos nos canais Sportv, às novelas do Canal Viva, à edição da meia-noite do jornal da Globo News. E ainda sou assinante do Jornal O Globo. Tudo das Organizações Globo. Também assumo que a Globo, tendências políticas à parte, é a emissora de melhor qualidade (imagem, transmissão e planejamento) do país.

Os comunistas - e até meus ex-colegas de faculdade - estão impregnados em tudo. (Quase) todos os atores, jornalistas, produtores, escritores... seguem ideologias de esquerda. Se eu boicotar tudo não consigo viver. Enlouqueço. Me emburreço. Perco amizades. Fico isolado. Quem quer boicotar tudo e todos acaba se tornando radical e solitário. Isso também vale (principalmente) para o pessoal da esquerda (que quer mudar o pensamento dos outros).

O que vou usar no lugar do Omo? Como vou substituir os produtos da Unilever? Vou impedir meus pais de consumirem? Vou usar sabão em pó vagabundo? Vou deixar de lavar roupa? Vou correndo cancelar a minha conta no Santander (que patrocinou o Queermuseu) ou no Itaú (que patrocinou a exposição do pedófilo e as meninas) só porque patrocinou uma exposição indecente? Dá o maior trabalho para abrir outra conta. E sai caro também. 

Em vez de comprar perfumes do Boticário vou comprar os da Jequiti, que parecem perfumes de fundo de quintal (mesmo não sendo) e nem são vendidos em lojas? A Natura também é esquerdista. Vou deixar de usar desodorante? Eu já prefiro Pepsi a Coca-Cola. Mas e se a Pepsi ou mesmo a Ambev se revelar esquerdista? E se algum ex-colega do curso de publicidade criou uma campanha para a Pepsi?

Televisão vou assistir a quê? Às novelas bíblicas (eu não gosto e até a minha mãe, que é religiosa, também não) e os telejornais – que mais criticam a Globo do que dão notícia - da Record? Um parêntese: na semana seguinte à matéria do Fantástico, a Record exibiu uma reportagem em resposta. Mas também só ouviu um lado, embora o correto. Mas a intenção foi criticar a Globo mesmo.

Continuando os dilemas: Vou assistir às breguices do SBT e da Rede TV!? O paulistismo exagerado da Band (assisto à Bandnews, mas mudo de canal quando passa o que não me agrada)? As pregações evangélicas da CNT? O esquerdismo da TV Brasil? Vou ler que jornal agora, se aqui no Rio só temos o Globo, o Dia e, em breve de volta, o Jornal do Brasil, todos esquerdistas?

O que me impede de fazer um boicote perfeito e coerente é a falta de opções de qualidade igual ou superior. Saindo do campo político, tenho que dar o exemplo das operadoras de telecomunicações. Todas são ineficientes. A Oi presta um serviço horrível de internet banda larga no meu bairro de subúrbio. Mas não tenho outra opção de operadora. A única que chega à minha rua é... a Oi.

No mesmo bairro só há quatro opções de padarias. Uma está decadente e com muitos produtos em falta. Outra é a que presta o melhor serviço, só que razoável. A terceira é um mercado que tem um pão que murcha rápido e a quarta fica num supermercado que fica lotado. Quando este supermercado fechou para reformas durante alguns meses, o bairro só ficou com o mercado que vende pão murcho para fazer compras.

Faço os meus boicotes pessoais e os que eu aceito aderir. Mas só até onde for possível. Caso contrário, eu preciso ser incoerente e hipócrita. 

Nenhum comentário:

Arquivo do blog